O curioso caso do homem que acreditava ter ELA

distonia grave de três dedos da mão de um paciente deixou os médicos perplexos, mas uma investigação clínica obstinada acabou levando-os a fazer o diagnóstico deste caso incomum.

Um paciente de 50 e tantos anos se apresentou a uma consulta com o Dr. Vikram Preet Kaur, médico residente que trabalha junto com o médico Dr. Alan R. Hirsch no Mercy Hospital and Medical Center, nos Estados Unidos, com torção involuntária e dolorosa de três dedos da mão direita.

“Analisamos a história familiar e descartamos um distúrbio de movimento e fizemos um exame físico para descartar Parkinson”, disse o Dr. Vikram ao Medscape. “Também perguntei se ele estava tomando algum antipsicótico, mas tudo foi negativo.”

Então o Dr. Vikram investigou um pouco mais a fundo, e quando perguntou ao paciente como a distonia tinha começado, o caso deu uma guinada interessante.

O paciente relatou dor no pescoço com espasmos intermitentes e contrações musculares no braço direito nos últimos nove meses, e disse que estava com medo de ter esclerose lateral amiotrófica (ELA). Ele contou para o Dr. Vikram que estava tão ansioso com a possibilidade de ter ELA, que não conseguia parar de buscar por diagnósticos na internet, usando seu iPhone constantemente.

Suas compulsões ficaram tão fortes que ele quebrou quatro iPhones de tanto digitar nas telas. Dr. Vikram Preet Kaur

O Dr. Vikram disse que o paciente foi assegurado de que ele não tinha ELA. Mesmo assim, ele continuou vasculhando a internet em seu iPhone na tentativa de encontrar uma resposta. O Dr. Vikram disse que a esposa do paciente relatou que as compulsões de seu marido “ficaram tão fortes que ele quebrou quatro iPhones de tanto digitar nas telas”.

Este era um caso inédito para o Dr. Vikram. Não é incomum, afirmou o médico, que pacientes — geralmente musicistasjogadores de golfe ou barbeiros —desenvolvam distonia nas mãos por conta de movimentos repetitivos. No entanto, afirmou ele, este caso era “completamente novo”.

“Como todos os testes neurológicos foram negativos, começamos a suspeitar que seu comportamento obsessivo-compulsivo em relação ao iPhone havia causado a distonia”, disse ele.

O uso excessivo dos músculos da mão necessários para ligar e desligar o iPhone repetidamente na compulsão desse paciente, assim como quando musicistas praticam repetidamente a mesma estrofe, pode tê-lo predisposto ao desenvolvimento de distonia nos mesmos grupos musculares.

“Pensamos que a prática compulsiva dessa atividade pode ter diminuído o limiar na rede motora envolvendo o córtex motor ou os gânglios da base”, explicou o Dr. Vikram.

Lições aprendidas

A distonia do paciente acabou se agravando tanto que ele não conseguia mais ligar o telefone com a mão direita, precisando usar a esquerda. O Dr. Vikram e sua equipe aplicaram injeções de toxina botulínica para aliviar a distonia.

Após o tratamento, os sintomas desapareceram rapidamente e, depois da resolução da dor e do desconforto da distonia, e de o paciente ficar ainda mais seguro de que não tinha ELA, seus sintomas obsessivos-compulsivos também começaram a diminuir.

Com base neste caso, segundo o Dr. Vikram, pode ser útil rastrear pacientes com distonia focal para um componente obsessivo-compulsivo. Se for constatado que faz parte do quadro clínico, pode valer a pena tentar um tratamento com ansiolíticos e/ou terapia cognitivo-comportamental. Por outro lado, acrescentou, também pode valer a pena verificar se os pacientes com transtorno obsessivo-compulsivo apresentam distonia em grupos musculares específicos.

Com o uso prolongado de smartphones em ascensão – e com mais indivíduos condicionados a verificar seus smartphones com frequência – o Dr. Vikram sugeriu que os médicos podem querer compartilhar os detalhes desse caso incomum com os seus pacientes.

“Os pacientes devem ser informados de que o toque contínuo nas telas pode causar essa distonia associada a uma tarefa específica”, disse ele.

 

 

FONTE: MEDSCAPE

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