Antidepressivos são seguros e assunto encerrado?

Não há nenhuma evidência convincente corroborando as alegações de que os antidepressivos estejam associados a efeitos nocivos para a saúde, sugere nova pesquisa, com base em resultados de uma revisão sistemática de 45 metanálises contendo evidências de mais de 1.000 estudos observacionais.

“A principal mensagem do nosso estudo é que os antidepressivos em geral parecem ser seguros em termos clínicos, e não existe contraindicação absoluta para a prescrição destes medicamentos quando há indicação clínica”, disse ao Medscape a pesquisadora do estudo Dra. Elena Dragioti, Ph.D., professora e conferencista sênior adjunta no Departamento de Medicina e Ciências da Saúde da Linköpings universitet, na Suécia.

“Nossa análise mostra que não há evidências convincentes de associação dos antidepressivos a desfechos adversos mais graves e, nos casos em que parece haver alguns indícios – como no autismo e no comportamento suicida –, provavelmente a doença subjacente é o fator que interfere”, acrescentou a pesquisadora.

O estudo foi publicado on-line em 02 de outubro no periódico JAMA Psychiatry.

Debate acirrado

Os antidepressivos são a terceira classe de medicamentos mais prescrita nos EUA, com uma estimativa de que 10% dos adultos norte-americanos tomam pelo menos um antidepressivo.

No entanto, a segurança dos antidepressivos tem sido calorosamente debatida. Metanálises trazem evidências contraditórias sobre a segurança desses medicamentos, e a credibilidade dos achados não foi amplamente aferida, observaram os autores.

Com este objetivo, os pesquisadores avaliaram sistematicamente as evidências de 45 metanálises com mais de 1.000 estudos observacionais contemplando diferentes faixas etárias, doenças psiquiátricas concomitantes e possíveis efeitos nocivos para a saúde.

Dois revisores independentes registraram os dados e avaliaram a qualidade metodológica da metanálise. As evidências de associação foram classificadas de acordo com critérios estabelecidos como convincentes, muito sugestivos, sugestivos, fracos ou insignificantes.

Os pesquisadores encontraram evidências convincentes para a relação entre os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) e a tentativa de suicídio ou sua efetivação entre crianças e adolescentes, e para o uso dessa classe de antidepressivos durante a gestação e o aumento do risco de autismo entre bebês.

“No entanto, nenhuma dessas associações permaneceu no nível de evidência convincente depois de uma análise de sensibilidade com ajuste por confusão de indicação”, afirmaram os autores.

Os resultados mostraram evidências sugestivas de outras 21 associações entre o uso de antidepressivos e efeitos nocivos para a saúde, evidências fracas em 39 associações e ausência de evidências em 46 associações.

Onze associações muito sugestivas tinham grandes evidências da associação entre o uso de antidepressivo e o aumento do risco de efeitos nocivos para a saúde, como o transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade (TDAH) em crianças, catarata, hemorragia grave em qualquer local, sangramento do trato gastrointestinal superior, hemorragia pós-partonascimento prematuro, Apgar mais baixo aos cinco minutos, fraturas osteoporóticas e risco de fratura de quadril.

A Dra. Elena ressaltou que “apesar de não ter sido comprovada associação clara, isso é algo que deve ser levado em consideração, e cada caso deve ser individualizado. É importante observar que não temos evidências de ensaios clínicos randomizados sobre eventos adversos tardios e que não pudemos avaliar vários novos antidepressivos devido à limitação dos dados disponíveis”.

Interpretar com cautela

No entanto, os autores do editorial que acompanha o estudo insistem na necessidade de cautela ao interpretar os resultados.

“Embora os métodos desta revisão sejam sólidos, a apresentação dos dados seja precisa e a discussão dessas metanálises seja ponderada, uma importante limitação das metanálises e revisões abrangentes é o risco de reducionismo”, escreveram Dr. Michael Bloch, Dr. Victor Avila-Quintero e Dr. José Flores, Ph.D., todos médicos da Yale University School of Medicine, nos Estados Unidos.

Não importa o quão bem conduzidas sejam, as metanálises, as revisões sistemáticas e as revisões abrangentes não conseguem controlar o viés sistemático ou a confusão presente nos estudos avaliados, disseram os médicos.

Os editorialistas dizem que determinar os riscos de exposição a medicamentos durante a gestação é “importante e de grande importância” para as famílias, os médicos e as crianças.

“Tanto o custo da doença psiquiátrica não tratada durante a gestação como os possíveis riscos desconhecidos dos medicamentos durante a gestação podem ser profundos.”

“No entanto, os métodos experimentais prevalecentes projetados para avaliar os riscos da exposição aos medicamentos psiquiátricos durante a gestação têm grande probabilidade de associações tendenciosas e de fatores de confusão.”

“As revisões sistemáticas, as metanálises e as revisões abrangentes que as resumem, a seguir irão gerar estimativas de associações mais precisas, que estão sujeitas a equívocos e vieses, levando a falsa acurácia e certeza”, concluíram os editorialistas.

O estudo foi financiado pelo NIHR Biomedical Research Centre at South London e pelo Maudsley NHS Foundation Trust and King’s College LondonOs conflitos de interesses dos autores e editorialistas estão listados no artigo original.

 

Fonte: Medscape

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