O caso de aicmofobia que culminou em parada cardiorrespiratória

Um homem de 23 anos, solteiro e sem filhos, finalizou o primeiro ciclo de quimioterapia internado e então foi encaminhado para o tratamento quimioterápico em regime ambulatorial. Mas, no quarto dia do segundo ciclo de quimioterapia, ele desmaiou durante a punção periférica. O paciente se recuperou do desmaio e prosseguiu com o tratamento, sem mais intercorrências. No dia seguinte, ele solicitou que o acesso venoso não fosse posicionado no dorso da mão.

“Hipervigilante, taquidispneico, sudoreico, pálido e com musculatura tensa”, descreveu a equipe de enfermagem, [1] que, após avaliar os sinais vitais do paciente, deu sequência ao procedimento. A perda da consciência, com cianose, dilatação de pupilas, pressão arterial inaudível e pulso carotídeo não palpável ocorreu no momento da inserção do cateter. Após manobras de reanimação cardiopulmonar o paciente se recuperou.

“No cenário oncológico, este relato de caso representa um alerta para enfermeiros dos potenciais riscos e da gravidade da punção endovenosa em pacientes com fobia”, destacaram os autores da Universidade Federal Fluminense (UFF), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e do Centro Universitário Celso Lisboa.

“A escassez de estudos realizados no Brasil e a pouca divulgação na mídia repercutem de maneira negativa nos estigmas associados aos transtornos fóbicos, em especial o medo de agulha”, disse por e-mail ao Medscape o primeiro autor da pesquisa, o doutorando da UFF, Ângelo Braga Mendonça.

“Isto contribui para agravar a condição dos pacientes e fazer com que não se sintam seguros para relatar sua condição e pedir ajuda. Eles são extremamente vulneráveis por serem dependentes de procedimentos com agulha para se manterem vivos e, consequentemente, podem evitar imunização, quimioterapia, transfusão de sangue e induzir outros comportamentos de evitação que geram sérios riscos à saúde.” Ângelo lamentou que o medo ainda seja encarado como “frescura”, e disse que acredita que uma discussão mais aprofundada pode ser um caminho para mudar a forma de olhar social para estes pacientes.

Medo por antecipação

Tanto o medo como a fobia de agulha são mais prevalentes nas mulheres do que nos homens. Na literatura, a fobia de agulha já foi apontada como causa de morte em procedimentos como doação de sangue, punção arterial e pleural e injeção intramuscular. A visão de uma agulha é capaz de desencadear crises de ansiedade, pavor e medo nos pacientes, agravando-se pelo uso repetido da rede venosa, por tentativas de punção malsucedidas, veias difíceis de serem acessadas, uso prolongado de medicamentos vesicantes/irritantes e outras situações causadoras de estresse, como progressão de doença e falha do tratamento. [2]

O problema é reconhecido, mas não se sabe o quanto afeta a prática médica e a cobertura vacinal. A literatura é escassa. Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2019 concluiu que o medo de agulha é comum em pacientes que necessitam de cuidados preventivos e em pessoas em tratamento. A maioria das crianças apresenta medo de agulha, enquanto as estimativas de prevalência do medo da agulha variam de 20% a 50% em adolescentes e 20% a 30% em adultos jovens. [2]

A mesma pesquisa revela que a prevenção da vacinação contra a gripe por medo de agulhas foi referida por 8% dos profissionais de saúde nos hospitais e 27% dos funcionários do hospital, assim como 18% dos trabalhadores em instituições de longa permanência.

Consultado pelo Medscape, o Dr. Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), relativizou a questão. Segundo o Dr. Juarez, o medo a agulha não é incomum, especialmente em adolescentes, mas não justifica baixas na cobertura nem falta de adesão.

“Diante de um caso é importante levar em consideração a história do paciente, e respeitar essa história, porque pode ser decorrente de um trauma. Mas, na maioria das vezes, é possível realizar a vacina conversando e tranquilizando a pessoa, além de serem necessários alguns cuidados, por exemplo, assegurar que o paciente permaneça sentado por algum tempo após a aplicação”.

O Dr. Claudio Meneghello Martins, médico psiquiatra e vice-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, compartilhou outro ponto de vista com o Medscape: “A aicmofobia afeta de 3,5% a 10,0% da população no mundo. Em alguns casos a reação é muito intensa, às vezes a pessoa pode ficar com pensamentos recorrentes ou evitar procedimentos. Não sei como afeta a vacinação, mas é provável que repercuta na mesma proporção em uma campanha, ou seja, em uma campanha vacinal destinada a 100.000 pessoas, é possível que entre 3.500 a 10.000 não se vacinem por medo de agulha. É um bom estudo a ser feito!”

História e expectativas

“Às vezes os pais, ao tentarem controlar as crianças, ameaçam a levar ao médico para dar uma injeção. Isso fica marcado como se fosse uma punição, e por vezes acompanha a pessoa até, com o tempo, conseguir dessensibilizar”, explicou o Dr. Claudio. O paciente do Rio de Janeiro descrito no início deste artigo negou eventos traumáticos na infância e adolescência envolvendo procedimentos invasivos, mas disse que o pavor de inserções endovenosas surgiu após a inserção venosa no dorso de sua mão para administração de contraste.

A equipe de enfermagem educou o paciente com informações factuais, e o ensinou a substituir pensamentos que aumentam o medo por outros que potencializam a autoconfiança. Ele foi incentivado a escolher técnicas de distração e orientado quanto à técnica de aplicação de tensão muscular isométrica repetida nos músculos das pernas, nádegas, abdome ou tronco para prevenir e amenizar os sintomas de pré-síncope e síncope. Além de informação e auxílio na identificação da situação causadora de pânico e ansiedade, o sucesso da conduta se deveu também, em grande parte, à retirada do estímulo causador de estresse pela implantação de cateter venoso central de longa permanência.

“Dependendo do impacto, e se gera disfuncionalidade, o paciente pode necessitar de suporte psiquiátrico”, destacou o Dr. Claudio mencionando tratamentos utilizados para dessensibilizar, tanto medicamentosos, como terapias cognitivo-comportamentais e psicoeducativas.

As terapias de exposição controlada são muito utilizadas no enfrentamento de fobias. O tratamento consiste em expor a pessoa ao objeto que a leva à situação fóbica, no ritmo e no tempo da pessoa, e com suporte especializado.

 

 

FOTE: MEDSCAPE

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