Dose única de THC é associada a sintomas de psicose em adultos saudáveis

Apenas uma dose de tetraidrocanabinol (THC), o equivalente a mais ou menos um cigarro de maconha, pode induzir a sintomas de psicose e de outros transtornos psiquiátricos em adultos saudáveis sem história de doença mental grave, sugerem resultados de uma nova metanálise.

A pesquisa mostrou importantes efeitos para este tipo de sintoma, que ocorreram mesmo com baixas doses de THC, o componente psicoativo da Cannabis.

Os novos achados destacam que apenas uma “exposição única” ao THC, mesmo em uma pessoa saudável e em forma, aumenta a chance de sintomas psiquiátricos, inclusive sintomas de psicose, disse ao Medscape o pesquisador sênior, Dr. Oliver D. Howes, médico e professor de psiquiatria molecular no King’s College, no Reino Unido.

“Como médicos, precisamos estar cientes de que o uso medicinal da maconha traz um risco de induzir sintomas psiquiátricos, mesmo em pessoas sem vulnerabilidade, e isso precisa ser levado em consideração nas decisões de prescrição e acompanhamento”, disse ele.

“Isso não quer dizer que não devemos usar Cannabis quando houver boas evidências de benefício potencial, mas é algo que precisamos considerar”, acrescentou o Dr. Oliver.

Ele explicou que, mesmo que esses sintomas sejam breves, as pessoas precisam saber que eles podem ocorrer, porque podem ser estressantes, afetar o processo decisório e o comportamento.

Cabe ainda destacar que a revisão não mostrou evidências claras de que a administração simultânea de canabidiol (CBD), outro componente da Cannabis, tenha atenuado os sintomas psiquiátricos associados ao THC.

“Isso contraria algumas das ideias existentes”, disse o Dr. Oliver, “de que o aumento da quantidade de CBD na maconha ajuda a combater os efeitos do THC. Acho que isso nos mostra que precisamos pesquisar mais antes de chegarmos a qualquer conclusão sobre se o CBD ajuda ou não”.

O estudo foi publicado on-line em 17 de março no periódico Lancet Psychiatry.

Uso difundido

Cannabis está entre as substâncias psicoativas mais usadas no mundo. Nos Estados Unidos estima-se que mais de 15% da população consuma Cannabis anualmente.

Além disso, há uma tendência global de descriminalização e legalização. Até o momento, a Cannabis é legalizada para uso recreativo em 11 estados dos EUA, no Canadá e no Uruguai.

Pesquisas anteriores sobre os efeitos do THC em indivíduos saudáveis foram inconsistentes.

O objetivo do estudo em tela foi analisar o efeito do THC isolado e junto com CBD versus placebo nos sintomas psiquiátricos de participantes saudáveis.

“Embora haja muitas evidências de que a Cannabis esteja associada ao risco de sintomas de psicose, a grande questão é se isso ocorre devido aos componentes da Cannabis ou se as pessoas que já tinham sintomas ou vulnerabilidades, estavam usando Cannabis para tentar se tratar de alguma forma, e, portanto, não sabíamos realmente a direção da causalidade”, disse o Dr. Oliver.

A metanálise incluiu 15 estudos sobre administração aguda de THC e quatro estudos sobre CBD + THC. Os critérios de inclusão foram estudos que relataram sintomas usando a Escala Breve de Classificação Psiquiátrica (BPRS) e a Escala das Síndromes Positiva e Negativa (PANSS) após a administração aguda de THC, CBD e placebo por via intravenosa (IV), oral ou nasal.

Essas escalas medem alterações nos sintomas relevantes de esquizofrenia, sintomas positivos, como alucinações e delírios; sintomas negativos, como embotamento afetivo, anedonia e apatia; e da psicopatologia geral, depressão, cognição e ansiedade.

Os estudos incluídos na análise usaram doses de THC que foram de 1,25 mg a 10 mg, levando a concentrações sanguíneas máximas de THC de 4,56 ng/mL a 5,1 ng/mL quando administradas por via oral e de 110 ng/mL a 397 ng/mL após administração intravenosa ou inalatória.

O Dr. Oliver relatou que as doses usadas no estudo “foram projetadas para serem equivalentes à quantidade de THC obtida ao fumar um cigarro de maconha típico”.

Nenhum efeito protetor do CBD

Todos os participantes foram examinados para descartar história de doença mental, outras vulnerabilidades e problemas físicos de saúde.

Comparado com o placebo, o THC aumentou significativamente a gravidade dos sintomas em geral (variação média padronizada do escore, SMC, de 1,10; intervalo de confiança, IC, de 95%, de 0,92 a 1,28; P < 0,0001), bem como a dos sintomas positivos (SMC = 0,91; IC 95%, de 0,68 a 1,14; P < 0,0001) e dos sintomas negativos (SMC = 0,78; IC 95%, de 0,59 a 0,97; P < 0,0001).

“O surpreendente para mim foi o fato de haver efeitos muito semelhantes para todos os sintomas psiquiátricos analisados”, disse o Dr. Oliver.

Não houve evidências claras de efeito relacionados com a dose nos sintomas. No entanto, esse não é um “achado muito sólido”, porque a dose variou de acordo com a via de administração; com doses mais altas administradas por via oral, levando a “um perfil de captação diferente”, disse o Dr. Oliver.

Além disso, os pesquisadores não encontraram evidências de que o CBD tenha efeito moderador nos sintomas de psicose associados ao THC. Embora um único estudo pequeno tenha mostrado que o CBD levou à uma redução significativa nos sintomas positivos induzidos pelo THC, três estudos maiores não conseguiram replicar esse resultado.

“No geral, acho apropriado concluir que faltam evidências consistentes de que o CBD protege contra o efeito do THC”, disse o Dr. Oliver.

Por último, os pesquisadores observaram uma associação negativa entre o tabagismo e os sintomas positivos induzidos pelo THC (P = 0,019). No entanto, os pesquisadores disseram que mais estudos são necessários para confirmar essa associação, e que ela não deve ser entendida como uma recomendação do uso de tabaco para combater os efeitos do THC.

A média de idade dos participantes dos vários estudos foi de 20 a 29 anos. A análise mostrou que a idade não teve efeito nos sintomas de psicose, mas que ser mais velho foi associado a ser mais sensível aos sintomas negativos, como retraimento social e falta de motivação.

Embora a revisão não tenha focado no risco que o THC representa para indivíduos vulneráveis a doenças psiquiátricas, é provável que esses pacientes “tenham pelo menos o mesmo risco ou possam ser ainda mais sensíveis” do que os indivíduos saudáveis estudados, disse o Dr. Oliver.

“Importante e preocupante”

Comentando o estudo para o Medscape, o Dr. Petros Levounis, médico, professor e diretor do Departamento de Psiquiatria da Rutgers New Jersey Medical School, nos EUA, descreveu os resultados como “muito fortes e consistentes”, e disse que o estudo “contribui significativamente para o conhecimento”.

Semelhante a álcool, cocaína e outras drogas de abuso, é importante saber o que esperar da intoxicação por THC, por isso as informações obtidas por essa revisão são clinicamente úteis, disse ele.

“Por causa deste artigo, agora temos evidências muito boas de que a intoxicação por maconha em curto prazo causa psicose, o que é muito importante”, explicou o Dr. Petros.

Ele disse que agora aconselhará seus pacientes que usam maconha a se prepararem para sintomas de psicose após um episódio de intoxicação.

“Isso é muito importante por causa de acidentes e do problema que você pode ter se ficar intensamente paranoico durante esse episódio, especialmente hoje em dia com concentrações muito altas de THC”, disse o Dr. Petros.

No entanto, advertiu o Dr. Petros, a revisão não trouxe informações sobre o risco de psicose em longo prazo associado ao THC.

Os achados indicando que o CBD não tem propriedades antipsicóticas, acrescentou, são “um pouco surpreendentes”, pois essa “tem sido uma crença muito difundida”.

Em um editorial que acompanha a publicação, o Dr. Carsten Hjorthøj e a Dra. Christine Merrild Posselt, do Copenhagen Research Center for Mental HealthCopenhagen University Hospital, na Dinamarca, destacaram que a descoberta de que mesmo doses baixas de THC podem induzir sintomas de psicose é “extremamente importante e preocupante”, uma vez que essas doses são semelhantes às do uso medicinal da maconha.

No entanto, eles acrescentaram que isso não significa que doses únicas de THC “causarão esquizofrenia ou outros transtornos graves”.

A descoberta de que não há evidências claras de que a administração simultânea de CBD reduz os sintomas induzidos pelo THC “é notável”, porque o CBD “tem sido apontado como um potencial supermedicamento, com propriedades antipsicóticas e ansiolíticas entre outras”, escreveram eles.

“Embora seja bem possível que o CBD tenha alguma aplicação terapêutica (uma vez que ensaios clínicos randomizados foram realizados), isso reforça a percepção de que muitos dos estudos iniciais e discussões sobre o uso do CBD puro ou de extratos de plantas inteiras de maconha foram um pouco exagerados, comparados com o que podemos esperar na prática clínica”, disseram os editorialistas.

Dr. Oliver D. Howes informou ter recebido subvenções de Angellini, AstraZeneca, Autifony, Biogen, Eli Lilly, Heptares, Janssen, Lundbeck, LydenDelta, Otsuka, Sunovion, Rand, Recordati Roche (não relacionadas com o trabalho enviado). O Dr. Petros Levounis e os editorialistas informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

 

FONTE:MEDSCAPE

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