Diagnóstico psiquiátrico aumenta risco de morte por covid-19, mostra estudo

A presença de diagnóstico psiquiátrico em pacientes internados por covid-19 foi associada a risco significativamente maior de morte, mostra uma nova pesquisa.

Os pesquisadores descobriram que os pacientes que foram hospitalizados por covid-19 e tinham história de diagnóstico de transtorno mental apresentaram risco 1,5 vezes maior de morte por causas associadas à covid-19 em comparação com os pacientes com covid-19 que nunca receberam diagnóstico psiquiátrico.

“Preste atenção e, potencialmente, aborde/trate o diagnóstico psiquiátrico prévio caso um paciente psiquiátrico seja hospitalizado por covid-19, pois este fator de risco pode impactar o desfecho do paciente – morte – durante a internação hospitalar”, disse ao Medscape, a líder do estudo, Dra. Luming Li, médica, professora assistente de psiquiatria e diretora médica associada de melhoria de qualidade do Yale New Haven Psychiatric Hospital, nos Estados Unidos.

O estudo foi publicado em 30 de setembro no periódico JAMA Network Open.

Impacto negativo

“Estávamos interessados em aprender mais sobre o impacto dos diagnósticos psiquiátricos na mortalidade por covid-19, visto que grandes estudos de coorte anteriores incluíram pacientes com doenças neurológicas e outros quadros clínicos, mas não avaliaram os diagnósticos psiquiátricos prévios”, disse a Dra. Luming.

“Sabemos pela literatura que a existência de diagnósticos psiquiátricos anteriores pode ter um impacto negativo nos desfechos de outras doenças e, portanto, testamos nossa hipótese em uma coorte de pacientes internados por covid-19”, acrescentou ela.

Para este estudo, os pesquisadores analisaram dados de 1.685 pacientes hospitalizados com covid-19 entre 15 de fevereiro e 25 de abril de 2020, e cujos casos foram acompanhados até 27 de maio de 2020. Os pacientes foram atendidos no Yale New Haven Health System (média de idade [DP] de 65,2 [18,4] anos; 52,6% eram homens).

A mediana de acompanhamento foi de oito dias (intervalo interquartil de 4 a 16 dias).

Desses pacientes, 28% haviam recebido diagnóstico psiquiátrico antes da internação. Os pacientes com transtornos psiquiátricos eram significativamente mais velhos e tinham mais chances de serem mulheres, brancos, não hispânicos e terem comorbidades (p. ex.: câncer, doença cerebrovascular, insuficiência cardíaca congestiva, diabetes, doença renal, doença hepática, infarto do miocárdio e/ou HIV).

Os diagnósticos psiquiátricos foram definidos de acordo com os códigos da CID, que incluem saúde mental e comportamental, doença de Alzheimer e automutilação.

Vulnerabilidade ao estresse

A tabela a seguir mostra as taxas de mortalidade de pacientes internados por covid-19 com transtornos psiquiátricos versus sem transtornos psiquiátricos (P < 0,001).

Taxa de Mortalidade
Tempo de internação Com transtornos psiquiátricos Sem transtornos psiquiátricos
2 semanas

35,7%

14,7%

3 semanas

40,9%

22,2%

4 semanas

44,8%

31,5%

No modelo não ajustado, o risco de morte por causas associadas à covid-19 durante a internação hospitalar foi maior entre os pacientes que tinham algum diagnóstico psiquiátrico em comparação com aqueles sem transtornos psiquiátricos (razão de risco ou hazard ratio, HR, de 2,3; intervalo de confiança, IC, de 95%, de 1,8 a 2,9; P < 0,001).

No modelo ajustado, que foi controlado para características demográficas, outras comorbidades e localização do hospital, o risco de mortalidade diminuiu um pouco, mas ainda permaneceu significativo e maior (HR de 1,5; IC 95% de 1,1 a 1,9; P = 0,003).

A Dra. Luming citou uma série de fatores que podem ser responsáveis pela maior taxa de mortalidade entre pacientes psiquiátricos que tiveram covid-19 do que entre aqueles sem transtornos psiquiátricos. Incluindo “potenciais respostas inflamatórias e de estresse que o corpo experiencia em função da presença de transtornos mentais prévios”, disse ela.

O fato de a pessoa ter recebido um diagnóstico de transtorno psiquiátrico antes também pode “refletir a existência de diferenças neuroquímicas, em comparação com aqueles sem história de diagnóstico psiquiátrico, e essas diferenças podem fazer com que a população de pacientes com transtorno psiquiátrico seja mais vulnerável a responder a um estressor agudo como a covid-19”, disse ela.

Tratamento de qualidade

Comentando sobre os achados do estudo para o Medscape, o Dr. Harold Pincus, médico, professor e vice-presidente do Departamento de Psiquiatria, Vagelos College of Physicians and Surgeons, Columbia University, nos Estados Unidos, disse que o estudo “acrescenta ao fenômeno razoavelmente bem estabelecido e reconhecido de que as pessoas com doenças mentais apresentam um alto risco de todos os tipos de morbidade e mortalidade por doenças que não são psiquiátricas”.

Os pesquisadores “ajustaram para vários riscos de mortalidade esperados que seriam independentes da presença de covid-19”, então “havia algo mais acontecendo associado à mortalidade”, disse o Dr. Harold, que também é codiretor do Irving Institute for Clinical and Translation Research. Ele não participou deste estudo.

Além da possibilidade de “algum processo imunológico básico ligado à presença de um transtorno mental”, é possível que a vulnerabilidade esteja “relacionada com o acesso ao tratamento de qualidade para a comorbidade geral que não está sendo tratada de forma efetiva”, afirmou.

“A moral da história é que as pessoas com transtornos mentais têm mais risco de morrer, e precisamos ter certeza de que, independentemente da covid-19, elas recebam os cuidados preventivos e para doenças crônicas adequados, que seria a maneira mais efetiva de intervir e protege-los do impacto de uma doença grave como a covid-19”, disse. Isso inclui ter a vacinação em dia e receber tratamento preventivo para reduzir o tabagismo e incentivar a perda ponderal.

Não foi informada nenhuma fonte de financiamento para o estudo. A Dra. Luming Li informou ter recebido subvenções de um Health and Aging Policy Fellowship durante o estudo. As informações dos demais autores constam no artigo original. O Dr. Harold Pincus informou não ter conflitos de interesses relevantes.

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