Síndrome neuropsiquiátrica pediátrica de início agudo pode ser mais prevalente do que se pensava

A síndrome neuropsiquiátrica pediátrica de início agudo (PANS, sigla do inglês, Pediatric Acute-onset Neuropsychiatric Syndrome), um quadro raro de sintomas psiquiátricos, pode ser mais comum do que se pensava, de acordo com o Dr. Kiki D. Chang.

A PANS é caracterizada pelo National Center for Advancing Translational Sciences Genetic and Rare Diseases Information Center como “uma apresentação aguda de sintomas obsessivos-compulsivos e/ou restrições alimentares graves, junto como no mínimo outros dois sintomas cognitivos, comportamentais ou neurológicos”. Esses sintomas podem incluir ansiedade, depressão, comportamento opositor, dificuldade de concentração, alterações em habilidades motoras e sensoriais, e outros sintomas somáticos. A doença ocorre como resultado de uma infecção, que provoca uma resposta autoimune ou inflamatória no cérebro, e os pacientes tendem a responder bem ao tratamento com antibióticos, anti-inflamatórios e terapia imunomoduladora.

Tanto a PANS como o seu subtipo, os transtornos neuropsiquiátricos pediátricos autoimunes associados a infecções estreptocócicas (PANDAS, sigla do inglês, Pediatric Autoimmune Neuropsychiatric Disorders Associated with Streptococcus infections), são pouco reconhecidos, disse o Dr. Kiki em um evento virtual realizado pelo periódico Current Psychiatry e pela American Academy of Clinical Psychiatrists. A PANS costuma ser erroneamente diagnosticada como transtorno de Tourette ou transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), em função da presença de tiques em cerca de metade dos casos, disse o médico, mas os sintomas mais graves, como psicose, podem ser diagnosticados como algum transtorno psicótico ou de humor. Atualmente, nem a PANS nem os PANDAS são oficialmente reconhecidos pela American Academy of Pediatrics ou na 5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5, sigla do inglês, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders).

“Esperamos que isso aconteça em breve, porque as doenças claramente existem”, disse o Dr. Kiki no encontro realizado pela Global Academy for Medical Education.

“Se você já tratou uma criança com PANS ou PANDAS e viu os antibióticos reverterem totalmente o transtorno obsessivo-compulsivo e o comportamento semelhante a tiques, se você viu a prednisona tratar sintomas de mania ou mesmo psicose e na verdade deixar as coisas melhores do que piores, isso é realmente revelador e te faz acreditar.”

A ansiedade é o sintoma psiquiátrico mais comum na juventude, e os transtornos de ansiedade também são comuns, disso o Dr. Kiki. De acordo com a Pesquisa Nacional de Comorbidades: Suplemento de Adolescentes, 2001-2004, 31,9% dos adolescentes em geral relatou algum transtorno de ansiedade e 8,3% disseram que o transtorno de ansiedade lhe causava prejuízos graves. A pandemia de covid-19 aumentou o nível de ansiedade em crianças e adolescentes, o que pode causar outras doenças como fobias específicas ou transtornos de ansiedade de separaçãopânicoansiedade socialestresse agudoansiedade generalizada, obsessivo-compulsivo ou estresse pós-traumático. Os psiquiatras devem suspeitar de qualquer manifestação súbita de sintomas que se sobrepõe com PANS, disse o Dr. Kiki, que atualmente atua como médico particular nos Estados Unidos.

“Os transtornos de ansiedade são incrivelmente comuns. Lembre-se de que você precisa triar cuidadosamente para outros transtornos de ansiedade, porque comorbidades são muito comuns”, disse o Dr. Kiki.

“Você precisa fazer uma investigação completa. Se surgirem outros sintomas, a PANS deve ser cogitada; se a apresentação for aguda, a PANS deve ser fortemente cogitada, e você deve realizar a investigação ou encaminhar o paciente para alguém que a realize”.

A prevalência de PANS e PANDAS não é conhecida, mas pode ser mais comum do que os psiquiatras imaginam, disse o Dr. Kiki. “Eu estou há 10 anos no campo da PANS e PANDAS, e está muito claro pra mim que se trata de algo prevalente”, disse ele.

Juntamente com a médica Dra. Jennifer Frankovich, o Dr. Kiki fundou uma clínica no Lucile Packard Children’s Hospital Stanford, e também ajudou a criar diretrizes de tratamento para jovens com PANS. Na clínica, os pacientes apresentam os primeiros sintomas com aproximadamente 7,7 anos de idade e buscam tratamento aos 10,7 anos. A maioria dos pacientes da clínica são do sexo masculino (78%) e 40% tiveram apresentação aguda. Quase todos os pacientes têm sintomas de ansiedade (92%), transtornos de humor (88%), transtorno obsessivo-compulsivo (86%), alterações sensoriais ou motoras (88%), irritabilidade/agressividade (82%), sintomas somáticos, prejuízo escolar (76%) e regressão do comportamento (59%). Mais de um terço apresenta ideação suicida (38%) e violência autoinfligida (29%), contra os outros (38%) ou contra objetos. Cerca de um quarto apresenta sintomas de psicose (24%).

“Às vezes são crianças muito doentes”, disse o Dr. Kiki. “Estamos falando de crianças berrando, gritando, tendo ataques de ansiedade, se jogando no chão, realizando rituais repetitivos, disfuncionais, incapazes de comer por medo das coisas, incapazes de cuidar do próprio corpo ou da vida cotidiana. Algumas dessas crianças eram pessoas altamente funcionais, outras não, mas ainda assim houve uma mudança aguda.”

Tratamento da PANS

As diretrizes de tratamento lançadas pelo Consórcio PANS/PANDAS de 2017 recomendam um primeiro curso de tratamento anti-estreptocócico para todos os casos recentes de PANS. Os psiquiatras devem procurar evidências de infecção por estreptococo ou outros agentes e utilizar antibióticos para erradicar qualquer infecção aguda ou residual subjacente.

“Costumamos usar medicamentos como azitromicina, amoxicilina com ácido clavulânico ou amoxicilina isolada, e vemos o transtorno obsessivo-compulsivo rapidamente desaparecer ou pelo menos diminuir, o sono voltar ao normal, o humor regularizar”, disse o Dr. Kiki. “É incrível presenciar isso.”

Em outros casos, é necessário um curso terapêutico por mais tempo que os 5 a 10 dias de antibioticoterapia habituais. “Não temos certeza absoluta da extensão: às vezes são três, outras são quatro semanas, mas você precisa dar por mais de uma semana. Algumas vezes são as propriedades anti-inflamatórias que estão ajudando.” Embora as preocupações sobre prescrição aleatória de antibióticos sejam válidas, “se você pode curar com antibióticos, é o caminho mais fácil”, disse o Dr. Kiki.

Existem evidências na literatura de que a prescrição de antibióticos para PANS é benéfica. Um estudo randomizado e controlado publicado em 2017 mostrou que pacientes com PANS que receberam azitromicina por quatro semanas tiveram maiores reduções na gravidade do transtorno obsessivo-compulsivo em comparação com o placebo.

“Nós precisamos de mais estudos, mas claramente os antibióticos podem ajudar certas crianças. E é fato que já observei, na minha prática, algumas respostas drásticas”, disse o Dr. Kiki.

“Infelizmente, algumas vezes a resposta não é intensa ou não é possível encontrar a infecção. É quando pode haver um processo inflamatório por outro motivo. Pode ser uma infecção não tratada ou uma situação anti-inflamatória.”

O tratamento imunomodulador para a PANS inclui o uso de anti-inflamatórios não esteroides (aines), como ibuprofeno ou naproxeno; corticoides, como prednisona ou corticoides venosos; imunoglobulina intravenosa; ou plasmaférese. Outras terapias a serem consideradas são rituximabemicofenolato mofetil e ciclofosfamida.

Alguns tratamentos psiquiátricos podem ajudar pacientes com PANS. Embora não exista evidência empírica de que psicotrópicos sejam efetivos no tratamento da PANS, alguns inibidores da recaptação de serotonina podem ajudar se os pacientes forem capazes de lidar com os efeitos colaterais. Psicoterapia e educação da família também são importantes para pacientes com PANS e seus cuidadores.

“A PANS tem um alto impacto nos cuidadores; é como ter uma pessoa em casa com doença de Alzheimer ou câncer. É uma carga pesada, é muito estressante, e a família precisa de apoio”, disse o Dr. Kiki.

 

Fonte: Medscape

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