Baralho e jogos de tabuleiro: Ponto para o cérebro!

Jogar jogos de tabuleiro pode proteger contra o declínio cognitivo e até mesmo melhorar a função cognitiva dos idosos, sugere nova pesquisa.

Os resultados de um grande estudo longitudinal mostraram que jogar jogos de tabuleiro com frequência parece conferir proteção contra o declínio cognitivo.

Mesmo entre as pessoas na sétima década de vida, os jogadores mais assíduos tiveram declínio de memória e de outros parâmetros cognitivos menor em comparação com os seus pares que não jogavam esse tipo de jogo ou jogavam com pouca frequência.

“Jogar pode ter um discreto efeito no declínio da capacidade cognitiva, mas esse estudo não foi intervencionista, portanto, não temos evidências inequívocas de causalidade”, disse ao Medscape o primeiro autor, Dr. Drew M. Altschul, Ph.D., pesquisador em epidemiologia cognitiva da University of Edinburg, no Reino Unido.

“O hábito de jogar pode considerado um aspecto de um estilo de vida saudável, que consiste em outras modificações comportamentais que uma pessoa pode fazer, como, por exemplo, se exercitar mais, não fumar, não beber em excesso e comer alimentos mais saudáveis, todas as quais podem ser benéficas para o envelhecimento cognitivo saudável”, disse o autor.

O estudo foi publicado on-line em 18 de novembro no periódico Journals of Gerontology: Psychological Sciences.

Conjunto de dados excepcional

“O sistema de treinamento cerebral informatizado é um tema controverso na atualidade, bem como os efeitos dos jogos de tabuleiro nas funções cognitivas – embora os jogos de tabuleiro sejam muito menos estudados”, disse Dr. Drew.

Estudos anteriores com jogos de tabuleiro foram limitados por não terem examinado as alterações cognitivas ao longo do tempo ou controlado os fatores de confusão.

Os pesquisadores utilizaram dados da Lothian Birth Cohort of 1936 (LBC1936) – uma amostra populacional de 1.091 pessoas inicialmente saudáveis, nascidas em 1936.

Aos 11 anos de idade os participantes fizeram um teste de inteligência em grupo (Teste de Moray House 12) que contém classificação das palavras, provérbios, elementos espaciais e aritmética.

Os participantes fizeram os testes cognitivos e de saúde em quatro levas:

O LBC1936 “é excepcional por termos avaliações de diversas variáveis cedo na vida, bem como muitos testes cognitivos na oitava década, e ainda a variável dos participantes terem informado quantas vezes costumam jogar os jogos de tabuleiro”, disse Dr. Drew.

Os participantes precisavam não ter demência nem comprometimento cognitivo; 11 participantes foram excluídos da análise aos 70 anos de idade e outros 37 foram excluídos por demência ou disfunção cognitiva entre 70 e 79 anos de idade.

Aos 70 anos, os participantes foram indagados com que frequência costumavam jogar (p. ex., baralho, xadrez, bingo ou fazer palavras cruzadas). Na terceira leva de testes (76 anos), os pesquisadores também avaliaram se os participantes informaram aumento na frequência do jogo entre 70 e 76 anos e, caso o tivessem feito, qual era o grau da mudança.

Potenciais fatores de confusão foram: variáveis sociodemográficas (sexo, escolaridade e classe social); outras atividades que os participantes pudessem ter; e fatores de risco clínico de declínio cognitivo (história de hipertensão arterial sistêmicaacidente vascular cerebral, diabetes ou doença cardiovascular).

“Resultados cruciais”

Aos 70 anos de idade, 33% dos participantes referiram jogar diariamente ou quase todo dia, e 20% jogavam menos de uma vez por ano ou nunca. Os demais participantes ficaram entre esses extremos.

O maior número de participantes jogava diariamente; o segundo maior número de participantes jogava menos de uma vez por ano ou nunca – distribuição que os pesquisadores descreveram como sendo em forma de U.

Alguns participantes mudaram seus hábitos de jogo entre 70 e 76 anos, com 160 jogando mais do que o faziam antes dos 70 anos de idade.

Uma análise de regressão mostrou que a prática teve uma associação positiva com a função cognitiva aos 70 anos (coeficiente padronizado beta, ou Standardized Beta Coefficient, std β = 0,094; t = 4,07; P < 0,001). Função cognitiva mais elevada aos 11 anos, sexo feminino, classe social mais alta e maior escolaridade também foram associados com melhor função cognitiva aos 70 anos de idade.

Além disso, quem jogou mais durante esse período, apresentou alterações positivas da função cognitiva, com mudanças “visíveis” entre as pessoas que jogavam mais versus as que jogavam menos (β = 0,095; t = 4,07; P < 0,001) – descoberta que os pesquisadores chamaram de “resultado crucial”.

Apresentar função cognitiva mais baixa aos 11 anos, ser do sexo feminino, pertencer a uma classe social mais alta e ter mais anos de escolaridade foram associados a alterações cognitivas positivas, calculadas como equivalentes a um ganho de aproximadamente 1,42 pontos de quociente de inteligência (QI) por desvio padrão (DP) do aumento da frequência de partidas.

Através de um modelo de relação de expectativa de vida útil entre as variáveis, os pesquisadores descobriram que a função cognitiva aos 11 anos de idade “tem uma associação positiva ulterior com a escolaridade, a classe social e a função cognitiva aos 70 anos, bem como com o hábito de jogar”.

Mesmo após o controle pelas associações, diretas e indiretas, à funcionalidade aos 11 anos, à educação e à classe social, ainda assim, jogar esse tipo de jogo com mais frequência foi associado à melhor função cognitiva aos 70 anos (std β = 0,083; z = 3,24; P = 0,001).

“Neste modelo, houve ganho semelhante a 1,25 ponto de QI dos 11 aos 70 anos de idade por aumento do desvio padrão na frequência dos jogos”, comentaram os autores.

Embora tenha havido um declínio cognitivo médio ao longo toda a oitava década entre todos os participantes, este declínio foi “mais grave” entre os que jogavam menos.

No entanto, outro resultado fundamental verificado por meio de modelos de curva de crescimento latente mostrou que jogar mais jogos foi associado a menor declínio da função cognitiva geral entre 70 e 79 anos de idade (β = 0,068; z = 2,523; P = 0,012).

Em particular, a redução de declínio foi significativa para os subdomínios da memória e da velocidade de processamento (β = 0,204; z = 3,114; P = 0,002; e β = 0,110; z = 2,689; P = 0,007, respectivamente), mas não alcançou significância estatística em outros domínios.

Em termos de QI, um desvio padrão de maior frequência de jogo foi associado a – 1,02 ponto de redução da capacidade cognitiva geral e a – 3,06 pontos de redução da capacidade de memória entre 70 e 79 anos de idade.

“Para o público em geral, os jogos de tabuleiro podem ajudar contra o envelhecimento cognitivo, e certamente não faz mal nenhum”, disse Dr. Drew.

Divertido, barato e benéfico

Convidada a comentar o estudo para o Medscape, a Dra. Ria Vaportzis, Ph.D., professora de psicologia na School of Social Sciences, University of Bradford, no Reino Unido, ressaltou que a amostra do estudo é singular.

“Não há muitos dados disponíveis que nos permitam avaliar a função cognitiva das pessoas durante um período tão prolongado – basicamente, o estudo observa toda a vida, o que não é algo que possa ser facilmente replicado”.

Contudo, é “difícil fazer qualquer sugestão prática baseada nos resultados, já que os dados são retrospectivos”, acrescentou Dra. Ria, que não participou do estudo.

No entanto, “os jogos de tabuleiro estão amplamente disponíveis, podem ser uma atividade divertida e barata, que mantem as pessoas ocupadas tanto mental como socialmente. A questão é que não fazem mal, e há algumas evidências de que possam fazer bem”.

Dr. Drew concordou.

“Os jogos são uma maneira barata de se divertir, passar o tempo com pessoas que você gosta e, talvez, fazer algo positivo pela saúde do seu cérebro”, disse o pesquisador.

O estudo recebeu apoio da University of Edinburgh Center for Cognitive Ageing and Cognitive Epidemiology, que é financiado pelo Biotechnology and Biological Sciences Research Council e pelo Medical Research Council. O Dr. Drew Altschul recebe subsídios do prêmio do MRC Mental Health Data Pathfinder. Os dados do LBC1936 foram obtidos por meio de uma doação do Research Into Ageing Program; esta pesquisa continua como parte do projeto Age UK-funded Disconnected Mind. Dr. Drew Altschul, o coautor do seu estudo e Dra. Ria Vaportzis informaram não ter relações financeiras relevantes.

 

Fonte: Medscape

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