Declínio cognitivo pode ser identificado antes do acúmulo de amiloide na doença de Alzheimer

O acúmulo de amiloide nem sempre ocorre antes do declínio cognitivo na doença de Alzheimer, sugere estudo.

Achados do estudo Alzheimer’s Disease Neuroimaging Initiative (ADNI) mostram que os déficits cognitivos nos exames neuropsicológicos surgiram antes do acúmulo de placa amiloide e que a redução de volume cortical pudesse ser observada na tomografia por emissão de pósitrons (PET, sigla do inglês, Positron Emission Tomography) ou na ressonância magnética (RM).

Participantes com dificuldades cognitivas sutis definidas objetivamente (DCS-Obj) na verdade tiveram quase três vezes mais chances de serem diagnosticados com transtorno cognitivo leve (TCL) posteriormente. Por exemplo, 46% da coorte de pacientes com DCS-Obj recebeu diagnóstico de TCL em 48 meses versus 17% do grupo de controle.

“Nossos resultados sugerem que dificuldades cognitivas sutis podem ser medidas de forma confiável e, em média, prever taxas mais rápidas de acúmulo de amiloide e afilamento do córtex entorrinal do que os pacientes com cognição normal”, disse ao Medscape a líder do estudo, Dra. Kelsey R. Thomas, Ph.D., pesquisadora em saúde da VA San Diego Healthcare System, nos Estados Unidos.

“Dessa forma, a avaliação neuropsicológica sensível, mesmo em uma bateria relativamente breve de testes, pode fornecer informações prognósticas significativas sobre o risco de progressão da doença de Alzheimer”, acrescentou.

O estudo foi publicado on-line em 30 de dezembro no periódico Neurology.

Buscando pequenos sinais

Embora algumas pesquisas anteriores tenham usado exames subjetivos para detectar declínio cognitivo, Dra. Kelsey e colaboradores optaram por medir os déficits de forma objetiva.

Essa abordagem permitiu que identificassem dificuldades sutis, mesmo quando alguém obtinha um resultado em geral dentro da normalidade. Por exemplo, pode ser que uma pessoa consiga lembrar um número de palavras durante um teste de aprendizado que usa uma lista dentro da média, mas pode ser que ela também acrescente palavras incorretas.

“Este é o primeiro estudo, até onde sabemos, a pesquisar a relação entre o DCS-Obj definido por meio de medidas neuropsicológicas sensíveis e a trajetória de alterações do PET amiloide”, observam os pesquisadores.

Eles estudaram dados de 747 idosos sem demência no início do estudo inscritos no ADNI. Nesta população, os pesquisadores compararam o PET, a RM e o desempenho neuropsicológico de 153 participantes com DCS-Obj, 289 com TCL e 305 participantes sem alterações cognitivas. Foram realizadas tomografias por emissão de pósitrons com florbetapir e ressonâncias magnéticas anatômicas na sequência T1 no início do estudo e no 12º, 24º, 36º e 48º meses.

Os pacientes no grupo DCS-Obj apresentaram níveis de amiloide ligeiramente mais altos no início do estudo do que a coorte sem alterações cognitivas, mas a diferença não foi estatisticamente significativa.

Prevendo alterações cerebrais rápidas

Em comparação com os participantes sem alterações cognitivas, aqueles com DCS-Obj demonstraram aumentos mais rápidos do valor de absorção padronizada de PET amiloide (t 1.109,08 = 2,58; P = 0,010; r = 0,077). No entanto, o grupo TCL não diferiu significativamente dos grupos DCS-Obj e sem alterações cognitivas na taxa de acúmulo de amiloide ao longo de 48 meses.

O afilamento do córtex entorrinal foi significativamente mais rápido no grupo DCS-Obj (t 540,45 = -2,95; P = 0,003; r = -0,126) e no grupo TCL (t 590,28 = -6,57; P < 0,001; r = -0,261) em comparação com o grupo sem alterações cognitivas por 48 meses.

Dra. Kelsey e colaboradores também acompanharam a perda de volume do hipocampo. Em comparação com o grupo sem alterações cognitivas, o grupo TCL apresentou uma taxa mais rápida de perda de volume do hipocampo em 48 meses (t 525,68 = -4,06; P < 0,001; r = 0,174). Por outro lado, a taxa de perda de volume do grupo DCS-Obj não diferiu estatisticamente do grupo sem alterações cognitivas (t 478,21 = -1,79; P = 0,074; r = -0,082) ou do grupo TCL (t 511,81 = 1,62; P = 0,105; r = 0,071).

Os pesquisadores observaram que “o achado de que o grupo DCS-Obj teve um afilamento cortical entorrinal mais rápido, mas apenas uma tendência de mudança no volume hipocampal em relação ao grupo sem alterações cognitivas, pode sugerir que o critério DCS-Obj identifica o processo neurodegenerativo muito cedo”.

Os critérios DCS-Obj estão em desenvolvimento para uso clínico, mas, por enquanto, continuam sendo uma ferramenta de pesquisa. Para se adaptar ao uso clínico seria necessário não mais de uma hora de exames neuropsicológicos abrangendo os domínios da memória, atenção/função executiva e linguagem, disse Dra. Kelsey. “Essa abordagem é indiscutivelmente mais acessível a muitos indivíduos do que testes de biomarcadores caros e invasivos.”

Os pesquisadores observaram algumas limitações do estudo. A população era altamente instruída, principalmente branca e muito saudável; portanto, a capacidade de generalização para amostras comunitárias mais diversas é desconhecida, por exemplo. Eles também observaram que o acompanhamento de 48 meses pode ser muito curto para detectar todas as alterações na estrutura do cérebro.

Dra. Kelsey e colaboradores gostariam de estudar o papel da patologia Tau em outros estudos. Um objetivo é determinar se a deposição de Tau influencia as alterações no córtex entorrinal e no hipocampo associadas às dificuldades cognitivas sutis observadas nos grupos DCS-Obj.

“Sabemos que há uma associação consistente entre Tau e o funcionamento cognitivo”, disse a Dra. Kelsey. Os resultados mostrando que o DCS-Obj previu o afilamento do córtex entorrinal, enquanto o TCL previu uma atrofia mais disseminada do lobo temporal medial são consistentes com o estadiamento de Braak para a disseminação da patologia da Tau, acrescentou ela.

“Portanto, planejamos investigar se a Tau já está presente no cérebro quando alguém é classificado pela primeira vez como tendo dificuldades cognitivas sutis”.

Desafiando o papel do amiloide

“Nesta edição do periódico Neurology, Dra. Kelsey e colaboradores testaram a hipótese específica de que, se a deposição de amiloide ocorre muito antes dos efeitos detectáveis posteriores na cognição, a presença de déficits cognitivos não deve preceder as taxas cumulativas de deposição de amiloide. Eles descobriram, porém, que isso ocorre”, escreveram Dra. Beth E. Snitz, Ph.D., neuropsicóloga da University of Pittsburgh School of Medicine e Dr. Adam M. Brickman, Ph.D., College of Physicians and Surgeons da Columbia University, ambas instituições nos EUA, em um editorial que acompanha o estudo.

“Em uma grande coorte de idosos sem demência, um subgrupo com dificuldades cognitivas sutis definidas de forma objetiva foi identificado nos testes neuropsicológicos no início do estudo e mostrou um depósito crescente de amiloide cerebral no PET ao longo de quatro anos, apesar de apresentar níveis de amiloide no início do estudo semelhantes aos caracterizados como cognitivamente normal”.

Os resultados deste estudo desafiam os modelos predominantes, tanto do papel iniciador do amiloide como da exigência de evidências de biomarcadores de amiloide para definir o continuum de Alzheimer, acrescentaram Dra. Beth e Dr. Adam.

“Outro ponto importante no artigo da Dra. Kelsey e colaboradores”, disseram os editorialistas, “é a demonstração de que déficits cognitivos sutis objetivos podem ser medidos de forma confiável e prever importantes mudanças biológicas associadas à doença de Alzheimer.”

Dra. Kelsey, Dra. Beth e Dr. Adam não declararam relações financeiras relevantes. Doações do NIH, Alzheimer’s Association e US Department of Veterans Affairs Clinical Sciences Research and Development Service financiaram o estudo. Alzheimer’s Disease Neuroimaging Initiative e uma premiação do Department of Defense forneceram apoio adicional.

 

Fonte: Medscape

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