Estudo sugere que estatinas não estão associadas a declínio cognitivo

Um novo estudo longitudinal mostrou que a terapia com estatinas pode não ter associação com o declínio da cognição e, na verdade, pode conferir alguma proteção a indivíduos com doenças cardíacas ou diabetes que tenham risco de demência.

Pesquisadores australianos acompanharam mais de 1.000 idosos durante seis anos, avaliando a memória e a cognição global em intervalos de dois anos. Eles utilizaram ressonância magnética (RM) para avaliar o volume total do cérebro, bem como os volumes do hipocampo e do para-hipocampo.

Eles não encontraram diferença na taxa de declínio na memória ou cognição global entre usuários de estatina e não usuários, nem encontraram diferenças nas mudanças do volume cerebral.

Quando o tratamento com estatina foi iniciado durante o período de estudo, o medicamento foi associado a uma redução na taxa de declínio da memória.

“Descobrimos que o declínio lento na memória observado com o envelhecimento foi o mesmo em pessoas que tomaram estatinas, em comparação com aquelas que não tomaram”, disse ao Medscape a autora principal, Dra. Katherine Samaras, médica, chefe da Clinical Obesity , Nutrition and Adipose Biology Laboratory do Garvan Institute, na Austrália.

“Nas pessoas com fatores de risco de demência, como doenças cardíacas, o declínio da memória foi mais lento durante os seis anos do estudo”, disse a Dra. Katherine, que também é endocrinologista do St. Vincent’s Hospital, Austrália.

O estudo foi publicado on-line em 18 de novembro no periódico Journal of the American College of Cardiology.

Relatos de Caso

“Os pacientes e os médicos estão preocupados há alguns anos com o fato de as estatinas causarem perda de memória, e estamos todos preocupados com relatos de caso de pessoas com perda de memória ou alterações cognitivas”, disse a Dra. Katherine.

Esses relatos levaram a Food and Drug Administration (FDA) norte-americana a exigir uma advertência “black box nos medicamentos com estatina, disse ela.

“Existem bons dados de estudos randomizados que não mostraram efeitos prejudiciais das estatinas em medidas limitadas de cognição; no entanto, este é o primeiro estudo a avaliar de forma abrangente a cognição em quatro domínios cognitivos, e por até seis anos”, acrescentou.

Os participantes fizeram parte do Sydney Memory and Aging Study (MAS), um estudo observacional longitudinal de cognição em australianos vivendo na comunidade, entre 70 e 90 anos sem demência (N = 1.037; 98% brancos; média de idade = 79 ± 4,8 anos).

Durante o período do estudo, a cada dois anos os participantes preencheram uma série de questionários padronizados sobre patologias e fatores sociodemográficos, e foram submetidos a um exame que forneceu informações sobre peso, altura, pressão arterial e outros diagnósticos, como diabetes tipo 2.

Os participantes foram divididos em quatro categorias:

Do número total de participantes, havia 397 virgens de estatina e 642 usuários de estatinas, incluindo 99 indivíduos que iniciaram o tratamento durante o período do estudo.

As medidas de desfecho primário foram cognição (medida usando uma avaliação abrangente da condição global que avaliou a velocidade de processamento, linguagem, habilidades visuoespaciais e função executiva) e memória.

O genótipo da apolipoproteína E (ApoE) foi avaliado juntamente com exames laboratoriais, como os níveis de lipídios e de glicemia.

Os participantes foram submetidos a ressonância magnética estrutural do cérebro e volumetria no início do estudo e após dois anos. Essas avaliações concentraram-se no volume total do cérebro e nos volumes do hipocampo e do para-hipocampo. Dados completos estavam disponíveis para 573 participantes.

As covariáveis usadas nas análises de modelagem linear mista foram: idade, sexo, escolaridade, patologias como doenças cardíacas e hipertensão arterial sistêmica, tabagismo e status de ApoE-epsilon 4 (ApoEε4).

Interação protetora?

No início do estudo, a duração média do uso de estatinas foi de 9,1 anos; 68% dos participantes eram usuários contínuos.

Os usuários de estatina diferiram dos virgens de estatina, pois eram um pouco mais jovens e tendiam a ter maior índice de massa corporal. Além disso, nesses pacientes, doenças cardíacas, diabetes, acidente vascular cerebral e hipertensão arterial sistêmica foram mais prevalentes.

As análises do modelo linear misto, ajustadas para covariáveis, mostraram que, no início do estudo, os usuários de estatina eram semelhantes aos virgens de estatina em relação a memória, condição global e também nos resultados de testes específicos de memória.

Não foram detectadas diferenças significativas nessas medidas entre usuários e virgens de estatina durante os seis anos de observação.

Curiosamente, para aqueles que tomaram estatinas de forma contínua durante os seis anos, o desempenho nos testes de memória e cognição global no início do estudo foi melhor em termos de significância estatística, embora a taxa de declínio nesses parâmetros tenha sido semelhante à dos virgens de estatina.

Esses achados foram consistentes quando cada estatina foi analisada separadamente.

Os 99 participantes que iniciaram o tratamento com estatinas durante o período de estudo exibiram “atenuação” da taxa de declínio da memória nas medidas subsequentes, conforme determinado com base no nível de significância do teste (B = 0,066; P = 0,038).

Em especial, naqueles que iniciaram o tratamento com estatina, a taxa de declínio no domínio do recall tardio (RAVLT-7) foi atenuada (B = 0,092; P = 0,002).

Esses achados permaneceram inalterados, independentemente da presença ou ausência de fatores de risco de demência.

Foi observada uma “interação protetora” entre o uso contínuo de estatinas, doenças cardíacas e um declínio mais lento em seis anos no escore RAVLT-7, embora, entre os participantes que não tinham doenças cardíacas, os declínios nos escores totais do RAVLT-7 tenham sido comparáveis entre usuários e virgens de estatina.

Uma interação protetora semelhante foi encontrada entre os portadores de ApoEε4, o uso de estatinas, e a taxa de declínio no escore RAVLT-7, já entre os não portadores, a taxa foi semelhante para usuários e virgens de estatina.

Não foram observadas diferenças no volume total do cérebro, no volume do hipocampo e no para-hipocampo no início do estudo ou aos dois anos, quando ajustados para as diversas covariáveis.

Além disso, análises de três vias que incluíram fatores de risco de demência e diabetes mostraram que o diabetes moderava a relação entre o uso de estatinas e a alteração no volume do para-hipocampo ao longo dos dois anos (P = 0,016). O volume foi comparável entre aqueles com demência que não tinham diabetes, mas a taxa de declínio foi mais lenta entre aqueles com diabetes + fatores de risco de demência, em comparação com os virgens de estatina (B = -584; P = 0,039), escreveram os autores.

“Pessoas com diabetes têm um risco três a cinco vezes maior de demência, mas as pessoas com diabetes que tomam estatina tiveram declínio menor do volume e em algumas dessas regiões cerebrais específicas, em comparação com pessoas com diabetes que virgens de estatina”, comentou a Dra. Katherine.

Mensagem de esperança?

Comentando sobre o estudo para o Medscape, o Dr. Constantino Iadecola, professor da cátedra Anne Parrish Titzell de neurologia, diretor e presidente do Feil Family Brain and Mind Research InstituteWeill Cornell Medicine, nos EUA, disse que existem “algumas indicações de que as estatinas podem levar ao aumento do comprometimento cognitivo, e este artigo sugere que em um estudo bem controlado, este pode não ser o caso”.

De fato, os dados “mostram que, embora não seja comprovado, as estatinas podem ser benéficas para prevenir o comprometimento cognitivo, o que dá força a outra linha de pesquisa que mostrou que o uso de estatinas pode prevenir ou atrasar a doença de Alzheimer“, disse o Dr. Constantino, coautor de um editorial que acompanha o estudo.

O estudo pode, portanto, ser “uma mensagem de esperança para a comunidade ligada à doença de Alzheimer, porque atualmente existem evidências na ciência básica de que as estatinas podem ajudar o cérebro a se livrar do amiloide”, afirmou.

“Os pacientes que tomam esses medicamentos e os médicos que os prescrevem precisam ser capazes de discutir sobre os efeitos colaterais negativos”, acrescentou a Dra. Katherine.

“Este estudo ajuda a expandir nossa base de evidências, e dá segurança aos pacientes que podem se beneficiar da terapia com estatinas, mas estão preocupados com os relatos na mídia.”

O estudo recebeu apoio do Australian Government’s National Health and Medical Research CouncilDra. Katherine e o Dr. Constantino informaram não ter conflitos de interesses relevantes. As informações dos outros autores constam no artigo original.

 

FONTE: Medscape

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