Reflexões sobre o Coringa

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O filme Coringa está sendo um grande sucesso de público e vem recebendo críticas positivas, mas também tem gerado muitas discussões no que concerne à psiquiatria. Para alguns, a questão mais importante é o diagnóstico de Arthur Fleck, o Coringa, sendo que uma doença que passa pelo imaginário das pessoas é a esquizofrenia, um dos principais motivos para isso é a presença de sintomas psicóticos (como pensamentos delirantes, alucinações auditivas, visuais ou táteis) e o fato de o personagem ter crises de riso sem motivo aparente.

Não só no filme, mas também na vida real, o diagnóstico sintomatológico na psiquiatria é um problema de longa data, problema este que aumentou desde a publicação do primeiro Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM, sigla do inglês, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders). Um exemplo é o fato de, nos anos 70, existir uma grande diferença de prevalência de esquizofrenia entre os Estados Unidos e a Inglaterra. Nos EUA, a esquizofrenia era vista com uma sintomatologia muito mais ampla que na Inglaterra. Desta questão surgiu um dos grandes artigos seminais da especialidade, explicando o porquê desta diferença. [1]

Na mesma época, Robins e Guze também publicaram um artigo de extrema importância sobre esquizofrenia. No entendimento deles, uma doença psiquiátrica só teria validade científica através da verificação dos seguintes critérios: sintomas, curso da doença, resposta ao tratamento, história familiar/genética e marcadores biológicos. [2] Sendo assim, Arthur pode ter vários diagnósticos, desde esquizofrenia até síndrome pseudobulbar. Para tentar chegar a um diagnóstico para este personagem seria necessário analisar, além dos sintomas descritos, os outros validadores acima citados.

Analisar a história familiar do Coringa é difícil, tendo em vista que não fica realmente claro quem são os pais do personagem. Uma das hipóteses é que ele seja filho de Penny Fleck, uma mulher com diagnóstico de psicose e transtorno de personalidade narcisista, e história de internação psiquiátrica. O que devemos entender é que psicose é um diagnóstico totalmente inespecífico, na verdade, é apenas um conjunto de sintomas. O transtorno de personalidade narcisista, mesmo segundo especialistas em transtornos de personalidade, não seria um diagnóstico cientificamente válido, ou seja, não se diferencia dos outros transtornos de personalidade. [3] Porém, o filme apresenta a possibilidade de o personagem ter sido adotado por Penny, e ter sofrido graves abusos na infância. Neste caso, não há como determinar a história familiar de maneira conclusiva.

Com relação ao curso da doença, Arthur parece ter episódios recorrentes, principalmente quando deixa de tomar seus medicamentos. No filme, é revelado que o personagem já passou por internação psiquiátrica, e recebe acompanhamento psicoterápico, mas as informações são insuficientes para entender o curso da doença.

Entretanto, não acredito que o diagnóstico seja a questão psiquiátrica central deste filme, mas sim a relação da sociedade com a doença mental. Esta relação se apresenta de diversas maneiras, como violência, estigma e pobreza. Ainda hoje existe uma percepção geral de que doença mental e violência estão relacionadas. Esta percepção é muitas vezes reforçada pelo sensacionalismo da mídia audiovisual, que produz filmes e séries sobre crimes cometidos por pessoas com doenças mentais quando, na verdade, a população de criminosos que sofre de alguma doença mental é pequena. Um estudo concluiu que para prevenir um homicídio é necessário que se prenda 35.000 esquizofrênicos com risco de cometer algum ato de violência. Este dado contradiz claramente o senso comum de que pacientes com doença mental grave seriam uma ameaça. [4]

Outro estudo mostrou que a maior prevalência de violência está entre os pacientes em episódios agudos. [5] Aqui, é importante lembrar que Arthur se torna o Coringa quando o Estado para de prover seus medicamentos, então começa um episódio de raiva, labilidade de humor, sintomas psicóticos e violência.

A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não a tivesse.

“A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não a tivesse.” Esta é uma frase importante do filme, dita pelo Coringa. Essa frase mostra a percepção do personagem sobre a sociedade e sobre o fato de ter uma doença mental. Arthur entende que, para viver naquela sociedade, ele não pode revelar a própria doença, pois sua vulnerabilidade traz consequências, como ser vítima de violência. É importante ressaltar que não é apenas em Gotham City que as pessoas não conseguem se relacionar com o diferente. Até hoje o estigma da doença mental está enraizado na nossa sociedade. O estigma da doença mental está relacionado com o ato de rotular e associar as pessoas diferentes a estereótipos negativos. Além disto, faz parte do conceito a perda do status na sociedade. [6]

A pobreza e a desigualdade social são elementos muito importantes na história de Arthur e na evolução da doença mental dele. Arthur é atendido por uma assistente social, e também depende que seus medicamentos sejam dispensados pelo serviço público.

Outro momento importante do filme é quando Arthur fala para sua terapeuta:”Você faz as mesmas perguntas todos os dias: ‘Como vai seu trabalho?‘ ‘Está tendo pensamentos negativos?‘ Só o que eu tenho são pensamentos negativos.”

É evidente que Arthur não está bem, e a terapeuta não tem meios para lhe ajudar. Para piorar, ela anuncia que as consultas serão cortadas e, consequentemente, o fornecimento dos medicamentos. Coringa nasce!

Todos estes componentes são muito relevantes para a vida de uma pessoa com doença mental, seja qual for. O coringa existiria se Arthur estivesse no lugar de Bruce Wayne? A resposta é: provavelmente não. Coringa é um filme complexo e importante para sociedade, inclusive para os médicos repensarem a própria atitude em relação ao diferente e em relação à doença mental. Será que Arthur queria matar ou Arthur estava pedindo socorro?

 

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