Preocupações com a saúde mental das crianças durante a pandemia

As crianças não são um grupo de risco para covid-19, parecem transmitir menos o novo coronavírus, são frequentemente assintomáticas, e, quando infectadas, geralmente apresentam boa evolução. Talvez por isso, essa faixa etária não venha recebendo tanta atenção nos últimos meses.

Entretanto, dois artigos veiculados em uma edição especial do periódico Residência Pediátrica, uma publicação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), trazem à tona a questão da saúde mental de crianças e adolescentes diante da situação atual.

No primeiro artigo, a Dra. Juliana Gomes Loyola Presa e colaboradores destacam que raras publicações abordam o assunto, geralmente sugerindo que as crianças teriam uma maior capacidade de se adaptar à crise.

No entanto, o estresse tomou conta das famílias, os pais tiveram de repensar o modo de viver, e trabalho, lazer e afazeres domésticos se misturaram ao dia a dia. As crianças foram privadas do convívio físico com amigos, familiares e professores. Essas mudanças tão repentinas são potencialmente provocadoras de estresse, angústia a incertezas.

As autoras também questionam a troca das atividades escolares presenciais por virtuais, que levaram a um aumento importante do tempo diário de exposição a telas, bem como a substituição do convívio diário e da troca de experiências reais por passividade e distanciamento.

Todas essas mudanças podem acarretar consequências imediatas, como alteração no sono e no humor, bem como repercussões mais graves em longo prazo, incluindo hiperatividade, agitação, apatia e depressão.

O Dr. Roberto Santoro Almeida, psiquiatra e coordenador do grupo de trabalho de Saúde Mental da SBP, concorda que a desorganização da rotina prévia e a privação dos contatos afetivos têm um impacto negativo sobre as crianças e adolescentes.

“As crianças podem sofrer um impacto maior que os adultos. O contato com os familiares, amigos e a escola são estruturantes para a criança e o adolescente”, explicou o Dr. Roberto.

Em uma entrevista ao Medscape, o psiquiatra revelou sua experiência pessoal com crianças que vêm apresentando sintomas de ansiedade, medo, insônia, alterações do apetite e, no caso de crianças mais jovens, regressão do comportamento.

“Esses sintomas podem representar uma adaptação normal à nova situação”, disse o Dr. Roberto. “Entretanto, em casos mais graves podem ser observados transtornos de ansiedade e depressão.”

Como promover a saúde mental de crianças e adolescentes?

No segundo artigo, no qual o Dr. Roberto é o autor principal, os pesquisadores procuraram elaborar um guia prático para a promoção da saúde mental de crianças e adolescentes, com sugestões que podem ser aplicadas pelas famílias.

As recomendações foram extraídas de diversas publicações científicas, e as principais seguem resumidas:

A SBP também produziu um documento, voltado para pediatras, a respeito da promoção da saúde mental em crianças e adolescentes.

Os especialistas alertam que diversos fatores relacionados com a pandemia podem contribuir para o sofrimento psicológico e o surgimento de transtornos psiquiátricos ou descompensação de transtornos já existentes.

Além disso, crianças e adolescentes hospitalizados por covid-19 podem representar desafios adicionais, pois o isolamento pode produzir medo, tristeza e solidão. Medidas como maior tempo de comunicação entre a criança e seus familiares, acesso a informações sobre a doença através de histórias em quadrinhos e vídeos, e um cronograma regular de atividades são recomendadas para amenizar esse sofrimento.

Outra questão a ser considerada é a saúde mental de outros membros da família, especialmente os pais. “As crianças percebem alterações de humor e comportamento em seus pais”, explicou o Dr. Roberto. “Elas compreendem as situações novas por meio das reações de seus pais, e percebem se há medo, insegurança, preocupações.”

É importante que o pediatra, ao atender uma criança ou adolescente, investigue a possibilidade de prejuízos na saúde mental relacionados com a covid-19. “Ele pode perguntar, de forma aberta, sobre alterações de comportamento, emoções, sono e alimentação”, concluiu o Dr. Roberto.

O documento da SBP também faz algumas recomendações do ponto de vista ético e legal para os pediatras.

“É fundamental não propagar notícias duvidosas ou se expor inadvertidamente em redes sociais”, escreveram. “Mensagens encaminhadas para um pequeno grupo de amigos ou parentes, com impressões momentâneas sobre a pandemia, podem ser, sem a autorização do autor, amplamente divulgadas, com consequências negativas diversas”.

 

FONTE: MEDSCAPE

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