Canabidiol como tratamento para transtorno por uso de Cannabis

Talvez de forma contraintuitiva, o tratamento com canabidiol (CBD), um extrato da Cannabis, pode ajudar indivíduos com transtorno por uso de Cannabis a reduzir o uso da substância, sugere uma nova pesquisa.

Os resultados de um estudo de fase 2a mostraram que o canabidiol foi seguro nessa população e mais efetivo que o placebo em reduzir o uso de Cannabis quando administrado em doses diárias de 400 mg ou 800 mg.

“No momento, o transtorno por uso de Cannabis é tratado por meio de intervenções psicossociais, como entrevista motivacional ou terapia cognitivo-comportamental (TCC). Não há nenhuma farmacoterapia recomendada para auxiliar as pessoas a pararem de usar”, disse ao Medscape o primeiro autor do estudo, Dr. Tom Freeman, Ph.D., diretor do Addiction and Mental Health Group na University of Bath, no Reino Unido.

O estudo fornece a “primeira evidência causal” embasando o uso de canabidiol como tratamento para o transtorno por  uso de Cannabis, observaram os pesquisadores.

Os achados foram publicados on-line em 28 de julho no periódico Lancet Psychiatry.

Estudo em duas fases

Estima-se que o vício em Cannabis acometa cerca de 22 milhões de pessoas em todo mundo, o que equivale à prevalência do transtorno por uso de opioides, relataram os pesquisadores. Além disso, o número de pessoas buscando ajuda para o transtorno por uso de Cannabis aumentou no mundo inteiro.

Embora possa parecer “contraintuitivo” tratar o uso disfuncional de Cannabis com canabidiol, o tetra-hidrocanabinol (THC) e o canabidiol “têm efeitos contrastantes em nosso sistema endógeno de canabinoide, disse o Dr. Tom em uma coletiva de imprensa.

“Diferentemente do THC, o canabidiol não produz intoxicação ou efeitos de recompensa, e mostra potencial para o tratamento de vários transtornos clínicos”, ele acrescentou.

O estudo incluiu 82 adultos que cumpriam os critérios da 5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5, sigla do inglês, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) de transtorno por uso de Cannabis moderado a grave. Os participantes haviam manifestado vontade de parar de usar a droga e tinham história de ao menos uma tentativa frustrada de fazê-lo.

Todos receberam uma breve intervenção psicológica, que consistiu em entrevista motivacional.

Na primeira fase desse estudo, com o objetivo de definição de dose, 48 participantes foram randomizados para receber 200 mg, 400 mg ou 800 mg de canabidiol ou de comprimidos equivalentes com placebo por dia durante uma tentativa de parar de usar Cannabis. Na análise interina, a dose de 200 mg de canabidiol foi eliminada do ensaio clínico por ter sido considerada ineficaz.

Na segunda fase, 34 novos participantes foram randomizados para receber 400 mg ou 800 mg de canabidiol ou placebo por dia durante quatro semanas.

A administração de 400 mg e 800 mg de canabidiol por dia foi associada à redução do consumo de Cannabis, o que diminuiu os níveis de THC na urina em -94,21ng/mL e -72,02ng/mL, respectivamente.

A abstinência de uso da Cannabis aumentou para uma média de 0,5 dia por semana no grupo 400 mg de canabidiol e 0,3 dia por semana no grupo 800 mg de canabidiol.

O canabidiol prescrito foi bem tolerado, sem registro de eventos adversos graves; 77 dos 82 participantes (94%) completaram o tratamento.

“Os achados desse ensaio mostram quais doses são mais efetivas que o placebo, mas são necessárias mais evidências para uma estimativa mais precisa do quão efetiva elas são em contexto clínico”, disse o Dr. Tom.

Questões que permanecem

Comentando o estudo para o Medscape, a Dra. Ziva D. Cooper, Ph.D., diretora de pesquisa do Cannabis Research Initiative da University of California, Los Angeles, nos Estados Unidos, disse que esse é um importante campo de pesquisa.

“Nós precisamos desesperadamente de uma estratégia farmacológica para o transtorno por uso de Cannabis“, disse a Dra. Ziva, que não participou do estudo.

Ela observou que as doses de canabidiol usadas no estudo “ultrapassam muito” o que está disponível em fornecedores de Cannabis e on-line.

“O fato de eles terem verificado bioquimicamente que as pessoas estavam reduzindo o uso de Cannabis é uma característica importante do estudo”, disse a Dra. Ziva. Também é importante, ela acrescentou, os pesquisadores terem recrutado uma população motivada a parar de usar a droga com história de fracasso em tentativas anteriores.

Apesar disso, “os pacientes reduziram o uso de Cannabis por apenas meio dia na semana a mais com o canabidiol que com o placebo. Isso é suficiente para demonstrar que uma farmacoterapia tem utilidade clínica?”, questionou a Dra. Ziva.

Ela destacou que, futuramente, seria também útil saber se a prescrição de canabidiol melhorou a qualidade de vida, as relações interpessoais e a vida profissional.

“Essas são métricas realmente importantes a serem obtidas ao tentar compreender se um medicamento será útil para um transtorno por uso de substâncias”, disse a Dra. Ziva.

 

Fonte: Medscape

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