Pesquisadores analisam progressão do transtorno obsessivo-compulsivo

O tempo médio transcorrido desde o surgimento dos primeiros sintomas até o diagnóstico do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) é de sete anos. Isto é o que mostra um estudo publicado em março no periódico Journal of Affective Disorders,[1] que investigou uma coorte brasileira com mais de 900 participantes.

Os autores brasileiros e australianos identificaram ainda variáveis relacionadas com uma progressão mais rápida da doença. Para o Dr. Leonardo Fontenelle, médico psiquiatra da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Universidade Federal Fluminense (UFF), do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e um dos autores do estudo, os achados sugerem que determinados pacientes merecem uma intervenção mais precoce, pois podem evoluir mais rapidamente para um quadro de sofrimento com sintomas mais graves. Ele falou ao Medscape sobre o trabalho.

Dados do Consórcio Brasileiro de Pesquisa em Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo, [2] pesquisa que incluiu pacientes com TOC provenientes de sete centros universitários em cinco estados brasileiros, foram avaliados retrospectivamente. A amostra final foi composta de 954 indivíduos, dos quais 57,4% eram mulheres. Os pacientes preencheram uma série de questionários com questões sobre os anos transcorridos entre o início de seus sintomas leves e o diagnóstico de TOC.

Mais da metade dos pacientes (50,2%) reportou história familiar de TOC, e 42,5% apresentaram início precoce da doença (antes de 18 anos de idade). Em média, levaram cerca de sete anos (intervalo interquartil: 2 a 13 anos) para que os sintomas leves se convertessem em sintomas diagnosticáveis, mas em 179 casos (18,8%) este intervalo foi inferior a um ano.

A velocidade da progressão foi mais rápida entre jovens, homens, pessoas que se encontravam em estado romântico (que estavam apaixonadas, iniciando um relacionamento amoroso ou prestes a casar), pessoas com sintomas sexuais/religiosos mais graves ou com quadro leve de acumulação .

Os pacientes que, ao serem avaliados pela Yale-Brown Obsessive-Compulsive Scale (Y-BOCS), obtiveram pontuações mais baixas no campo das compulsões, bem como aqueles que apresentaram pontuações mais altas para transtorno de ansiedade generalizada e agorafobia (sem transtorno de pânico ou história familiar de TOC) também tenderam a ter o início do TOC mais precoce.

Segundo o Dr. Leonardo, a análise em questão trouxe um desenho inédito e, portanto, de maneira geral, os resultados são novos do ponto de vista científico. O médico destacou algumas associações que causaram mais curiosidade: o fato de a progressão da doença ter sido mais acelerada entre indivíduos que descreveram o surgimento dos sintomas associado a um estado romântico foi algo que chamou atenção.

“Este achado sugere que os sistemas responsáveis pelo apego emocional, sistemas neurobiológicos associados à afiliação, podem determinar a progressão mais rápida do TOC”, afirmou.

Outra variável que provocou reflexão se refere ao histórico familiar. “Os resultados sugerem que a história da doença na família tende a determinar um curso mais arrastado dos sintomas. Por outro lado, a falta de história familiar nesses pacientes sugere que eles são menos ‘genéticos’ e mais ‘ambientais’, ou seja, é possível que eventos estressantes da vida e traumas psicológicos possam determinar uma progressão mais rápida da doença”, ponderou o especialista, explicando que os dois exemplos são extrapolações, hipóteses que precisam ser investigadas, especialmente em estudos prospectivos.

“Como a nossa pesquisa analisou pacientes que já tinham um diagnóstico estabelecido, trata-se mais de um estudo gerador de hipóteses do que confirmatório. O ideal agora seria acompanhar ao longo do tempo pessoas que apresentem sintomas leves, ou seja, iniciar o acompanhamento antes do diagnóstico para poder testar essas hipóteses. No entanto, isso é algo complexo, pois provavelmente exigirá que o pesquisador vá até a comunidade e entreviste e acompanhe as pessoas fora do ambiente clínico”, afirmou o pesquisador, acrescentando que, apesar dos desafios, o grupo pretende dar continuidade à investigação.

Na prática clínica, a identificação de variáveis associadas à progressão mais rápida da doença pode auxiliar os profissionais a identificarem sujeitos com mais chances de evoluir mais rapidamente para um estado clínico, permitindo, portanto, a antecipação de intervenções.

“Pode ser uma boa ideia tratar mais rápido esse grupo de pacientes do que aqueles que acabam tendo uma evolução para o estado clínico muito mais lenta”, ressaltou o Dr. Leonardo.

 

FONTE: MEDSCAPE

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