Transtornos de ansiedade começam cedo e diferem entre os sexos

Os transtornos de ansiedade têm início bastante precoce e podem se manifestar primeiro como outras doenças, como transtorno de ansiedade social, de acordo com o Dr. Jeffrey R. Strawn.

Uma adolescente que busca atendimento psiquiátrico com queixa de ansiedade aos 16 anos de idade, por exemplo, provavelmente está lidando com a ansiedade por anos antes de chegar ao consultório.

“Essa menina pode ter apresentado ansiedade de separação mais nova e, mesmo quando criança, pode ter demonstrado inibição comportamental, como relutância ou timidez para explorar coisas novas, aquela tendência de se retrair diante de novos estímulos”, disse o Dr. Jeffrey, que é médico e professor-associado de psiquiatria, pediatria e farmacologia clínica no Cincinnati Children’s Hospital Medical Center, no Focus on Neuropsychiatry apresentado por Current Psychiatry e pela American Academy of Clinical Psychiatrists.

“Transtornos de ansiedade são resistentes e persistentes, e podem começar muito cedo na vida.”

O transtorno de ansiedade social é um dos primeiros transtornos de ansiedade que surgem na infância ou adolescência, piora durante a puberdade e em momentos da vida da criança nos quais ela está lidando com novas pressões sociais e desafios, como graduação do ensino fundamental e começo do ensino médio, observou o Dr. Jeffrey.

transtorno de ansiedade generalizada é geralmente o próximo a emergir, seguido pelo transtorno de pânico. Por outro lado, a agorafobia, outro transtorno de ansiedade que surge na infância, “geralmente representa uma evitação comportamental, em oposição à agorafobia na qual tradicionalmente pensamos na psiquiatria de adultos”.

A apresentação dos transtornos de ansiedade também difere entre os sexos. “Em termos de surgimento dos transtornos de ansiedade, outra questão importante é que a apresentação parece ser um pouco diferente entre meninas e meninos. Observamos essa cisão emergindo durante a puberdade ou ao final dela, pelo menos nas meninas”, disse o Dr. Jeffrey no encontro apresentado pela Global Academy for Medical Education.

Uma mudança ocorre nos circuitos entre a amígdala e o córtex pré-frontal na infância, explicou o Dr. Jeffrey. Crianças mais novas não têm a habilidade de modular a amígdala com seu córtex pré-frontal, mas essa conectividade funcional amígdala-córtex pré-frontal medial muda à medida que a criança cresce. Um estudo de Dr. Dylan G. Gee e colaboradores encontrou uma conectividade funcional positiva entre essas estruturas a partir dos 10 anos de idade, e “um declínio importante na atividade da amígdala” dos 10 aos 13 anos até a idade adulta, aos 22 anos de idade (J Neurosci. 2013 Mar 6;33[10]:4584-93).

“Em essência, o que estamos observando é que existe um aumento ou uma maior efetividade em termos da conexão entre o córtex pré-frontal, a amígdala e a habilidade de ampliar a inibição da amígdala”, explicou o Dr. Jeffrey.

ISRS e IRSN para pacientes pediátricos

Os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) podem ser efetivos em pacientes da pediatria com transtornos de ansiedade. Os resultados do Child/Adolescent Anxiety Multimodal Study (CAMS) mostraram que pacientes com transtorno de separação generalizado ou transtorno de ansiedade social tratados com sertralina ou terapia cognitivo-comportamental (TCC) por três meses responderam melhor ao tratamento do que ao placebo. Uma combinação de sertralina e TCC obteve melhor desempenho em comparação com cada intervenção isolada (N Engl J Med. 2008;359:2753-66).

Ao examinar a resposta ao tratamento em 76 pacientes do estudo CAMS, os pesquisadores observaram melhora em quatro semanas em relação ao início do estudo nos pacientes com sintomas de ansiedade realizando terapia cognitivo-comportamental, mas não houve melhora significativa entre a 4ª e a 12ª semanas (J Child Adolesc Psychopharm. 2017 Aug 1. doi: 10.1089/cap.2016.0198).

“O que na verdade observamos é que, no geral, a melhora na 4ª semana é melhor do que no basal, e a melhora na 8ª semana é maior do que a melhora na 4ª semana. De forma semelhante, em nossa melhora, a 12ª semana é melhor do que a 8ª semana”, disse o Dr. Jeffrey.

No entanto, “esse não foi o caso para uma titulação agressiva da sertralina”, que não teve diferença estatisticamente significativa na melhora na 8ª ou na 12ª semana, ele explicou.

“O que isso realmente significa é que, se eu não apresentei melhora até a oitava semana, existe uma chance de três para um contra melhora nas quatro semanas seguintes. A principal mensagem aqui é que um tempo adequado de tentativa para um ISRS nos transtornos de ansiedade pediátricos é provavelmente de cerca de 8 semanas – não 12, não mais que isso”.

Os inibidores da recaptação de serotonina-noradrenalina (IRSN) também são efetivos em pacientes da pediatria com transtornos de ansiedade.

“Tanto os inibidores seletivos da recaptação da serotonina como os inibidores da recaptação de serotonina-noradrenalina certamente demonstraram eficácia ao tratar pacientes da pediatria com ansiedade, mas existe uma diferença muito importante aqui em relação à trajetória das melhoras e também quanto a sua magnitude”, disse o Dr. Jeffrey. Os IRSN como atomoxetinaduloxetina, ou venlafaxina “não levam a uma melhora tão rápida ou na mesma extensão das crianças tratadas com inibidores seletivos da recaptação da serotonina”.

A dose é um outro fator que afeta a melhora dos sintomas em pacientes da pediatria com transtorno de ansiedade. Em uma metanálise de 2018, Dr. Jeffrey e colaboradores descobriram que pacientes tratados com uma dose mais alta de inibidores seletivos da recaptação da serotonina demostraram melhora mais rápida em duas semanas, em comparação com aqueles que receberam inibidores da recaptação de serotonina-noradrenalina (P = 0,002), mas não houve diferença significativa da trajetória de resposta (J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2018 Apr;57[4]:235-44.E2).

A resposta aos inibidores seletivos da recaptação da serotonina pode depender do genótipo do paciente, disse o Dr. Jeffrey. Os polimorfismos do promotor de transportador de serotonina receberam “atenção considerável em adultos com transtornos depressivos inicialmente”, mas também podem ter um papel na resposta ao transtorno de ansiedade em pacientes da pediatria.

Um estudo apresentado por esse grupo no encontro anual de 2019 da mostrou que os pacientes com uma cópia curta do polimorfismo do promotor de transportador de serotonina ao invés de uma cópia longa tinham “uma melhora superficial e menor ao longo do curso de tratamento” ao utilizar escitalopram.

“Isso é algo que não necessariamente nos compele a usar um IRSN no lugar de um ISRS, mas é algo que nos traz informações importantes em termos de trajetória da melhora”, ele disse.

Quando se trata dos efeitos colaterais dos IRSN e inibidores seletivos da recaptação da serotonina, o perfil é “muito consistente com o que sabemos ser o perfil de efeitos colaterais nos adultos com transtorno depressivo ou de ansiedade”, observou o Dr. Jeffrey. “Os IRSN tendem a ser um pouco mais bem tolerados, tanto em termos de eventos adversos relacionados à interrupção e também em termos de probabilidade de produzirem ativação”.

As expectativas dos pacientes e cuidadores podem afetar a resposta ao tratamento. No CAMS, “os pacientes que tinham maior expectativa de que o medicamento funcionaria tenderam a apresentar melhora dos sintomas muito mais acentuada”, disse o Dr. Jeffrey. “Eu penso que isso tem implicações em termos de como lidamos ativamente com expectativas e discussões sobre as evidências de intervenções em nossos pacientes em consultório”.

Global Academy e sua organização de notícias são de propriedade da mesma empresa. O Dr. Jeffrey informou receber apoio de pesquisa das seguintes empresas: Edgemont Pharmaceuticals, Eli Lilly, Forest Research Laboratories, Lundbeck,National Institutes of Health, Neuronetics e Shire. Ele também relatou que recebe royalties da Springer Publishing e que presta consultoria, além de receber material de apoio da Assurex/Genesight.

 

FONTE: MEDSCAPE

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