Fluoxetina desaponta em dois novos estudos sobre AVC

Dois novos grandes estudos randomizados e controlados por placebo sobre o uso do antidepressivo fluoxetina em pacientes com acidente vascular cerebral (AVC) mostram que o medicamento não teve efeito na recuperação funcional em comparação com o placebo.

Os estudos EFFECTS e AFFINITY foram apresentados em um seminário virtual da European Stroke Organization Conference (ESOC) em 13 de maio. O encontro virtual foi realizado em substituição ao evento presencial anual da ESOC, que foi adiado até novembro por conta da pandemia de Covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019).

Os dois estudos fazem parte de um programa de três ensaios clínicos realizados para pesquisar os efeitos da fluoxetina em pacientes com AVC. O primeiro desses estudos, o FOCUS, já havia sito apresentado; e também mostrou um resultado neutro.

Os resultados dos três estudos são notoriamente parecidos, sem sugestão de melhora na recuperação do AVC, mas com um pequeno aumento do risco de fraturas ósseas com o uso da fluoxetina.

“Pretendemos reunir os resultados desses três estudos em uma metanálise com os dados de cada paciente, o que nos permitirá realizar análises previamente planejadas, necessárias para confirmar ou descartar benefícios ou danos mais discretos”, disse ao Medscape o primeiro autor do estudo EFFECTS, Dr. Erik Lundström, médico e professor associado de neurologia na Uppsala University, na Suécia. “Mas, até que esses resultados sejam publicados, nós não recomendamos novos estudos com fluoxetina na recuperação do AVC.”

Solicitado a comentar para o Medscape, o vice-presidente do seminário da ESOC, Dr. Jesse Dawson, médico e professor de medicina do AVC, University of Glasgow, no Reino Unido, disse: “Agora estão disponíveis três grandes ensaios clínicos mostrando a ausência de efeitos do uso de inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) associados à reabilitação usual após o AVC. Alguns trabalhos incluíram muitas pessoas com AVC leve, que provavelmente teriam um bom desfecho de qualquer forma, portanto, pessoas com uma incapacidade mais grave não foram tão bem representadas”, ele disse.

“A análise combinada dos três estudos vai nos ajudar a decidir se existe algum possível benefício para pessoas com AVC mais grave”, ele disse. “No entanto, dado o aumento do risco de fratura, qualquer efeito precisaria ser suficientemente grande para superá-lo, e isso parece improvável.”

“A redução da depressão observada nesses estudos é interessante, e direcionar o uso dos ISRS após o AVC a determinadas pessoas seria algo relevante a ser explorado”, acrescentou o Dr. Jesse.

O Dr. Erik observou que a fluoxetina mostrou evidências de neuroproteção e neurogênese em estudos com animais, e um pequeno ensaio clínico (FLAME) preliminar, randomizado e envolvendo 118 pacientes foi publicado em 2011 sugerindo melhora dos desfechos funcionais em pacientes tratados com o medicamento.

Uma revisão da Cochrane de 2012 com todos os dados disponíveis sugeriu que os ISRS poderiam melhorar a recuperação após o AVC, mas como apenas estudos de alta qualidade foram considerados, o efeito foi menos convincente. A revisão concluiu que seriam necessários mais dados. O atual programa de três estudos, que juntos incluíram quase 6.000 pacientes, foi desenhado para responder essa questão de forma mais definitiva.

O estudo britânico FOCUS (primeiro dos três trabalhos) incluiu 3.000 pacientes e foi publicado no periódico Lancet em 2018. Esse ensaio clínico não mostrou efeito da fluoxetina em comparação com o placebo na melhora funcional, como refletido nas mudanças na distribuição de pontuação na Escala Rankin modificada (mRS). A razão de chances (OR, sigla do inglês, odds ratio) comum foi de 0,95 (intervalo de confiança, IC, de 95% de 0,84 a 1,08).

Estudo EFFECTS

O estudo EFFECTS incluiu 1.500 pacientes de 35 centros de tratamento de AVC na Suécia que apresentaram AVC isquêmico ou hemorrágico nos 2 a 15 dias anteriores, e que tinham um déficit neurológico focal persistente grave o bastante para necessitar de tratamento na perspectiva do médico e do paciente. A mediana de pontuação na Escala de AVC do National Institutes of Health (NIHSS) foi de 3. Os pacientes foram aleatoriamente inscritos para receber 20 mg de fluoxetina uma vez ao dia ou placebo por seis meses.

Para o desfecho primário – recuperação funcional mensurada pela mRS aos seis meses – não houve diferença significativa entre o grupo que recebeu fluoxetina e o que recebeu placebo. A OR comum foi de 0,94 (IC 95% de 0,78 a 1,13).

Os dados de segurança mostraram que novos episódios de depressão foram menos frequentes no grupo da fluoxetina (7,2% versus 10,8%), mas que ocorreram mais casos de hiponatremia (1,14% vs. 0,13%) e fraturas ósseas (3,7% vs. 1,5%).

O Dr. Erik concluiu que os resultados não embasam o uso de rotina da fluoxetina após o AVC agudo.

Perguntado sobre o aumento do risco de fratura, ele disse: “Nós ficamos um pouco surpresos com isso, mas o estudo FOCUS também encontrou um aumento na taxa de fraturas com a fluoxetina, e acredita-se que a medicação afete os osteoclastos e osteoblastos, então pensamos que existe algum fator biológico causando esse efeito.”

Questionado se os déficits dos pacientes podem não ter sido graves o bastante para que tivesse havido evidência de benefício com o tratamento, o Dr. Erik concordou que essa é uma possibilidade. “Nossos pacientes tiveram principalmente AVC leve – uma mediana de 3 no escore NIHSS. Enquanto no estudo FLAME, que sugeriu um benefício com a fluoxetina, os pacientes foram muito mais afetados, com um escore NIHSS médio de 13 no basal.”

“Nós buscamos incluir casos de AVC leve nesse estudo, porque queríamos uma terapia universal. Mas vamos retornar e estudar isso em uma análise combinada dos três estudos.”

Estudo AFFINITY

O estudo AFFINITY foi apresentado pelo Dr. Graeme Hankey, professor de neurologia da University of Western Australia. Neste estudo, que foi conduzido em 43 centros no Vietnã, Austrália e Nova Zelândia, 1.280 pacientes com diagnóstico clínico de AVC recente (dentro de 2 a 15 dias) foram randomizados para receber 20 mg de fluoxetina ao dia ou placebo por seis meses. A pontuação basal média no escore NIHSS foi de 6.

Os resultados foram semelhantes aos dos ensaios FOCUS e EFFECTS – não houve diferença significativa aos seis meses para os desfechos funcionais entre os pacientes que receberam fluoxetina e os que receberam placebo, medida pela distribuição das pontuações mRS. A OR comum foi de 0,94 (IC 95% de 0,76 a 1,15), com um valor < 1 favorecendo o placebo.

O único desfecho secundário que foi significativamente diferente entre os dois grupos foi uma pequena melhora no humor dos pacientes tratados com fluoxetina.

Em termos de eventos adversos, a fluoxetina foi associada com aumentos nas convulsões epilépticas (1,56% vs. 0,31%), quedas com lesões (3,12% vs. 1,10%) e novas fraturas ósseas (2,96% vs. 0,94%).

Os estudos EFFECTS e AFFINITY foram financiados por fontes não comerciais. Os Drs. Jesse e Graeme informaram não ter relações financeiras relevantes.

Conferência Virtual da European Stroke Organization. Apresentado em 13 de maio de 2020.

 

Fonte: Medscape

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Novídades

Biopsico, todos os direitos reservados - 2017