Transtorno de insônia em pacientes com doença de Parkinson

Entre pacientes com doença de Parkinson, o transtorno de insônia foi associada a hábitos inadequados de sono, latência aumentada do sono REM, ausência de apneia obstrutiva do sono e qualidade do sono prejudicada, segundo um estudo publicado em janeiro no periódico Journal of Geriatric Psychiatry and Neurology. [1]

O trabalho analisou pacientes atendidos em um ambulatório terciário do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (HC/FMRP/USP).

Para o Dr. Manoel Alves Sobreira-Neto, neurologista, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e um dos autores da pesquisa, os resultados reforçam a importância de não subestimar o problema, que pode atingir até metade dos pacientes com doença de Parkinson. [2]

O Dr. Manoel falou ao Medscape sobre o estudo.

O médico explicou que a insônia pode surgir como parte do processo fisiopatológico da doença de Parkinson, mas também pode estar relacionada com outros fatores, por exemplo, medicamentos ou comorbidades comuns nesta população. Para determinar quais fatores são mais relevantes, o Dr. Manoel e colaboradores desenvolveram um estudo transversal que contou com 63 pacientes.

Por meio de avaliação clínica especializada, os autores identificaram critérios diagnósticos de insônia crônica em 29 pacientes. Todos os participantes passaram também por avaliação polissonográfica e foram testados com escalas padronizadas (Epworth Sleepiness Scale, Parkinson’s Disease Questionnaire, Pittsburgh Sleep Quality Index e, para indivíduos com diagnóstico de síndrome das pernas inquietas, Willis-Ekbom Disease, o International RLS/WED grading scale).

Ao comparar os pacientes com doença de Parkinson com e sem insônia crônica, os autores identificaram que aqueles que tinham o transtorno apresentaram aumento da latência do sono REM. Isto significa, segundo o Dr. Manoel, que esses pacientes acabam demorando um pouco mais para entrar nesse estágio do sono.

Outro fator associado ao transtorno de insônia na pesquisa foi a ausência de apneia obstrutiva do sono. “A apneia fragmenta o sono, o que piora a qualidade do sono e acaba contribuindo para uma pressão de sono maior. Na prática, isso pode significar que o indivíduo sente uma necessidade grande de dormir e, quando se deita, acaba dormindo com mais facilidade. Essa condição parece estar associada a uma menor frequência de insônia crônica”, explicou o pesquisador.

Como esperado, o grupo também observou uma pontuação mais elevada no Índice de qualidade de sono de Pittsburgh entre os participantes diagnosticados com transtorno de insônia, indicando que, de fato, esse grupo apresentou qualidade de sono pior do que os pacientes sem insônia crônica.

Outro achado do estudo diz respeito aos hábitos de sono inadequados. A equipe identificou que o transtorno de insônia foi associado à permanência prolongada na cama mesmo na ausência de sono.

“Na avaliação de medicina do sono, o modelo de Spielman determina que para que haja insônia crônica são necessários fatores predisponentes (herdados); fatores precipitantes (que provocam a insônia); e fatores que perpetuam o quadro. O hábito de permanecer na cama mesmo sem estar com sono faz com que o cérebro associe de maneira errônea a cama a outras atividades além do sono e da atividade sexual. Quando o indivíduo deita na cama e realiza outras atividades, por exemplo, se alimenta, assiste televisão ou mexe no celular, o cérebro acaba fazendo uma associação equivocada entre a cama e essas outras atividades, e não com o sono. É possível que pacientes com doença de Parkinson se deitem durante o dia devido à fadiga ocasionada pela doença, pela ociosidade e por outras questões comportamentais. Com isso, acabam passando boa parte do dia deitados sem estar dormindo e quando vão se deitar para dormir provavelmente o cérebro não associa a cama ao sono, o que resulta em dificuldade para iniciar o sono”, explicou o médico.

Para o professor, esse resultado abre uma possibilidade terapêutica: a terapia cognitivo-comportamental (TCC), que “promove mudança de crenças disfuncionais e hábitos inadequados associados ao sono, entre eles, o hábito de permanecer na cama sem estar dormindo”, disse, acrescentando que “essa é uma hipótese que deve ser investigada futuramente”.

Apesar de o estudo ter evidenciado algumas associações que os autores já imaginavam encontrar, houve outras correlações que, ao contrário do esperado, não se concretizaram.

“Esperávamos, por exemplo, que a depressão fosse um dos fatores associados à insônia crônica nos pacientes com doença de Parkinson, visto que isso vem sendo mostrado em outros trabalhos, mas não ocorreu essa correlação no nosso estudo. De forma semelhante, também não identificamos associação entre insônia e presença de outros sintomas relacionados com a doença de Parkinson, por exemplo, noctúria, dor no período noturno e sudorese excessiva. Além disso, alguns hábitos que classicamente são associados a problemas de sono também não foram evidenciados na pesquisa, entre eles, o consumo de bebida cafeinada à noite”, afirmou o médico. Ele destacou que a ausência dessas associações provavelmente tem relação com algumas limitações do estudo, por exemplo, o tamanho amostral relativamente pequeno, o fato de a amostra ser muito específica e com alta gravidade clínica e por se tratar de pacientes atendidos em um ambulatório especializado de um hospital de alta complexidade. Além disso, o professor da UFC lembrou que o desenho da pesquisa foi transversal, o que, por si só, já traz algumas limitações.

“Metaforicamente, significa que fizemos uma foto do tempo, mas essa foto não necessariamente representa o filme como um todo. Talvez trabalhos longitudinais consigam responder melhor essas outras questões. É possível, portanto, que essas outras associações de fato existam, mas que não tenhamos conseguido detectá-las por conta dessas limitações do estudo”, ponderou.

Para o Dr. Manoel, a mensagem que o estudo deixa para a comunidade médica é que a insônia é um problema comum em pacientes com doença de Parkinson, e que precisa ser adequadamente avaliada.

“Embora não tenhamos dados objetivos, minha percepção é que infelizmente ainda é um problema pouco avaliado, pois são poucos os trabalhos que avaliam especificamente a insônia crônica nos pacientes com doença de Parkinson. Como esse grupo apresenta vários problemas, entre eles, comprometimento motor e cognitivo, prejuízos na deglutição, dor, entre outros, o sono muitas vezes fica em segundo plano, ou seja, essa avaliação acaba sendo deixada para um segundo momento da consulta quando, tanto o médico como o paciente já estão cansados. Além disso, dentro do quesito sono, existem outras questões que acabam se sobrepondo, por exemplo, pacientes com doença de Parkinson muitas vezes têm transtorno comportamental do sono REM, uma parassonia em que os indivíduos falam, gritam e podem fazer movimentos violentos durante o sono”, explicou.

A insônia crônica, no entanto, afeta uma parcela importante dos pacientes com doença de Parkinson e impacta negativamente a qualidade de vida, segundo trabalho anterior do mesmo grupo, publicado no periódico European Neurology em 2017. [2]

Outro dado que reforça a importância do sono para essa população vem de outra pesquisa desenvolvida pelo grupo do HC-FMRP-USP e publicada em maio de 2019 no periódico Psychiatry Clin Neurosci[3] O trabalho conduzido pela psicóloga Emmanuelle Silva Tavares Sobreira, e que teve colaboração do Dr. Manoel, revelou que, entre pacientes com doença de Parkinson, aqueles que dormiram por menos tempo apresentaram pior desempenho cognitivo.

 

Fonte: Medscape

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