Novo antipsicótico parece promissor para o tratamento da esquizofrenia

Um novo antipsicótico, o primeiro a ter um mecanismo de ação completamente diferente dos outros agentes atualmente disponíveis, mostrou eficácia em longo prazo e um bom perfil de segurança em pacientes com esquizofrenia.

O SEP-363856 foi descrito como um potencial “divisor de águas” para o tratamento da esquizofrenia após a apresentação dos resultados iniciais na reunião anual de 2019 da American Psychiatric Association (APA). O medicamento recebeu a designação de “terapia inovadora” pela Food and Drug Administration (FDA) norte-americana.

Dados adicionais deste estudo, bem como os resultados de sua extensão, um ensaio clínico aberto de seis meses, foram publicados on-line em 15 de abril no periódico The New England Journal of Medicine.

“Estes são os primeiros dados de segurança e eficácia após seis meses de tratamento”, disse ao Medscape o primeiro autor do estudo, Dr. Kenneth Koblan, Ph.D., diretor científico da Sunovion.

Ser capaz de mostrar benefícios “duradouros” e que a substância é “benigna em no que tange o ganho ponderal, lipídios e efeitos colaterais extrapiramidais, realmente nos deu uma visão daquilo que pode ser uma nova classe de moléculas em relação a segurança e eficácia”, disse o Dr. Kenneth.

Melhora clinicamente significativa

Embora o mecanismo de ação exato seja desconhecido, acredita-se que o SEP-363856 ative o receptor 1 associado aos traços de amina (TAAR1) e os receptores da serotonina 1A (5-HT1A). Ele não se liga aos receptores da dopamina 2 (D2) ou serotonina 2A (5-HT2A), aos quais são atribuídos os efeitos dos antipsicóticos atualmente disponíveis.

O estudo SEP 361-201 original foi um estudo de fase 2, com quatro semanas de duração, duplo-cego, controlado por placebo e composto de 245 adultos internados por exacerbação aguda da esquizofrenia. Os pacientes foram alocados aleatoriamente para receber SEP-363856 (50 mg ou 75 mg uma vez ao dia) ou placebo.

As características demográficas dos grupos de tratamento eram semelhantes ao início do estudo. O grupo SEP-363856 contou com 120 pacientes (64% homens; média de idade de 30,0 anos; pontuação total na Escala de Síndrome Positiva e Negativa, PANSS, de 101,4). O grupo placebo incluiu 125 pacientes (63% homens; média de idade 30,6 anos; pontuação total da PANSS de 99,7).

Após quatro semanas de tratamento, os pacientes que receberam o SEP-363856 apresentaram melhora clínica importante e estatisticamente significativa dos escores totais da PANSS (desfecho primário) em comparação com os pacientes que tomaram placebo (- 17,2 versus – 9,7; P = 0,001; tamanho do efeito = 0,45).

O SEP-363856 também levou a uma melhora significativa em vários desfechos secundários (como a gravidade geral da doença) mensurada pela Escala de Gravidade da Impressão Clínica Global, escore na subescala positiva da PANSS, escore na subescala negativa da PANSS e escore na subescala de psicopatologia geral da PANSS.

No total, 156 pacientes (representando 81% dos que completaram as quatro semanas do estudo) foram incluídos em uma extensão do ensaio clínico. Eles receberam tratamento com o SEP-363856 por 26 semanas.

Para os 77 pacientes inicialmente designados para o SEP-363856 no estudo duplo-cego que continuaram a receber tratamento no estudo aberto, a alteração média na pontuação total da PANSS desde o início do estudo até a 26ª semana foi de – 17,1 pontos.

Dos 79 pacientes que inicialmente estavam no grupo placebo e depois mudaram para o SEP-363856 de rótulo aberto, a alteração média na pontuação total da PANSS foi de – 27,9 pontos.

A segurança e a tolerabilidade do SEP-363856 foram semelhantes às do placebo.

A quantidade de pacientes que relataram sintomas extrapiramidais nos grupos de tratamento ativo e placebo foi semelhante (3,3% vs. 3,2%, respectivamente), assim como a de pacientes que tomaram medicamentos para tratar estes sintomas. Os resultados foram semelhantes nas escalas de distúrbios do movimento.

Além disso, o novo medicamento teve efeito mínimo no hormônio proteico prolactina. “Esses achados são consistentes com a ausência de ligação do SEP-363856 ao receptor D2”, escreveram os pesquisadores.

Os eventos adversos que ocorreram com incidência de pelo menos 2% e cuja incidência no grupo SEP-363856 foi maior do que no grupo placebo foram: sonolência (6,7% vs. 4,8%, respectivamente), agitação (5,0% vs. 4,8%), náuseas (5,0% vs. 3,2%), diarreia (2,5% vs. 0,8%) e dispepsia (2,5% vs. 0%).

Dois eventos adversos graves que ocorreram no grupo SEP-363856 foram o agravamento da esquizofrenia e a insuficiência cardiovascular aguda em uma mulher de 37 anos, o que a levou ao óbito uma semana após a primeira dose de 50 mg do tratamento.

No entanto, a mulher tinha história de hipertensão essencial e, na autópsia, foram constatadas doença arterial coronariana e embolia pulmonar.

Um grande programa de fase 3 está em andamento para confirmar a segurança e eficácia do SEP-363856 para a esquizofrenia, disse o Dr. Kenneth. O programa é composto de quatro estudos que estão em andamento e recrutando participantes.

Benefício além da psicose?

Em um editorial que acompanha o estudo, Dr. Donald Goff, médico do Nathan Kline InstituteNYU School of Medicine, nos Estados Unidos, escreveu que, se os resultados forem replicados em ensaios futuros com mais pacientes e com maior duração”, essa classe de medicamentos pode ser uma nova opção terapêutica valiosa para psicose e os sintomas negativos da esquizofrenia, possivelmente sem os efeitos colaterais associados aos antagonistas diretos do receptor D2.

Também é possível que o SEP-363856 tenha mais efeitos que “os antagonistas dos receptores D2 e, portanto, mais do que o tratamento da psicose. Outras indicações terapêuticas em potencial, como para comprometimento cognitivo, depressão e abuso de álcool e drogas, ainda precisam ser exploradas”, escreveu o Dr. Donald.

Este estudo “não apenas introduziu um composto terapêutico promissor, também forneceu evidências adicionais, com base em um processo neutro de descoberta de medicamentos, de que o TAAR1 é um alvo promissor”, acrescentou ele.

“Esta é uma notícia muito bem-vinda, dada a grande necessidade de novos tratamentos farmacológicos para pacientes com esquizofrenia”, concluiu o Dr. Donald.

O estudo foi financiado pela Sunovion Pharmaceuticals. Dr. Kenneth Koblan é um funcionário da empresa. As informações sobre conflitos de interesses dos outros autores constam no artigo original. Dr. Donald Goff informou ter recebido subvenções e apoio não financeiro da Avanir Pharmaceuticals e da Takeda.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Novídades

Biopsico, todos os direitos reservados - 2017