Diferenças nas manifestações da doença de Alzheimer abrem caminho para pesquisas

Pacientes com um tipo raro de doença de Alzheimer não apresentam a perda de memória característica da doença, mesmo com o passar do tempo, sugere uma nova pesquisa. Esses pacientes também apresentam algumas diferenças na neuropatologia em relação aos pacientes com doença de Alzheimer típica, o que aumenta a esperança de descoberta de novos mecanismos que possam proteger contra a perda de memória nas formas típicas da doença.

Dr. Marsel Mesulam

“Nós estamos descobrindo que a doença de Alzheimer tem mais de uma forma. Enquanto o paciente com doença de Alzheimer típica apresenta comprometimento da memória, pacientes com afasia progressiva primária associada à doença de Alzheimer são um pouco diferentes; eles têm problemas com a linguagem – sabem o que querem dizer mas não conseguem encontrar as palavras – mas a memória está intacta”, disse ao Medscape o médico e líder do estudo, Dr. Marsel Mesulam.

“Constatamos que esses pacientes apresentam os mesmos níveis de emaranhados neurofibrilares, que destroem os neurônios na porção do cérebro relacionada com a memória, assim como os pacientes com doença típica, mas nos pacientes com afasia progressiva primária por Alzheimer, o lado não dominante dessa parte do cérebro mostrou menor atrofia”, acrescentou o Dr. Marsel, que é diretor do Mesulam Center for Cognitive Neurology and Alzheimer’s Disease na Northwestern University Feinberg School of Medicine, nos Estados Unidos. “Parece que esses pacientes são mais resilientes em relação aos efeitos dos emaranhados neurofibrilares.”

Os pesquisadores também descobriram que dois biomarcadores que são reconhecidos fatores de risco na doença de Alzheimer típica não parecem ser fatores de risco de afasia progressiva primária associada à doença de Alzheimer.

“Essas observações sugerem que existem mecanismos que podem proteger o cérebro do tipo de comprometimento causado pela doença de Alzheimer. Estudar esses pacientes com afasia progressiva primária associada à doença de Alzheimer pode nos dar pistas sobre como procurar por esses mecanismos, o que pode levar a novos tratamentos para a perda de memória associada com a doença de Alzheimer típica”, comentou o Dr. Marsel.

O estudo foi publicado on-line na edição de 13 de janeiro do periódico Neurology.

A afasia progressiva primária é diagnosticada quando há comprometimento na linguagem em um cenário no qual a memória e o comportamento estão preservados, com cerca de 40% dos casos representando manifestações atípicas de doença de Alzheimer, explicaram os pesquisadores.

“Embora a gente soubesse que a memória da pessoa com afasia progressiva primária não era afetada em um primeiro momento, nós não sabíamos o funcionamento da memória era mantido com o passar dos anos”, observou o Dr. Marsel.

O estudo atual buscou avaliar se a preservação da memória na afasia progressiva primária associada à doença de Alzheimer é uma característica central consistente ou um achado transitório, confinado à apresentação inicial, e explorar a patologia subjacente da doença.

Os pesquisadores fizeram uma busca em seu banco de dados para identificar pacientes com afasia progressiva primária que foram autopsiados ou que tinham biomarcadores da doença de Alzheimer, e que também haviam realizado pelo menos duas consultas consecutivas nas quais avaliações de linguagem e memória foram obtidas com os mesmos testes.

O estudo incluiu 17 pacientes com afasia progressiva primária associada à doença de Alzheimer. Os participantes foram comparados com 14 pacientes com doença de Alzheimer típica com perda de memória.

Os autores apontaram que essa caracterização da memória em pacientes com afasia progressiva primária é desafiadora, porque a maioria dos testes utiliza listagem de palavras, então os pacientes podem ser reprovados no teste por conta do comprometimento relacionado com a linguagem. Para abordar essa questão, eles incluíram pacientes com afasia progressiva primária que realizaram avaliações de memória envolvendo recordatório de imagens de objetos comuns.

Os pacientes com doença de Alzheimer típica foram submetidos a testes semelhantes, mas utilizaram uma lista de palavras comuns.

Uma segunda rodada de testes foi conduzida no grupo com afasia progressiva primária em média 2,4 anos depois e no grupo com doença de Alzheimer típica em média 1,7 anos depois.

Imagens cerebrais também estavam disponíveis para pacientes com afasia, assim como avaliações post-mortem de oito dos casos de afasia progressiva primária e de todos os casos com doença de Alzheimer.

Os resultados mostraram que os pacientes com afasia progressiva primária não apresentavam redução em suas habilidades de memória quando realizaram os testes pela segunda vez. Naquele momento, eles apresentavam os sintomas da doença por uma média de seis anos. Por outro lado, suas habilidades de linguagem declinaram significativamente durante o mesmo período. Para os pacientes com doença de Alzheimer típica, a memória verbal e as habilidades de linguagem declinaram com gravidade semelhante durante o estudo.

Os resultados post-mortem mostraram que os dois grupos apresentaram graus comparáveis de patologia da doença de Alzheimer no lobo temporal medial – a principal área do cérebro afetada pela demência.

No entanto, os exames de ressonância magnética mostraram que os pacientes com afasia progressiva primária apresentavam atrofia assimétrica do hemisfério dominante (esquerdo) com o lobo temporal medial direito sendo poupado, indicando ausência de neurodegeneração no hemisfério não dominante, apesar da presença das alterações patológicas da doença de Alzheimer.

Também foi mostrado que pacientes com afasia progressiva primária tinham uma prevalência significativamente menor de dois fatores fortemente associados à doença de Alzheimer – patologia com proteína TDP-43 e positividade para APOE ε4 – do que os pacientes com a doença típica.

Os autores concluíram que: “A síndrome de Alzheimer com afasia progressiva primária oferece oportunidades únicas para explorar os fundamentos biológicos desse fenômeno que modula o impacto da neuropatologia do Alzheimer na função cognitiva.”

“Preservação da cognição é o Santo Graal”

Em um editorial que acompanha o estudo, o Dr. Seyed Ahmad Sajjadi, médico da University of California, nos EUA; a Dra. Sharon Ash, Ph.D., University of Pennsylvania, nos EUA; e o Dr. Stefano Cappa, University School for Advanced Studies Pavia,na Itália, disseram que esses achados têm aplicações importantes, “pois, afinal, a preservação da cognição é o Santo Graal da pesquisa na área”.

Eles apontaram que as observações atuais implicam em “uma dissociação entre neurodegeneração e patologia” em pacientes com Alzheimer do tipo afasia progressiva primária, acrescentando que “parece razoável concluir que a neurodegeneração, e não a mera presença de alterações patológicas, é o que se correlaciona com a apresentação clínica nesses pacientes”.

Os editorialistas observaram que o estudo teve algumas limitações: o tamanho da amostra é relativamente pequeno; nem todos os pacientes com Alzheimer do tipo afasia progressiva primária foram submetidos a autópsia; a ressonância magnética só estava disponível para o grupo da afasia; e os dois grupos realizaram testes de memória diferentes para comparação da memória de reconhecimento.

Mas eles concluíram que o trabalho “fornece ideias importantes sobre os potenciais motivos para a vulnerabilidade diferencial do substrato neural de memória naqueles com diferentes apresentações clínicas da doença de Alzheimer”.

O estudo foi financiado pelo National Institute on Deafness and Communication Disorders, pelo National Institute of Neurological Disorders and Stroke, National Institute on Aging, pela Davee Foundation e pelo Jeanine Jones Fund.

 

 

FONTE: MEDSCAPE

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