RM do cérebro: novo horizonte sobre o comportamento antissocial persistente

Indivíduos que apresentam comportamento antissocial persistente ao longo da vida têm um córtex mais fino e uma área de superfície menor em importantes regiões cerebrais quando comparados com controles que não apresentam comportamento antissocial, mostra uma nova pesquisa.

No entanto, os pesquisadores não encontraram anomalias cerebrais estruturais generalizadas no grupo que apresentou comportamento antissocial somente durante a adolescência.

Essas diferenças cerebrais parecem ser “bastante específicas e exclusivas” dos indivíduos que apresentam comportamento antissocial persistente ao longo da vida, disse em uma coletiva de imprensa a primeira pesquisadora, Dra. Christina Carlisi, Ph.D., da University College London (UCL), no Reino Unido.

“É importante ressaltar que os resultados não associam anomalias cerebrais estruturais diretamente ao comportamento antissocial”, disse ela. Tampouco significam que alguém com um cérebro ou área cerebral menores esteja destinado a ser antissocial ou a cometer algum crime.

“Nossos resultados sustentam a ideia de que podem haver diferenças na estrutura cerebral da pequena proporção de indivíduos com comportamento antissocial persistente ao longo da vida que dificultam o desenvolvimento de habilidades sociais que os impeçam de desenvolverem um comportamento antissocial. Essas pessoas poderiam se beneficiar de mais suporte durante a vida”, acrescentou a Dra. Christina em um comunicado à imprensa.

O estudo, observaram os pesquisadores, fornece a primeira evidência robusta sugerindo que diferenças neuropsicológicas subjacentes estão primariamente associadas ao comportamento antissocial persistente ao longo da vida.

O estudo foi publicado on-line em 17 de fevereiro no periódico Lancet Psychiatry.

Suporte para uma segunda chance

Ao falar em uma coletiva de imprensa, a coautora Dra. Terrie Moffitt, Ph.D., da Duke University, nos Estados Unidos, disse ser amplamente reconhecido que a maioria dos jovens que cometem crimes tem entre 16 e 25 anos.

Infringir a lei não é nada raro nessa faixa etária, mas nem todos esses jovens infratores são iguais, observou ela. Apenas alguns se tornam reincidentes persistentes.

“Eles começam como crianças com problemas de conduta agressiva e acabam afundando em uma vida de crimes graves e reincidentes que perdura até a idade adulta, mas esse é um grupo pequeno”, explicou a Dra. Terrie.

“Por outro lado, a grande maioria dos infratores terá apenas um contato passageiro com a violação da lei e depois irá amadurecer, se tornando membros da sociedade que vivem em conformidade com a lei.”

O estudo em pauta sugere que o que faz com que esses infratores passageiros adotem um comportamento diferente daqueles que permanecem cometendo crimes pode ter a ver com alguma vulnerabilidade relacionada com a estrutura do cérebro, disse a Dra. Terrie.

Os achados são provenientes de 672 indivíduos inscritos no Dunedin Multidisciplinary Health and Development Study, uma coorte de nascimentos longitudinal representativa da população que avalia a saúde e o comportamento.

Pautado no relato de pais, mães, cuidadores e professores, além do relato dos próprios indivíduos de 7 a 26 anos sobre problemas de conduta, 80 participantes (12%) apresentaram comportamento antissocial “persistente ao longo da vida”, 151 (23 %) tiveram comportamento antissocial somente na adolescência e 441 (66%) tiveram “um ligeiro” comportamento antissocial (grupo de controle, cujos membros nunca tiveram um padrão generalizado ou persistente de comportamento antissocial).

A ressonância magnética (RM) cerebral feita aos 45 anos de idade mostrou que entre os indivíduos com comportamento antissocial persistente, a área de superfície média foi menor (β = – 0,18; intervalo de confiança, IC, de 95% de – 0,24 a – 0,11; P < 0,0001) e a espessura cortical média foi menor (β padronizado = – 0,10; IC 95% de – 0,19 a – 0,02; P = 0,020) do que os indivíduos do grupo de controle.

Para aqueles no grupo de comportamento antissocial persistente, a área da superfície estava reduzida em 282 de 360 segmentos cerebrais anatomicamente definidos, e o córtex era mais fino em 11 de 360 segmentos que englobaram regiões frontais e temporais (associadas a função executiva, regulação emocional e motivação) em comparação com o grupo de controle.

Não foram encontradas diferenças generalizadas na morfometria da superfície do cérebro naqueles que apresentaram comportamento antissocial apenas durante a adolescência. Esse comportamento provavelmente foi resultado da passagem pelas dificuldades sociais inerentes à idade.

“Esses achados enfatizam pesquisas anteriores que realmente destacam a existência de diferentes tipos de jovens infratores. Eles não são todos iguais; nem todos devem ser tratados da mesma forma”, disse aos repórteres a coautora Dra. Essi Viding.

Os achados endossam as atuais estratégias, que consistem em oferecer “uma segunda chance” aos jovens infratores, em vez de impor políticas mais rigorosas que priorizem o encarceramento de todos os jovens infratores, acrescentou a Dra. Essi, Ph.D, da UCL.

Contribuição importante

Os autores de um comentário que acompanha o estudo observaram que, apesar dos “notáveis progressos nas últimas três décadas, a causa do comportamento antissocial permanece desconhecida”.

Este estudo faz “uma importante contribuição ao identificar correlatos estruturais cerebrais de comportamento antissocial que poderiam ser usados para diferenciar indivíduos com comportamento antissocial persistente ao longo da vida daqueles com comportamento antissocial limitado à adolescência e controles não antissociais”, escreveram Dr. Inti Brazil, Ph.D., do Instituto Donders de Cérebro, Cognição e Comportamento, Radboud University, na Holanda, e Dra. Macia Buades-Rotger, do Instituto de Psicologia da University of Lubeck, na Alemanha.

Eles observaram que as descobertas podem ajudar os profissionais a chegar mais perto do antigo objetivo de incorporar dados neurais em protocolos de avaliação de comportamento antissocial.

A descoberta de “diferenças morfológicas significativas entre indivíduos com comportamento antissocial persistente ao longo da vida e pessoas com esse tipo de comportamento limitado à adolescência oferece um avanço importante no uso de métricas cerebrais para diferenciar indivíduos com disposições antissociais.”

“É importante ressaltar, no entanto, que ainda é necessário determinar se, e como, o fato de medir o cérebro pode ser usado para relacionar as diferentes visões e teorias taxométricas sobre a etiologia do comportamento antissocial”, concluíram o Dr. Inti e a Dra. Macia.

O estudo foi financiado por US National Institute on Aging, Health Research Council of New Zealand, New Zealand Ministry of Business, Innovation and Employment, UK Medical Research Council, Avielle Foundation e Wellcome Trust. Os autores do estudo e os autores do comentário que acompanha o estudo informaram não ter relações financeiras relevantes.

 

Fonte: Medscape

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