Cannabis para dormir: benefícios imediatos e problemas tardios?

Pacientes que sofrem de dor crônica e fazem uso medicinal de Cannabis para conciliar e manter o sono apresentam benefícios imediatos, mas em longo prazo o sono pode ser comprometido, revela nova pesquisa.

Pesquisadores descobriram que o uso medicinal da planta inteira da Cannabis foi associado a menos problemas em relação ao despertar noturno, mas também descobriram que o uso medicinal frequente da Cannabis foi associado a mais problemas para conciliar e manter o sono.

“A Cannabis pode melhorar o sono em geral em curto prazo”, disse ao Medscape a pesquisadora do estudo,Dra. Sharon Sznitman, Ph.D., da Faculdade de Ciências da Saúde e do Bem-Estar Social da Universidade de Haifa, em Israel. “Mas é também muito interessante que, quando analisamos a frequência de utilização no grupo do uso medicinal da Cannabis, as pessoas que usavam com mais regularidade também apresentavam mais comprometimento do sono com o passar do tempo.

“Isso sugere que, embora a Cannabis possa melhorar globalmente o sono, também é possível que ocorra tolerância com muita facilidade ou com o uso prolongado”, acrescentou a pesquisadora.

O estudo foi publicado on-line em 20 de janeiro no periódico BMJ Supportive and Palliative Care.

Um problema comum

Estimativas sugerem que a dor crônica atinja até 37% dos adultos no mundo desenvolvido. As pessoas que sofrem de dor crônica, muitas vezes têm insônia concomitante, com dificuldade de conciliar o sono, alterações do sono e despertar cedo demais.

Por sua parte, o uso medicinal da Cannabis para tratar os sinais e sintomas da dor crônica e os problemas de sono tem sido amplamente descrito como principal motivação para o uso medicinal da substância. De fato, estudos anteriores concluíram que o sistema endocanabinoide desempenha um papel na regulação do sono, inclusive na sua promoção e na manutenção.

Nos últimos anos, pesquisadores têm descrito os efeitos benéficos do uso medicinal da Cannabis para o sono. No entanto, algumas pesquisas pré-clínicas também concluíram que a administração regular de tetraidrocanabinol (THC, sigla do inglês, TetraHydroCannabinol) pode levar à tolerância dos efeitos de melhora do sono da Cannabis.

Com isso em mente, os pesquisadores partiram para avaliar o potencial impacto do uso medicinal da planta inteira de Cannabis nos distúrbios do sono apresentados por pacientes de meia-idade com dor crônica.

“As pessoas contam que usam Cannabis para dormir e que isso as ajuda, mas, como sabemos, só porque as pessoas estão dizendo que funciona não significa que isso vá ser confirmado pela pesquisa”, disse a Dra. Sharon.

O estudo foi feito com 128 participantes (média de idade de 61 ± 6 anos; 51% mulheres) com dor neuropática crônica. Destes, 66 faziam uso medicinal de Cannabis; os demais 62 não faziam.

Foram estudados três indicadores de insônia pela escala Likert de sete pontos para avaliar problemas como o início e a manutenção do sono.

Além disso, os pesquisadores coletaram informações sociodemográficas, bem como dados sobre o consumo diário de tabaco, a frequência de consumo de bebidas alcoólicas e a intensidade da dor. Por fim, os autores coletaram dados dos pacientes sobre o uso de medicamentos para dormir durante o mês anterior, bem como de antidepressivos tricíclicos.

Mais problemas de sono com o uso frequente?

Em média, os participantes que faziam uso medicinal de Cannabis eram três anos mais jovens do que os que não usavam (média de idade de 60 ± 6 versus 63 ± 6 anos, respectivamente; P = 0,003) e tinham mais probabilidade de ser do sexo masculino (58% vs. 40%, respectivamente; P = 0,038). Fora isso, os dois grupos eram comparáveis.

Os participantes que faziam uso medicinal de Cannabis informaram usar a droga em média há quatro anos, em quantidade média de 31 g por mês. O principal modo de administração era fumando (68,6%), seguido por extratos de óleo (21,4%) e vaporização (20%).

Os resultados mostraram que, do total da amostra, 24,1% disseram sempre acordar cedo e não voltar a dormir; 20,2% referiram ter sempre dificuldade de adormecer; e 27,2% informaram sempre acordar durante a noite.

Após o ajuste por idade, sexo, intensidade da dor e uso de medicamentos para dormir e de antidepressivos, o uso medicinal de Cannabis foi associado a menos problemas com despertar noturno em comparação com o uso recreativo da Cannabis.

Não foram observadas diferenças entre os grupos em relação a problemas para conciliar o sono ou acordar cedo demais sem conseguir voltar a dormir.

A análise final de uma subamostra de pacientes contendo apenas os participantes que faziam uso medicinal de Cannabis mostrou que sua frequência foi associada a problemas de sono.

Especificamente, o uso mais frequente de Cannabis foi associado a mais problemas relacionados com despertar noturno, bem como problemas para conciliar o sono.

Problemas de sono associados ao uso medicinal frequente de Cannabis podem sinalizar a ocorrência de tolerância à substância. No entanto, as pessoas que fazem uso medicinal de Cannabis muitas vezes também podem sentir dores ou ter outras comorbidades que, por sua vez, podem estar ligadas a mais problemas de sono.

De qualquer maneira, a Dra. Sharon disse que o estudo pode abrir a porta para outra opção terapêutica para os pacientes que sofrem de dor crônica e lutam com o sono.

“Se novas pesquisas mostrarem que o efeito do uso medicinal de Cannabis no sono é sistemático, então nós podemos acrescentar um novo tratamento para os distúrbios do sono, que são enormes na sociedade e, especialmente, entre os pacientes com dor crônica”, disse a pesquisadora.

Fase inicial

Convidado a comentar os resultados do estudo pelo Medscape, o Dr. Ryan G. Vandrey, Ph.D., que não participou do estudo, disse que os resultados estão de acordo com os de pesquisas anteriores.

“Me parece que os resultados fazem sentido no que diz respeito aos dados que já obtive e ao que tenho observado”, disse Dr. Ryan, professor associado de psiquiatria e ciências comportamentais na Johns Hopkins Medicine, nos Estados Unidos.

“Normalmente nós só queremos usar medicamentos para dormir durante curtos períodos”, continuou Dr. Ryan. “Quando você pensa sobre as recomendações de prescrição de qualquer hipnótico, normalmente é por curto prazo; duas semanas ou menos.”

O uso prolongado costuma causar tolerância, dependência e síndrome de abstinência quando o medicamento é suspenso, o que leva à exacerbação dos problemas do sono”, disse o professor.

No entanto, o comentarista pediu cautela na interpretação dos resultados.

“Me parece que o estudo justifica a cautela no uso prolongado de canabinoides em termos do sono”, disse Dr. Ryan. “Mas precisamos de avaliações mais detalhadas, dado que o ensaio clínico não testou um produto definido, doses específicas ou um esquema posológico.”

“Além disso, tudo foi feito no contexto de pessoas com dor crônica, não de pacientes tratando distúrbios do sono ou insônia, mas o estudo destaca a importância de reconhecer que o uso regular prolongado de Cannabis não tem o potencial de resolver inteiramente os problemas do sono.”

A Dra. Sharon concordou que a pesquisa ainda está na fase inicial.

“Ainda estamos longe de dizer que temos evidências embasando o uso medicinal da Cannabis para dormir”, disse a médica. “Em última instância, foi apenas um estudo transversal e observacional, não podemos dizer nada sobre causa e efeito. Mas se estes resultados se revelarem positivos, poderiam ser de grande alcance e instigantes.”

O estudo foi financiado pela Universidade de Haifa, pelo Hospital Rambam em Israel e pela Evelyn Lipper Foundation. A Dra. Sharon Sznitman e o Dr. Ryan Vandrey informaram não ter conflitos de interesse.

 

Fonte: Medscape

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