Mais evidências de que anticolinérgicos aumentam risco de comprometimento cognitivo leve

Os anticolinérgicos comuns (comercializados com ou sem necessidade de prescrição médica) estão associados a um risco significativamente maior de comprometimento cognitivo leve e declínio cognitivo em idosos com função cognitiva normal, confirma uma nova pesquisa.

Em um estudo com mais de 700 indivíduos, os pesquisadores constataram que esses medicamentos, que englobam alguns anti-hipertensivos, antialérgicos e antidepressivos, foram associados a um risco 47% maior de comprometimento cognitivo leve em idosos saudáveis.

“O que mais me impressionou foi o fato de termos encontrado essas associações muito expressivas em uma amostra de pacientes bastante saudáveis”, disse a pesquisadora Dra. Lisa Delano-Wood, Ph.D., ao Medscape.

“Muitos estudos mostraram efeitos semelhantes, mas nunca pudemos ter certeza se essas amostras eram enviesadas, porque os participantes eram mais velhos e já tinham perda cognitiva bem avançada”, acrescentou a Dra. Lisa, que é codiretora do Memory, Aging & Resilience Clinic da University of California, San Diego School of Medicine, nos Estados Unidos.

“Nosso estudo acrescenta um pouco a esses achados anteriores, pois mostramos esses efeitos negativos em pessoas que eram, em geral, mais jovens e cognitivamente normais no início do estudo, mas que progrediram para comprometimento cognitivo leve, o que é um fator de risco importante para a doença de Alzheimer. Nós também mostramos que certas pessoas com risco genético de doença de Alzheimer parecem ser mais vulneráveis aos efeitos desses medicamentos”, acrescentou ela.

O estudo foi publicado on-line em 02 de setembro no periódico Neurology.

Risco subestimado

Dada a crescente prevalência de doença de Alzheimer em todo o mundo, os estudos sobre os fatores de risco que podem acelerar o comprometimento cognitivo em idosos estão ganhando importância.

Embora os anticolinérgicos possam representar um desses fatores de risco, as alterações cognitivas em longo prazo associadas ao uso desses medicamentos – particularmente entre idosos sem perda cognitiva – muitas vezes são subestimadas pelos médicos, explicaram os pesquisadores.

No entanto, dados sobre a interação entre anticolinérgicos e comprometimento cognitivo estão começando a surgir. Estudos anteriores em animais demonstraram que a privação colinérgica pode promover a neurodegeneração em regiões do cérebro vulneráveis à doença de Alzheimer.

Conforme reportado pelo Medscape, um estudo caso-controle observacional descobriu que o uso de anticolinérgicos fortes durante três anos ou mais por pessoas de meia-idade e idosas estava associado a um risco quase 50% maior de demência.

A Dra. Lisa teve a sua própria experiência com os medicamentos. “Ao longo dos anos, eu observei a ocorrência de polifarmácia em muitos de meus pacientes com disfunção cognitiva e, muitas vezes, os medicamentos que apareciam em seus prontuários eram os mesmos”, disse ela.

Dadas essas associações, bem como a premissa de que os anticolinérgicos podem danificar regiões cerebrais vulneráveis e contribuir para o declínio cognitivo, os pesquisadores examinaram os potenciais mecanismos, a fim de determinar se os indivíduos com fatores de risco de doença de Alzheimer poderiam se beneficiar da redução do uso de anticolinérgicos.

Na análise longitudinal, eles usaram uma série de testes neuropsicológicos sensíveis para ajudar a avaliar os efeitos dos anticolinérgicos e a interação dos medicamentos com fatores de risco genéticos e de líquido cefalorraquidiano de doença de Alzheimer na progressão para o comprometimento cognitivo leve entre indivíduos sem déficits anteriores.

O estudo incluiu 688 participantes cognitivamente normais (média de idade de 73,5 anos; 49,6% eram mulheres) da Alzheimer’s Disease Neuroimaging Initiative (ADNI). As informações do banco de dados foram usadas para identificar o uso de anticolinérgicos na consulta inicial de cada participante.

Os pesquisadores avaliaram o que chamaram de carga anticolinérgica por meio tanto uma pontuação dicotômica como uma nova métrica cumulativa desenvolvida por eles. O escore da carga cumulativa foi baseado no número, dosagem e força dos anticolinérgicos utilizados pelos participantes.

Uma série de variáveis clínicas, como sintomas depressivos, risco vascular, status de portador de APOE e patologia da doença de Alzheimer no líquido cefalorraquidiano, foram avaliados. A incidência de comprometimento cognitivo leve foi determinada por meio de testes neuropsicológicos.

Por fim, os efeitos dos anticolinérgicos no declínio cognitivo específico de um domínio foram avaliados usando dados de uma bateria de testes neuropsicológicos para linguagem, atenção/função executiva e memória.

Os pesquisadores usaram análises de regressão para avaliar o risco de progressão para comprometimento cognitivo leve em 10 anos, enquanto os modelos lineares de efeitos mistos avaliaram as taxas de três anos de declínio de memória, função executiva e linguagem em função do uso de anticolinérgicos.

Nem sempre se trata de prescrição excessiva por parte dos médicos

Os resultados mostraram que 230 dos 688 participantes (33%) estavam usando anticolinérgicos (média de 4,7 anticolinérgicos por pessoa). Metoprololatenololloratadina e bupropiona foram os mais comuns.

Dos 230 indivíduos tomando anticolinérgicos, 117 (51%) apresentaram comprometimento cognitivo leve subsequente, em comparação com 192 dos 458 que não utilizaram esse tipo de medicamento (42%). No total, aqueles que fizeram uso de anticolinérgicos demonstraram um aumento do risco de comprometimento cognitivo leve de 47% em um período de 10 anos (razão de risco ou hazard ratio, HR de de 1,47; P = 0,01).

Não surpreende que a avaliação dos escores de carga anticolinérgica cumulativa tenha revelado que uma carga maior foi associada a aumento do risco de comprometimento cognitivo leve.

Em relação ao risco genético, os resultados mostraram que os pacientes que usaram anticolinérgicos e tinham o alelo APOE ε4 foram duas vezes mais propensos a desenvolver comprometimento cognitivo leve do que os que fizeram uso dos medicamentos, mas não tinham o alelo APOE ε4 (HR de 2,69; P < 0,001).

Os efeitos da interação de risco do líquido cefalorraquidiano mostraram resultados semelhantes. Indivíduos que usaram anticolinérgicos e foram positivos para biomarcadores do líquido cefalorraquidiano para a doença de Alzheimer tiveram um risco relativo quase cinco vezes maior do que aqueles que usaram os medicamentos, mas não tinham esses biomarcadores (HR de 4,89; P < 0,001).

Diante desses achados, não foi surpresa para os pesquisadores que os modelos lineares de efeitos mistos mostraram que o consumo de anticolinérgicos previu uma inclinação mais acentuada de declínio na memória (P = 0,02) e na linguagem (P = 0,02). Esses efeitos foram exacerbados naqueles com fatores de risco de doença de Alzheimer.

Curiosamente, os pesquisadores também descobriram que os participantes estavam tomando anticolinérgicos em doses muito mais elevadas do que a menor dose efetiva recomendada para idosos. Na verdade, 57% dos participantes utilizavam o dobro da dosagem recomendada, enquanto 18% estavam tomando pelo menos quatro vezes a dosagem recomendada.

“Isso é importante, porque é necessário haver um equilíbrio entre a otimização dos fármacos e a diminuição da toxicidade e da carga anticolinérgica geral”, disse a Dra. Lisa. “O que torna isso ainda mais difícil é que muitos desses anticolinérgicos podem ser adquiridos sem prescrição.”

“Portanto, nem sempre se trata de prescrição excessiva por parte dos médicos –também há pacientes que tomam mais do que o prescrito para eles.”

Ao abordar as limitações do estudo, a Dra. Lisa reconheceu que apenas um terço dos participantes do estudo fizeram uso de anticolinérgicos – muito menos do que os até 70% relatados em estudos semelhantes.

Os achados do estudo não apenas consolidam a associação entre o consumo de anticolinérgicos e a progressão para comprometimento cognitivo leve, mas também demonstraram que a carga cumulativa do consumo de anticolinérgicos pode desempenhar um papel importante.

A Dra. Lisa disse que o estudo também indicou que reduzir o uso de anticolinérgicos antes que as pessoas apresentem problemas cognitivos pode ser uma forma importante de mitigar as consequências negativas desses medicamentos, particularmente entre aqueles com risco elevado de doença de Alzheimer.

“Na minha clínica de memória, todos os pacientes procuram nosso geriatra para o que chamamos de reconciliação de medicamentos”, disse ela. “O geriatra analisa todos os medicamentos e trabalha com os pacientes para tentar outras classes farmacológicas que não tenham efeitos anticolinérgicos. Portanto, torna-se um relacionamento com o médico para minimizar a carga anticolinérgica.”

Importante, mas não é novidade

Em seus comentários sobre os achados do estudo para o Medscape, o Dr. Ronald C. Petersen, Ph.D., médico da Mayo Clinic, nos EUA, que não participou do estudo, disse que, embora as descobertas sejam importantes, elas não parecem ser particularmente novas.

“O efeito dos anticolinérgicos na memória é conhecido há décadas”, disse o Dr. Ronald, que é membro da American Academy of Neurology.

“Mesmo assim, é importante para os pacientes e médicos saberem que os medicamentos com propriedades anticolinérgicas podem ter um efeito deletério na memória”, continuou ele. “Portanto, se você tem um paciente com tendência a demência e você prescreve uma gota de anticolinérgico, ele pode ficar significativamente comprometido.”

“Dito isso, é muito cedo para afirmar que esses medicamentos de fato causam demência”, acrescentou o Dr. Ronald. “Eu realmente não tenho certeza disso.”

A Dra. Lisa observou que mais estudos são necessários para determinar se a interrupção do uso de anticolinérgicos leva a uma redução do risco de comprometimento cognitivo leve e de doença de Alzheimer.

“Existem vários estudos de remoção de prescrição em andamento que são realmente empolgantes”, disse ela. “A ideia é ver se as pessoas de fato melhoram quando retiramos esses medicamentos.”

 

FONTE: MEDSCAPE

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