Novo estudo sobre os efeitos neurocomportamentais da Cannabis legalizada nos EUA

Pesquisadores publicaram um dos primeiros estudos a caracterizar a associação entre o consumo de Cannabis legalizada e desfechos farmacológicos e neurocomportamentais, com resultados um tanto surpreendentes.

O estudo mostrou que, embora o consumo de Cannabis não tenha comprometido a maioria das medidas neurocomportamentais de curto prazo, retardou a memória de longo prazo e causou prejuízo no equilíbrio.

A pesquisa também mostrou que os usuários de concentrados de Cannabis muito mais potentes demonstraram, na verdade, níveis semelhantes ou inferiores de intoxicação subjetiva pela droga e comprometimento de curto prazo do que os indivíduos que usaram formulações de menor potência provenientes da flor de Cannabis.

“Não parece que a potência usada seja muito relevante”, disse ao Medscape o Dr. Kent E. Hutchison, Ph.D., pesquisador sênior do estudo. “As pessoas parecem estar regulando um certo nível de intoxicação ou um certo nível de estimulação. E para algumas pessoas isso exige muita droga, enquanto para outras não.”

“Como um primeiro estudo, foi muito útil, uma vez que ninguém realmente conhecia os efeitos dos produtos de alta potência de Cannabis“, acrescentou o Dr. Kent, professor de psicologia e neurociência da University of Colorado Boulder, nos Estados Unidos.

O estudo foi publicado on-line em 10 de junho no periódico JAMA Psychiatry.

Ampla disponibilidade, poucas pesquisas

Cannabis recreativa é atualmente legal em 11 estados dos EUA, além do Distrito de Columbia, e a Cannabis medicinal é legal em 33 estados do país. No entanto, apesar de sua crescente popularidade, há poucas pesquisas sobre os potenciais riscos para a saúde e sobre o comportamento biológico da Cannabis, principalmente devido às restrições federais à pesquisa com Cannabis.

Os usuários geralmente consomem várias formas da flor da Cannabis, que podem apresentar concentrações do canabinoide psicoativo delta-9-tetra-hidrocanabinol (THC) de até 30%. No entanto, o uso de formas concentradas de Cannabis – que são produzidas pela extração de canabinoides da planta em uma forma diferente – está aumentando.

Tais formulações podem apresentar concentrações de THC de até 90%. No entanto, dados relacionados com os riscos relativos desses produtos de maior potência são limitados.

Pesquisas anteriores mostraram vários efeitos neurocomportamentais negativos em curto e longo prazos associados ao uso de Cannabis, incluindo efeitos prejudiciais cognitivos e motores.

A exposição prolongada ao THC também pode afetar negativamente as regiões cerebrais associadas ao controle do movimento coordenado, e criar déficits de ativação cerebral nas regiões de controle motor, que persistem muito além dos efeitos de curto prazo da intoxicação.

Apesar desses resultados, o Dr. Kent disse que a literatura existente sobre o assunto não fornece uma visão real do uso atual de Cannabis, porque tende a se concentrar em produtos com baixo teor de THC, cada vez menos comuns no mercado legal.

Diante dessas limitações, os pesquisadores queriam abordar questões persistentes relacionadas com os efeitos neurocomportamentais dos produtos legais à base de flor de Cannabis (16% ou 24% de THC) e produtos concentrados de Cannabis (70% ou 90% de THC). Ao fazer isso, eles avaliaram três tópicos principais:

Variedades de alta potência versus baixa potência

O estudo incluiu 133 indivíduos (de 21 a 70 anos de idade), designados como usuários de produtos à base de flor de Cannabis ou usuários de concentrado de Cannabis.

Todos os participantes haviam usado Cannabis pelo menos quatro vezes no mês anterior sem apresentar reação adversa. Eles não estavam recebendo tratamento para transtorno psicótico ou transtorno bipolar.

Os participantes foram randomizados para consumir produtos de maior ou menor potência, que foram comprados de um dispensário local.

Os usuários de flor de Cannabis foram randomizados para comprar 3 g do produto com 16% ou 24% de THC, enquanto os usuários de concentrado foram randomizados para comprar 1 g do produto com 70% ou 90% de THC.

Os participantes completaram uma série de quatro avaliações, uma no início do estudo e outras três em um laboratório itinerante. As avaliações no laboratório itinerante ocorreram antes, imediatamente após e uma hora após os participantes terem consumido a Cannabis à vontade.

Da coorte original com 133 participantes, 55 usuários de flor de Cannabis (média de idade de 28,8 anos; 46% eram mulheres) e 66 usuários de Cannabis concentrada (média de idade de 28,3 anos; 45% eram mulheres) cumpriram as instruções do estudo e tinham dados completos.

As medidas de desfecho primário do estudo incluíram canabinoides plasmáticos, intoxicação pela droga e humor subjetivos, e desfechos neurocomportamentais, como atenção, memória, controle inibitório e equilíbrio.

Resultados variados

Com relação às concentrações de Cannabis, os resultados mostraram que os usuários de concentrado exibiram níveis mais altos de THC plasmático e do seu metabólito ativo (11-hydroxyΔ9-THC) em todos os momentos, em relação aos indivíduos que usaram produtos à base de flor de Cannabis.

Especificamente, os níveis médios de THC no plasma foram 1.016 ± 1.380 μg/ml em usuários de concentrado e 455 ± 503 μg/ml em usuários de produtos à base de flor após o consumo à vontade de Cannabis. No entanto, os níveis de intoxicação relatados pelo próprio usuário diferiram entre os grupos.

Embora os resultados também tenham mostrado que a maioria das medidas neurocomportamentais não foram alteradas pelo consumo de Cannabis no curto prazo, houve algumas exceções notáveis. Houve um efeito linear negativo com erros no teste de memória verbal com intervalo, sugerindo pior desempenho após o uso de Cannabis (F1,203 = 32,31; P < 0,001).

Por outro lado, os pesquisadores observaram um efeito linear positivo com controle inibitório e memória de trabalho, o que sugere, na verdade, um melhor desempenho após o uso de Cannabis. Este achado, observam os pesquisadores, pode ser resultado de um efeito prático. Os usuários de flor de Cannabis tiveram melhor desempenho em todas as avaliações de controle inibitório.

Os pesquisadores também testaram o equilíbrio dos participantes com os olhos abertos e fechados. Com os olhos abertos, observaram uma tendência a perda de equilíbrio após o uso de Cannabis, embora houvesse volta ao normal em uma hora.

Quando os indivíduos fecharam os olhos, no entanto, os pesquisadores observaram um aumento significativo no desequilíbrio no curto prazo após o uso de Cannabis, que voltou aos níveis anteriores uma hora após o uso (F1,203 = 18.88; P < 0,001).

Curiosamente, os resultados não diferiram entre os grupos de acordo com o tipo de produto de Cannabis consumido ou sua potência relativa.

O estudo teve vários resultados surpreendentes, começando com níveis de intoxicação relatados pelo próprio usuário, que não tiveram diferença estatisticamente significativa entre os grupos, apesar dos níveis plasmáticos de THC significativamente diferentes entre os dois grupos.

O Dr. Kent explicou que isso pode ter ocorrido por uma maior tolerância ao THC entre usuários de concentrado, saturação de receptores de canabinoides por THC ou diferenças interindividuais entre os usuários em relação ao metabolismo ou sensibilidade a Cannabis.

“Eu acreditava que certamente os usuários de alta potência ficariam muito mais comprometidos”, disse ele. “Acho que o resultado só mostra que temos muito a aprender sobre como essas coisas funcionam.”

Além disso, praticamente não houve mudanças significativas no desempenho agudo após o uso de Cannabis, com exceção do atraso verbal. Na verdade, a mudança mais acentuada observada no estudo foi o efeito da Cannabis no equilíbrio imediatamente após o uso, embora essa alteração tenha diminuído em uma hora.

No entanto, o estudo destaca várias implicações potenciais para a saúde pública do consumo de Cannabis, acrescentou Dr. Kent. “O que acontece quando pessoas com altas concentrações sanguíneas decidem parar?” indagou. “Elas têm problemas para interromper o uso? Têm sintomas de abstinência?”

Os efeitos a longo prazo do uso de Cannabis é outra questão importante, que ainda precisa ser respondida, acrescentou.

Finalmente, Dr. Kent observou que, embora o estudo tenha mostrado pouca diferença entre os usuários de flor de Cannabis e concentrado, os participantes do estudo eram todos usuários experientes.

“Certamente há potencial de malefício quando uma pessoa com menor experiência usa concentrado de Cannabis“, disse ele. “Subitamente recebem uma dose muito maior de THC do que imaginavam que iam ter, e é aí que muitas pessoas se metem em problemas com a Cannabis.

Armadilhas e obstáculos

Em um editorial que acompanha o estudo, a Dra. Margaret Haney, Ph.D., do Columbia University Irving Medical Center, nos EUA, explicou que a posição estranha da Cannabis como simultaneamente legal e ilegal, médica e recreativa, prejudicou a capacidade dos pesquisadores de estudar seus efeitos de maneira tão abrangente quanto gostariam.

“Com uma droga ilegal em âmbito federal, mas legalizada em alguns estados, cientistas constrangidos e agências federais emudecidas, os médicos não têm nenhum dos dados que orientam suas decisões em relação a outros medicamentos (por exemplo, indicação, produto, proporção de canabinoides, dose ou via de administração; quais riscos para pacientes específicos, como gestantes, adolescentes e pacientes psiquiátricos)”, escreveu a Dra. Margaret.

Essas armadilhas são agravadas pelos obstáculos regulatórios significativos.

“A Food and Drug Administration (FDA) dos EUA é corretamente cautelosa em relação à permissão de testes em pacientes, e nenhum dos produtos disponíveis em dispensários ou on-line passou pelos procedimentos de segurança e fabricação necessários para a aprovação da FDA”, ela continuou. “Como então conduzir os estudos tão necessários?”

No entanto, como Dra. Margaret observou, conceder uma isenção do Schedule I aos pesquisadores de canabinoides pode ajudar a resolver muitas das barreiras enfrentadas por esses cientistas. Tal medida, disse ela, aumentaria o número de ensaios clínicos randomizados realizados “e, dessa forma, começaria a romper a divisão entre o uso desses produtos e as evidências empíricas”.

 

Fonte: Medscape

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