Eletroconvulsoterapia no transtorno bipolar: melhora de todos os sintomas

eletroconvulsoterapia (ECT) parece melhorar todas as características clínicas do transtorno bipolar , levando a altas taxas de remissão e reduzindo o risco de suicídio em mais de 80%, segundo uma nova pesquisa.

No maior estudo sobre esse tratamento realizado em um único centro até o momento, pesquisadores italianos avaliaram todos os pacientes com transtorno bipolar que foram internados neste serviço ao longo de 13 anos. Os resultados mostraram taxas de resposta à eletroconvulsoterapia > 80% para sintomas de hiperatividade motora, grandiosidade, agitação e tensão. Para várias características clínicas, as taxas de remissão foram maiores que 60%.

Além disso, 84% dos participantes que tinham alto risco de suicídio antes da eletroconvulsoterapia não apresentaram mais sintomas evidentes após o tratamento.

“Não encontramos esse nível de melhora aguda com nenhum outro tratamento”, disse ao Medscape o pesquisador principal, Dr. Giulio Brancati, médico, Università di Pisa, na Itália.

Consequentemente, a eletroconvulsoterapia “deve ser considerada um tratamento altamente eficaz para pacientes com comprometimento importante que apresentarem distúrbios motores, afetivos ou cognitivos graves”, disseram os pesquisadores.

Os achados foram apresentados no 33º congresso do European College of Neuropsychopharmacology (ECNP) – realizado on-line este ano por causa da pandemia de covid-19 –, após a publicação parcial do estudo no periódico The World Journal of Biological Psychiatry.

Um estudo do “mundo real”

Os pesquisadores explicaram que, além do suicídio, o impacto da eletroconvulsoterapia nas características clínicas específicas das doenças mentais “raramente foi estudado”.

Para determinar o efeito do tratamento sobre cada um dos sinais e sintomas dos estados depressivos e mistos, os pesquisadores examinaram dados de 670 pacientes com transtorno bipolar internados em seu serviço entre janeiro de 2006 e julho de 2019.

Todos os pacientes tinham pelo menos 18 anos, preenchiam os critérios de transtorno bipolar da 5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5, sigla do inglês, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th edition) e obtiveram pelo menos oito pontos na Escala de Avaliação de Depressão de Hamilton. Eles também haviam sido submetidos a no mínimo três sessões de eletroconvulsoterapia, a eletroconvulsoterapia bilateral de pulso breve foi administrada duas vezes por semana.

“Este é um estudo do mundo real, não um ensaio clínico. Um ensaio formal teria sido difícil e provavelmente antiético nesses pacientes, muitos dos quais estavam gravemente doentes”, disse o Dr. Giulio.

“Em geral, esses pacientes só foram encaminhados para nós após várias tentativas de tratamento falharem, portanto, a maioria tinha poucas opções terapêuticas”, disse ele.

“Cerca de 93% tentaram tratamento farmacológico, sem sucesso; e 88% não melhoraram mesmo com dois medicamentos diferentes”.

Para examinar o efeito da eletroconvulsoterapia, a equipe usou a versão expandida com 24 itens da escala breve de avaliação psiquiátrica (BPRS-EV, sigla do inglês,Brief Psychiatric Rating Scale–Expanded Version).

Os pesquisadores avaliaram as mudanças absolutas nas pontuações de cada item da escala de classificação antes e depois do tratamento, bem como as taxas de resposta e remissão (definidas como, respectivamente, < 5 e ≤ 2 pontos após o tratamento).

Redução do suicídio

Ao início do estudo, todos os itens da BPRS-EV, exceto um, foram classificados como moderadamente a extremamente graves, o que foi definido como ≥ 5 pontos para mais de 5% dos pacientes. A exceção foi a grandiosidade grave, que foi demonstrada por apenas 3%.

Mais de um terço dos pacientes foram classificados como grave para depressão, ansiedade, alteração do pensamento e afeto embotado.

Após o tratamento com eletroconvulsoterapia, a taxa de resposta foi > 80% para cada item da BPRS-EV. Melhorias de mais de 95% foram encontradas nas pontuações para hiperatividade motora (100,0%), grandiosidade (100,0%), agitação (97,8%), tensão (97,7%), suicídio (97,4%), comportamento bizarro (96,9%) e culpa (95,9%).

A evolução nas pontuações foi significativa para todos os itens (P < 0,002), com os maiores tamanhos de efeito observados para depressão, ansiedade, autonegligência, culpa, suicídio, tensão, afeto embotado e retardo motor (R = de 0,67 a 0,82).

A maior taxa de remissão após a eletroconvulsoterapia foi observada no suicídio, 84,4% dos pacientes que foram considerados como tendo alto risco antes do tratamento não apresentaram mais sintomas evidentes após o tratamento.

Taxas de remissão de > 60% também foram registradas para maneirismos graves (80,0%), falta de cooperação (71,0%), hostilidade (70,6%), agitação (66,7%), hiperatividade motora (64,6%) e desconfiança (61,5%).

Por outro lado, a remissão foi apenas leve (definida como taxa de remissão < 40%) para a depressão, afeto embotado, alteração do pensamento, preocupação somática, ansiedade e autonegligência.

Ainda controverso?

O presidente do Comitê de Abstract and Poster do ECNP, Dr. Henricus Ruhé, médico psiquiatra do Radboud University Medical Center, na Holanda, disse que o estudo “mais uma vez mostrou que a eletroconvulsoterapia pode ser um tratamento que salva vidas e não deveria ser negado aos pacientes que sofrem de transtornos de humor de difícil tratamento”.

Embora reconhecendo a possibilidade de efeitos colaterais, como perda de memória, ele disse que a efetividade da eletroconvulsoterapia geralmente é maior do que qualquer efeito colateral “nesses pacientes graves, que de outra forma poderiam sofrer por muito mais tempo ou não ter nenhum tratamento efetivo”.

“Infelizmente, apesar das evidências de longo prazo, a eletroconvulsoterapia ainda é vista como um tratamento controverso pelo público e pela mídia, e também por muitos pacientes e familiares”, disse o Dr. Henricus.

Este é o caso da Itália em particular, que, apesar de ser o berço da eletroconvulsoterapia, tem poucos centros que oferecem o tratamento.

O Dr. Giulio disse ao Medscape que, apesar disso, sua equipe não teve problemas para conduzir o estudo; sua região determina que o procedimento deve ser realizado junto com monitoramento e avaliação rigorosos do paciente.

Ele também encontrou “um interesse renovado por pesquisas sobre eletroconvulsoterapia, com foco em efeitos clínicos e fundamentos neurobiológicos” na Itália, e afirmou que espera “que as novas evidências da literatura, antigas e novas, ajudem a melhorar a eletroconvulsoterapia, aumentar sua disponibilidade e reduzir o estigma”.

No entanto, Dr. Giulio destacou o “papel essencial” que os meios de comunicação de massa precisam desempenhar na conscientização sobre o potencial da eletroconvulsoterapia.

Desestigmatizante

Comentando sobre a pesquisa para o Medscape, o Dr. Christopher C. Abbott, médico do Departamento de Psiquiatria da University of New Mexico School of Medicine, nos Estados Unidos, disse que o estudo é “muito forte, e definitivamente acrescenta à literatura”.

O Dr. Christopher, que não participou da pesquisa, destacou que o tamanho da população do estudo é “meio sem precedentes”, e que os resultados confirmam o quão efetiva a eletroconvulsoterapia pode ser para todos os sintomas do transtorno bipolar.

No entanto, “teria sido um tanto interessante” se os pesquisadores também tivessem focado nos sintomas com menos resposta à eletroconvulsoterapia, disse ele.

“Eles apropriadamente focaram nos aspectos positivos, mas… quando não há remissão, significa que você tem sintomas persistentes e, portanto, foi uma oportunidade perdida de não focar na caracterização adicional dos que não responderam”, disse o Dr. Christopher.

Ele acrescentou que os problemas de estigma em torno da eletroconvulsoterapia que os médicos enfrentam na Itália também estão “infelizmente, muito presentes nos Estados Unidos”.

“Acontece, eu diria, pelo menos uma vez por semana, quando você tem alguém que é um ótimo candidato à eletroconvulsoterapia e, por causa da má representação da eletroconvulsoterapia na mídia e temores de várias organizações religiosas, o paciente opta por outros tratamentos”, relatou o Dr. Christopher.

Embora, para alguns casos não haja problema em optar por outros tratamentos, algumas opções às vezes são menos efetivas e prolongam o sofrimento, acrescentou.

Estudos como esse, “onde eles estão realmente focados no positivo, podem de fato ajudar a desestigmatizar o procedimento”, concluiu o Dr. Christopher.

Os autores do estudo, Dr. Henricus Ruhé e Dr. Christopher C. Abbott informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

 

FONTE: MEDSCAPE

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Novídades

Biopsico, todos os direitos reservados - 2017