Psiquiatras relatam caso raro de mulher que acreditou ser uma galinha

Bélgica ─ Uma mulher de 54 anos de idade achou que era uma galinha por 24 horas. Este quadro extremamente raro, conhecido como zoantropia, no qual pessoas acreditam que são animais, geralmente não é reconhecido, afirmam pesquisadores da Universidade da Lovaina.

Na zoantropia as pessoas podem acreditar que são, ou se comportar como, qualquer tipo de animal: desde cachorro, leão, tigre, crocodilo, cobra e até abelha.

É importante reconhecer o quadro como um potencial sintoma de alguma doença séria, disseram os pesquisadores na edição de julho do periódico belga de psiquiatria Tijdschrift voor Psychiatrie .

O delírio pode ser sinal de algum transtorno psiquiátrico subjacente ou pode ser secundário a anomalias estruturais ou funcionais no cérebro, “portanto, recomenda-se a realização de pesquisas adicionais, com imagem cerebral e eletroencefalograma”, afirmaram os autores.

Psiquiatras precisam estar cientes da existência da zoantropia clínica

No artigo em questão, os pesquisadores descreveram o caso de uma mulher que por um curto período pensou que era uma galinha e em sequência apresentou uma crise convulsiva generalizada.

“Clinicamente, atendemos uma senhora que suava profusamente, tremia, enchia as bochechas e… parecia imitar uma galinha, cacarejando e cantando como um galo”, disseram eles.

“Após cerca de 10 minutos, ela pareceu contrair os músculos por alguns segundos, sua face ficou avermelhada e por um curto período ela não reagiu. Esses sintomas se repetiram em intervalos de minutos; sua consciência era flutuante” e a paciente estava “desorientada no tempo e no espaço”.

A primeira autora do estudo, Dra. Athena Beckers, do University Psychiatric Centre, KU Leuven, na Bélgica, disse em entrevista à MediQuality: “Com apenas 56 casos descritos na literatura médica desde 1850 até hoje, trata-se de um quadro raro. Isso equivale à descrição de aproximadamente um caso a cada três anos.

“Suspeitamos, no entanto, que o delírio nem sempre seja percebido: O paciente mostra um comportamento bizarro ou imita sons de animais e isso provavelmente é genericamente catalogado como ‘psicose'”.

A Dra. Athena acrescentou que é importante que os sintomas sejam reconhecidos, devido às possíveis causas subjacentes, que podem incluir epilepsia; portanto, o sintoma pode exigir um tratamento diferente ou complementar “com, por exemplo, anticonvulsivantes“.

“Eu mesma só presenciei esse tipo de delírio uma vez, mas já ouvi casos de outros pacientes em que algum parente, por exemplo, com esquizofrenia, às vezes pensava que era uma vaca durante um episódio de… psicose.

“Após a publicação do artigo, também fui contatada por uma pessoa que me disse que havia apresentado o mesmo quadro há 30 anos – ele pensou que era uma galinha.”

“Acho importante que nós, psiquiatras, estejamos cientes do fato de que a zoantropia clínica existe e pode exigir exames adicionais”, observou ela.

Felizmente, o caso dessa paciente terminou bem. Após cerca de um ano de incapacidade, ela conseguiu retornar ao trabalho progressivamente. Seu humor permaneceu estável e não houve mais sintomas psicóticos ou qualquer indicação de episódios de convulsão.

Este tipo de delírio é raro

O Dr. Georges Otte, um neuropsiquiatra recém-aposentado que trabalhou na Universidade de Gante, na Bélgica, compartilhou com a Mediquality sua opinião sobre o tema: “A interseção entre a neurologia e a psiquiatria é um campo fértil, que muitas vezes dá frutos. Mas é nos cantos mais sombrios da psicose que se encontram os excessos mais bizarros e também mais raros.”

Existem diversos delírios de identidade, disse o Dr. Georges.

Dentre eles, a síndrome de Cotard, uma doença rara evidenciada pela falsa crença de que a pessoa ou partes do seu corpo estão mortas, morrendo ou não existem; ou o delírio de Capgras, no qual a pessoa acometida acredita que seu cônjuge ou algum parente próximo foi substituído por um impostor. Os delírios também podem ocorrer como resultado do uso excessivo de substâncias, por exemplo, após o uso de psilocibina (cogumelos alucinógenos), acrescentou o neuropsiquiatra.

“Delírios em que os pacientes acreditam ter ‘mudado de forma’ (homem para animal) são bastante raros”, observou o Dr. Georges.

“Na literatura, sabemos que a licantropia (quando alguém acredita estar se transformando em um lobisomem) foi descrita, e aparentemente inspirou muitos autores de histórias de horror”, acrescentou.

“Mas não é todo dia que, como psiquiatra, a gente encontra uma despersonalização psicótica tão extrema quanto alguém se transformando em uma galinha.”

 

Fonte: Medscape

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Novídades

Biopsico, todos os direitos reservados - 2017