Imagens do cérebro revelam base neural para a política partidária

As diferenças entre indivíduos com inclinações políticas à esquerda ou à direita podem ter bases neurais, segundo um novo estudo com exames de imagem do cérebro.

Pesquisadores descobriram que, apesar de assistirem aos mesmos vídeos relacionados com política de imigração, as respostas neurais foram diferentes em liberais e conservadores dos Estados Unidos.

“Essa divergência foi mais forte quando os vídeos usaram uma linguagem com maior tom de ameaça, moralidade e emoções, o que sugere que certas palavras têm maior probabilidade de gerar uma resposta polarizada”, disse ao Medscape, o pesquisador principal Dr. Yuan Chang Leong, pesquisador pós-doutorado em neurociência cognitiva na University of CaliforniaBerkeley, nos Estados Unidos.

“Os resultados sugerem uma base neural para o viés partidário na interpretação de mensagens políticas, os efeitos que esses vieses têm sobre a mudança de atitude e o tipo de linguagem com maior probabilidade de gerar interpretações tendenciosas”, acrescentou o Dr. Yuan.

O estudo foi publicado on-line em 20 de outubro no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences.

Configurados para discordar?

Os pesquisadores combinaram a fMRI com análise de conteúdo semântico para estudar os mecanismos neurais que estão por trás do processamento enviesado do conteúdo político.

Eles fizeram exames de imagem em 38 homens e mulheres de meia-idade com atitudes de tendência liberal ou conservadora sobre o tema imigração, enquanto os participantes assistiam a curtos vídeos com notícias, anúncios de campanha e discursos públicos relacionados com várias políticas de imigração.

Essas políticas incluíram as que levaram ao muro na fronteira entre Estados Unidos e México, proteções DACA (do inglês, Deferred Action for Childhood Arrivals) para imigrantes sem documentos, a proibição da entrada refugiados de países de maioria muçulmana nos Estados Unidos e o corte de financiamento federal para cidades-santuário.

Depois de cada vídeo, os participantes avaliaram em uma escala de 1 a 5 o quanto concordavam com a mensagem geral do vídeo, a credibilidade das informações apresentadas e quanto o vídeo os fez mudar de posição e apoiar a política em questão.

O estudo revelou evidências de “polarização neural” – atividade no cérebro que diverge entre pessoas com visões políticas liberais e conservadoras, relataram os pesquisadores.

A polarização neural foi observada no córtex pré-frontal dorsomedial (CPFDM), uma região do cérebro associada à interpretação do conteúdo narrativo.

A polarização neural nessa região se intensificou durante momentos nos vídeos com linguagem relacionada ao risco e ao moral-emocional, o que mostra qual conteúdo tem maior probabilidade de gerar interpretações divergentes entre conservadores e liberais, explicaram eles.

Para um indivíduo, quanto mais próxima a atividade cerebral se assemelhar à do “conservador médio” ou do “liberal médio”, maior a probabilidade de a pessoa adotar a posição desse grupo depois de assistir aos vídeos.

“Sabemos que os partidários respondem de forma diferente às mesmas informações. Nesse sentido, não é surpresa descobrir que seus cérebros respondem de maneira diferente também”, disse o Dr. Yuan ao Medscape.

“O que não tínhamos certeza era sobre onde no cérebro encontraríamos essas diferenças, como as diferenças neurais estavam relacionadas à mudança de atitude e que tipo de conteúdo teria maior probabilidade de estar associado a essas diferenças”, disse ele.

Cabe destacar, disse o Dr. Yuan, que essas diferenças não significam que as pessoas estão configuradas para discordar. Elas indicam apenas que as experiências individuais e o conteúdo consumido provavelmente contribuem para a polarização neural.

“Se o nosso objetivo é reduzir a polarização e mudar opiniões, precisamos pensar cuidadosamente sobre como apresentamos e estruturamos as informações políticas – por exemplo, ao apresentar mensagens com apelo aos valores fundamentais de um eleitor”, disse ele.

Estimulação cerebral para alterar a percepção política?

Em seus comentários, o Dr. Shaheen Lakhan, Ph.D., neurologista e diretor executivo da Global Neuroscience Initiative Foundation, nos EUA, disse que a pesquisa “dá um passo à frente em direção à identificação de como os nossos cérebros interpretam informações políticas”.

O estudo, disse o Dr. Shaheen, indicou uma estrutura cerebral específica, o córtex pré-frontal dorsomedial, que é a “lente” pela qual as informações que chegam ao nosso cérebro são “visualizadas e uma ação é tomada”.

“Acredito que haverá muito mais pesquisas usando uma abordagem semelhante com a fMRI para estudar cenários além da política de imigração, como feito neste estudo. No futuro, as assinaturas cerebrais por meio da fMRI podem ser capazes de dizer a tendência política de um indivíduo, e talvez tecnologias como a estimulação magnética transcraniana possam ser capazes de modular nossas percepções em relação ao conteúdo político, disse o Dr. Shaheen.

 

FONTE: MEDSCAPE

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