Impacto psicológico da quarentena: uma breve revisão das evidências

Foi publicada em fevereiro uma breve revisão das evidências sobre as questões psicológicas e ou psiquiátricas causadas pelo período de quarentena, que muitos países já estão adotando e outros, como o Brasil, ainda terão de adotar.

De 3.166 artigos encontrados, 24 foram incluídos na revisão, sendo que a maioria eram estudos transversais. As pesquisas foram realizadas em 10 países e os pacientes incluídos tinham as seguintes doenças: síndrome respiratória aguda grave (SARS, sigla do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome), Ebola, influenza A (H1N1), síndrome respiratória do oriente médio (MERS, sigla do inglês, Middle East Respiratory Syndrome) e influenza equina. Ainda foi incluído um estudo associando H1N1 e SARS.

A maioria dos estressores foi: duração da quarentena, medo da infecção, frustração, tédio, falta de suprimentos, falta de informação, perdas financeiras e estigma.

Quarentena é a separação e restrição do trânsito de pessoas que possam ter sido expostas a alguma doença contagiosa, a fim de verificar se elas ficam sintomáticas, diminuindo assim o risco de transmissão para outras pessoas. A definição de quarentena é diferente da de isolamento, que consiste na separação de pacientes que foram diagnosticados com alguma doença contagiosa das pessoas que não apresentam a doença, mas, na prática, os dois termos são usados quase como sinônimos.

A palavra quarentena foi usada pela primeira vez em Veneza, em 1.127, para isolar pacientes com hanseníase, e foi amplamente utilizada durante a peste negra. Recentemente o termo voltou a ser utilizado na China em relação à Covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019), quando cidades inteiras foram colocadas nesta condição. Essa não é a primeira vez que vilarejos ou cidades inteiras são colocadas em quarentena; em 2003, algumas áreas na China e no Canadá entraram em quarentena em função da síndrome respiratória aguda grave (SARS, sigla do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome), além de vilarejos inteiros na África durante o surto de Ebola.

A quarentena normalmente é uma experiência desagradável, pois existe separação de parentes, perda da liberdade, incerteza sobre a doença e tédio, que pode causar situações difíceis.

Preditores pré-quarentena de impacto psicológico

Há uma discussão na comunidade científica sobre se características particulares e demográficas poderiam ser preditores de impacto psicológico na quarentena. Um estudo sobre o surto de influenza equina identificou que mulheres jovens (de 16 a 24 anos), com baixo grau de instrução e com filhos foram associadas a sofrerem um impacto negativo da quarentena. Profissionais da saúde apresentaram sintomas mais intensos de ansiedade, raiva, medo, frustração, culpa e tristeza, além de mais medo de infectar outras pessoas.

Estressores durante a quarentena

Duração da quarentena

Estudos mostram que quanto mais longa a quarentena, maior o impacto na saúde mental, causando principalmente sintomas de raiva, ansiedade e esquiva.

Medo da infecção

Pelo menos oito estudos mostraram que as pessoas em quarentena apresentaram temor pela própria saúde ou de infectar os outros. Um estudo mostrou que gestantes e famílias com filhos pequenos representam uma grande parcela da população que tem medo da infecção.

Frustração e tédio

O confinamento, a perda da rotina e a redução do contato físico e social com outras pessoas frequentemente causam tédio, frustração e sensação de isolamento do resto do mundo. Estes sentimentos podem causar angústia a quem está de quarentena. A frustração aumenta diante da impossibilidade de realizar as atividades do dia a dia, como fazer as próprias compras de necessidades básicas ou interagir socialmente.

Inadequação de suprimentos

A inadequação de suprimentos como água, comida, roupas ou acomodação durante a quarentena é uma fonte de frustração, e tem sido associada à ansiedade e raiva. Estes sentimentos podem durar por volta de quatro a seis meses após o término da quarentena. Além disto, a falta de acesso a atendimento médico regular e prescrições médicas também é um problema para as pessoas em quarentena.

Falta de informação

Muitas pessoas que ficaram em quarentena citaram que a falta de informações do poder público é um estressor, referindo insuficiência de orientações sobre ações e o propósito da quarentena. Participantes relataram uma falta de transparência das autoridades sobre a gravidade da pandemia.

Estressores após a quarentena

Finanças

Perdas financeiras podem ser um problema durante a quarentena, pois muitas pessoas não podem trabalhar e são pegas de surpresa neste momento, não podendo se organizar financeiramente. Estudos mostram que perdas financeiras causam angústia e são fatores de risco de sintomas psiquiátricos como ansiedade e raiva, podendo perdurar mesmo após o fim da quarentena. Um estudo com pessoas em quarentena durante o surto de Ebola concluiu que, mesmo recebendo auxílio financeiro, a ajuda foi insuficiente e chegou tarde demais. Outro estudo mostrou que pessoas mais pobres acabam sendo mais prejudicadas nestes períodos.

Estigma

O estigma em relação a outras pessoas foi o tema mais recorrente na literatura, persistindo por um bom tempo após a quarentena. Em uma comparação entre profissionais da saúde que ficaram em quarentena e aqueles que não ficaram, os primeiros relataram maior sensação de estigmatização e rejeição de pessoas nos bairros onde viviam. Participantes de estudos relataram que eram tratados de maneira diferente por outros, sendo temidos por alguns, além receberem comentários críticos. Diversos profissionais de saúde envolvidos no surto de Ebola, no Senegal, relatam que durante a quarentena suas famílias os pressionaram a abandonar seus empregos por serem muito arriscados, criando tensão dentro de casa.

Educar as pessoas sobre as doenças, além de explicar os fundamentos da necessidade de quarentena, pode diminuir o estigma. A mídia deve tomar os devidos cuidados ao relatar as notícias para o público em geral. É importante que as autoridades de saúde pública forneçam informações rápidas e claras para a população.

O que se pode fazer para atenuar as consequências da quarentena?

Os autores da revisão estipulam alguns fatores que podem reduzir as consequências da quarentena.

Fazer com que a quarentena seja o mais breve possível

As quarentenas mais longas estão associadas a desfechos psíquicos mais negativos. Deve-se tentar restringir a duração ao menor tempo possível, respeitando as evidências científicas. Entende-se que, para pessoas que já estão em quarentena, a decisão de estender ainda mais o período de isolamento pode causar ainda mais frustação e sensação de desmoralização. Quarentenas impostas a cidades inteiras, como ocorreu na China e Itália, podem ser ainda mais prejudiciais para a saúde mental.

Fornecer o máximo de informações para a população

Pessoas em quarentena normalmente têm medo de infectar outras pessoas ou de ser infectadas por elas. Muitas vezes as pessoas confinadas têm avaliações catastróficas dos sentimentos experimentados durante a quarentena. Os autores pontuaram que é fundamental que as pessoas submetidas ao confinamento tenham um bom entendimento sobre a doença em questão e as razões para a quarentena.

Fornecer suprimentos adequados

As autoridades devem assegurar que as pessoas em quarentena tenham acesso a suprimentos de necessidade básica. As coordenadas dever ser feitas antes do início da quarentena, para que estes suprimentos não faltem.

Reduzir o tédio e melhorar a comunicação

O tédio e o isolamento causam angústia e sofrimento. Pessoas em quarentena devem ser orientadas, e medidas objetivas devem ser repassadas para que elas tenham mais condições de lidar com o estresse da situação. É essencial acionar amigos e familiares remotamente. Um estudo mostrou que disponibilizar uma linha direta com psiquiatras e outros profissionais de saúde mental especificamente para as pessoas em quarentena diminui o senso de isolamento. É importante que as empresas provedoras de internet se preparem para a sobrecarga de seus sistemas, e que ofereçam velocidade mais alta para os lugares em quarentena. É importante também disponibilizar linhas diretas com profissionais de saúde que possam dar informações sobre o que fazer e para onde se dirigir em caso de contaminação.

Profissionais de saúde merecem atenção especial

Os profissionais de saúde geralmente estão em quarentena e esta revisão sugere que, assim como a população em geral, eles sofrem efeitos negativos. Os profissionais de saúde acabam sentindo-se culpados por abandonar seus postos de trabalho e de causar uma sobrecarga aos seus colegas. É importante que estas pessoas tenham o suporte de seus colegas mais próximos.

A revisão tem algumas limitações. A mais importante é o fato de ter sido feita em pouco tempo, devido ao surto de Covid-19. A maioria dos estudos teve pequenas amostras, poucos estudos comparam participantes em quarentena com participantes que não estavam em quarentena.

Conclusão

No geral, esta revisão sugere que as consequências da quarentena são amplas e podem durar por um longo tempo. Diante desta conclusão, os autores não sugerem que a quarentena não deva ser aplicada, mas reforçam que, com a necessidade da quarentena, as autoridades devem tomar todas as medidas para que essa experiência seja mais tolerável para as pessoas.

 

FONTE: MEDSCAPE

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