Diurético desponta como tratamento promissor para o autismo

O diurético de alça bumetanida parece melhorar alguns dos principais sinais e sintomas comportamentais do autismo por diminuir os níveis do neurotransmissor ácido gama-aminobutírico (GABA), sugere uma nova pesquisa.

Pesquisadores descobriram que crianças pequenas com transtorno do espectro autista (TEA) tratadas com este diurético durante três meses tiveram melhor pontuação em uma escala comportamental que mede a resposta emocional, bem como a comunicação verbal e não verbal, em comparação com crianças tomando placebo.

“Este estudo é importante e instigante, pois significa que existe um medicamento que pode melhorar o aprendizado social e reduzir os sinais e sintomas de transtorno do espectro do autismo durante o período em que o cérebro dessas crianças ainda está se desenvolvendo”, disse em um comunicado à imprensa a pesquisadora do estudo, Dra. Barbara Sahakian, D.Sc., professora de neuropsicologia clínica na University of  Cambridge no Reino Unido.

O estudo foi publicado on-line em 27 de janeiro no periódico Translational Psychiatry.

Mecanismo revelado

Conforme publicado pelo Medscape em 2017, a bumetanida tem demonstrado melhorar os sinais e sintomas do transtorno do espectro do autismo nas pesquisas preliminares. No entanto, o novo estudo em tela elucida o mecanismo farmacológico que modifica a razão entre o GABA e o glutamato no cérebro.

“Esta é a primeira demonstração que bumetanida melhora a função cerebral e reduz os sinais e sintomas ao diminuir a quantidade do neurotransmissor cerebral GABA. A compreensão deste mecanismo é um passo importante para a criação de novos medicamentos ainda mais eficazes”, disse o copesquisador do estudo Dr. Ching-Po Lin, Ph.D., da Universidade Nacional de Yang-Ming em Taiwan.

O estudo foi feito com 83 crianças entre três e seis anos de idade com autismo de moderado a grave; 42 foram tratadas com 0,5 mg de bumetanida duas vezes ao dia durante três meses e 41 no grupo de controle não receberam tratamento. Ao início do estudo, os dois grupos tiveram pontuações semelhantes na Childhood Autism Rating Scale (CARS).

Em comparação com o grupo de controle, o grupo da bumetanida apresentou redução significativa da gravidade dos sintomas, como indicado tanto pela pontuação total na CARS como pelo número de itens designados com pontuação igual ou maior que 3. A melhora clínica foi confirmada pela impressão geral de um médico que era cegado para os grupos do estudo.

Foi particularmente notável a diminuição dos comportamentos repetitivos e a diminuição do interesse por objetos entre as crianças tomando bumetanida.

A Dra. Fei Li, Ph.D., coordenadora clínica do estudo na Faculdade de Medicina da Universidade de Jiao Tong em Xangai, na China, compartilhou uma interação com um dos pais.

“A mãe de um menino de quatro anos de idade que vive em uma área rural fora de Xangai e fez o tratamento, me disse que agora ele estabelecia mais contato visual com os membros da família e os parentes, e conseguia participar mais nas atividades”, disse a Dra. Fei na conferência de imprensa.

“Futuramente, esperamos conseguir assegurar a todas as famílias, independentemente de onde morem, que possam receber tratamento para seus filhos”.

Exames de neuroimagem mostraram que três meses de tratamento com bumetanida foram associados à diminuição da razão entre o GABA e o glutamato em duas regiões fundamentais do cérebro: no córtex insular, que desempenha um papel na empatia e na autoconsciência, e no córtex visual, que é responsável pela integração e pelo processamento das informações visuais. Esta diminuição da razão GABA/glutamato foi associada à redução da gravidade dos sintomas.

“Não é uma panaceia”

“Dado que a interação social e a comunicação começam muito cedo na vida, é melhor usar a bumetanida assim que possível, logo após o diagnóstico”, disse a Dra. Barbara ao Medscape.

“Isso dá a melhor chance possível para as crianças com transtorno do espectro autista de estabelecer contato visual, sorrir e ter outras formas de comunicação social, e ter uma boa qualidade de vida e bem-estar”, acrescentou a pesquisadora.

No entanto, ressaltou que é necessário fazer outros estudos. Se os resultados de um grande estudo duplo-cego e controlado com placebo “replicarem os resultados do nosso estudo da bumetanida e determinarem que a administração do diurético é segura e eficaz para a redução dos sinais e sintomas nas crianças com transtorno do espectro autista moderado e grave e, então isso será um tratamento”, mas “provavelmente daqui a três a cinco anos”, disse a Dra. Barbara.

Convidada pelo Medscape a comentar esses resultados a Dra. Randi Hagerman, diretora médica do UC Davis MIND Institute nos EUA, disse não estar surpresa com os resultados positivos, tendo visto os benefícios da bumetanida em primeira mão.

A Dra. Randi, que não participou da pesquisa, disse que já tentou usar bumetanida em uma paciente não-verbal com transtorno do espectro autista que teve resultados “maravilhosos” e, mais tarde, conseguiu falar.

“Eu acho que pode ajudar muito as pessoas com autismo. Eu não penso que seja uma panaceia, mas acho que este é um dos poucos medicamentos que ter eficácia e fazer alguma diferença. Por ser um diurético, os níveis de potássio precisam ser monitorados de perto”, disse a Dra. Randi.

Ela acrescentou que seu grupo no MIND Institute em breve irá começar um estudo com a bumetanida para crianças pequenas.

O estudo foi financiado por: Comissão Municipal de Saúde e de Planejamento Familiar de  Xangai, Centro de Desenvolvimento do Hospital Shenkang de Xangai, Comissão Municipal de Educação de  Xangai, Fundação Nacional de Ciências Naturais da China, Comissão de Ciências e Tecnologia de Xangai, Hospital Xinhua de Xangai  da Faculdade de Medicina Jiao Tong, Plataforma Nacional de Serviços de Compartilhamento de Recursos Genéticos Humanos, Programa Básico de Pesquisa e Desenvolvimento da China, Projeto 111, Grande Projeto Municipal de Ciência e Tecnologia de Xangai, Grande Projeto de Cantão e ZJ Lab. Os autores e a Dra. Randi Hagerman informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

 

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