Depressão durante a gestação é associada a declínio da vida sexual no pós-parto

Um estudo realizado com mulheres que tiveram depressão durante a gestação mostra que uma em cada quatro pacientes apresentou declínio da vida sexual no puerpério. Segundo os autores da pesquisa, Dr. Alexandre Faisal-Cury e Dra. Alicia Matijasevich, ambos médicos e pesquisadores do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), as mulheres que avaliaram a relação sexual com o parceiro como ruim e aquelas que apresentaram depressão pós-parto tiveram maior chance de ter a vida sexual negativamente impactada após o nascimento do bebê. Esses e outros resultados foram publicados em agosto no periódico Sexual and Relationship Therapy. [1] O Dr. Alexandre, que é ginecologista e obstetra, falou ao Medscape sobre o trabalho.

A pesquisa foi uma análise secundária de dados originalmente coletados no estudo PROGRAVIDA, uma investigação realizada em 12 Unidades Básicas de Saúde (UBS) da cidade de São Paulo, cujos dados ainda não foram publicados. De acordo com o Dr. Alexandre, a amostra original foi composta de 517 mulheres que apresentaram depressão durante a gestação. “Nosso objetivo foi avaliar a eficácia de uma intervenção psicossocial baseada em terapia cognitiva de apoio. Queríamos entender se as mulheres submetidas a essa intervenção teriam um desfecho melhor do que aquelas que receberam cuidados usuais, particularmente com relação à presença de depressão pós-parto”, explicou.

Como as participantes foram acompanhadas por 18 meses, os dados reunidos permitiram a investigação de outras questões, como a sexualidade no pós-parto. Os autores entrevistaram 356 participantes do estudo original seis a nove meses após o parto. O Dr. Alexandre explicou que os efeitos da terapia cognitiva de apoio oferecida na gestação no estudo original foram controlados no acompanhamento.

Na autoavaliação sobre a vida sexual, as participantes responderam a questões como: “Considerando a sua vida sexual antes da gravidez, como você descreveria sua vida sexual atual: melhorou, está igual ou piorou?” O tempo de retomada da atividade sexual também foi apurado por meio da pergunta: “Você retomou a vida sexual após o parto?” Caso a resposta fosse afirmativa, a participante deveria responder quantos meses após o parto isso ocorreu. A autopercepção acerca da relação com o parceiro também foi investigada a partir de uma questão direta: “Como você avalia o seu relacionamento com o seu companheiro/marido?”

A depressão pós-parto foi avaliada por meio do Patient Health Questionnaire-9 (PHQ-9) e as características sociodemográficas das participantes foram coletadas por meio de outro questionário.

Das mulheres avaliadas, 82,8% tinham um companheiro; 29,8% eram brancas; e 18,5% tinham menos de nove anos de educação. A média de idade foi de 26,5 anos e apenas 27,9% haviam planejado a gestação. Quase dois terços reportaram aleitamento materno seis meses após o nascimento do bebê e 21,6% apresentaram depressão pós-parto.

Um declínio de vida sexual no pós-parto foi observado em 25% das mulheres entrevistadas. Após a análise multivariada, a depressão pós-parto (taxa de probabilidade de 1,70) e a baixa qualidade do relacionamento com o parceiro (taxa de probabilidade de 2,02) foram associados com esse desfecho. “A variável que ficou mais associada ao declínio da vida sexual no modelo que usamos foi a qualidade ruim do relacionamento com o parceiro, mas depressão pós-parto também foi associada. Isso significa que uma mulher que tinha um relacionamento ruim com o parceiro dobrava a chance de ter uma vida sexual ruim no pós-parto, enquanto a mulher que tinha depressão quase dobrava esta chance”, destacou o médico.

Frequentemente, estudos sobre sexualidade no pós-parto acabam focando no aspecto biológico. Segundo o Dr. Alexandre, durante esse período, há alguns aspectos objetivos que podem impactar a vida sexual, entre eles, o ressecamento da vagina, o aleitamento, o declínio hormonal, além do cansaço e das mudanças que ocorrem na dinâmica do casal com a chegada do bebê.  “Quando se avalia atividade sexual, é comum que haja uma redução nos primeiros meses após o parto, mas, com o tempo, ela vai sendo retomada. No entanto, no nosso estudo, a ideia foi tratar o tema a partir de uma percepção mais subjetiva da sexualidade: a ideia era entender se, para a mulher, sua vida sexual após o parto estava igual ou se havia piorado. A qualidade da experiência sexual não está restrita só a ter sexo e orgasmo e, às vezes, a mulher pode demorar mais para retomar esse aspecto”, disse.

Muitos estudos têm mostrado que, de fato, as mulheres experimentam piora da função sexual no pós-parto. A literatura mostra que isso pode ocorrer com até dois terços das mulheres seis meses após dar à luz. [2] Segundo o Dr. Alexandre, é preciso lembrar que esse dado depende do que está sendo avaliado, mas, de maneira geral, o pós-parto é realmente uma fase difícil para a maioria das mulheres. “A literatura aponta, no entanto, que há uma tendência de que, para as mulheres deprimidas, a dificuldade pode ser ainda maior”, disse.

Nesse sentido, um resultado interessante da pesquisa da USP é que o declínio sexual foi associado à qualidade da vida conjugal do casal, independente da presença de depressão pós-parto. “Podíamos ter uma percepção de que, para a mulher deprimida, a queixa quanto à vida sexual no pós-parto estaria sendo influenciada principalmente por esse estado depressivo, mas o estudo revelou que classificar a relação com o parceiro como ruim foi um preditor independente do declínio da vida sexual, ou seja, independentemente de a paciente continuar deprimida após o parto”, pontuou o médico, lembrando que esse dado traz uma oportunidade de pensar estratégias que possam melhorar a vida sexual da mulher nesse período.

Para o autor, os resultados da pesquisa mostram que o acompanhamento da mulher no pós-parto deve seguir uma abordagem holística, que seja capaz de dar conta de aspectos emocionais e relacionais. “É importante que o profissional entenda como ela está se sentindo com a experiência da maternidade e se há dificuldades físicas, sociais e sexuais, atentando para a qualidade do seu relacionamento conjugal no pós-parto. A ideia é que a mulher tenha um cuidado de saúde que não se restrinja à contracepção, à amamentação, à dor na ferida cirúrgica, mas que englobe também o aspecto psicológico, o bem-estar emocional e também o aspecto relacional com o parceiro”, destacou o médico.

 

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