Não adianta aumentar a dose de metilfenidato em crianças com TDAH, mostra metanálise

Copenhague, Dinamarca — Aumentar a dose de metilfenidato para tratar o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), além de um certo ponto, não eleva os benefícios para a criança, sugerem novas pesquisas.

Os pesquisadores fizeram uma metanálise de 18 estudos que envolveram mais de 600 crianças com TDAH. Resultados agrupados mostraram que, comparadas ao placebo, doses baixas e altas de metilfenidato tiveram um impacto quase idêntico nas tarefas neurocognitivas relacionadas com o controle inibitório.

No entanto, o efeito mais forte nos resultados do teste foi relacionado com a dose média.

A principal mensagem do estudo é que “se você for aumentando a dose gradativamente e isso não surtir efeito, lembre que nem sempre uma dose mais alta produz o melhor efeito”, disse ao Medscape a Dra. Karen Vertessen, doutoranda na Vrije Universiteit Amsterdam, na Holanda.

A Dra. Karen apresentou os achados no 32º congresso do European College of Neuropsychopharmacology (ECNP).

Transtorno comum

O TDAH é o transtorno psiquiátrico de início durante a infância mais comum, observaram os pesquisadores. Caracteriza-se por comprometimento neurocognitivo, sendo o comprometimento do controle inibitório um dos principais mecanismos de base.

O metilfenidato é o tratamento psicofarmacológico mais prescrito para o TDAH. A Dra. Karen relatou que, embora existam outras opções disponíveis nos Estados Unidos, esse é o medicamento de primeira linha na Holanda – onde é usado por 5% das crianças.

As evidências sugerem que a dose do metilfenidato tem um efeito linear nos sinais e sintomas comportamentais, e que o escalonamento da dose leva em consideração os sinais e sintomas comportamentais e os eventos adversos.

No entanto, a alteração do controle inibitório é uma função neurocognitiva central no TDAH e é preditivo de desempenho escolar abaixo da média.

Embora o metilfenidato seja lento para provocar um efeito claramente positivo no funcionamento neurocognitivo, o impacto da dose não está claro e não é levado em consideração no escalonamento da dose.

Os pesquisadores fizeram uma metanálise de estudos que examinaram o efeito do metilfenidato no controle inibitório, na memória de trabalho e na flexibilidade cognitiva, entre outros aspectos do funcionamento neurocognitivo.

Eles pesquisaram nos bancos de dados Cochrane, PubMed e PsycInfo estudos comparando placebo com doses baixas (0,10 a 0,40 mg/kg), médias (0,40 a 0,70 mg/kg) e altas (0,70 a 1,00 mg/ kg) de metilfenidato.

Dos 1.875 estudos selecionados inicialmente, 176 foram considerados adequados para inclusão. Destes, 18 (que tinham 606 pacientes com TDAH) avaliaram o impacto do metilfenidato no controle inibitório e foram selecionados para a análise em questão.

As tarefas utilizadas nos estudos foram as seguintes: Anti-saccadeGo-NoGoStop-signalStroop e CPT (desempenho contínuo).

Melhora do controle inibitório

Os resultados mostraram que todas as doses de metilfenidato foram associadas à melhora significativa no controle inibitório versus placebo. Contudo, a maior diferença média padronizada em relação ao placebo foi a da dose média de metilfenidato: 0,432 (P = 0,009) versus 0,364 para a dose baixa (P = 0,000) e 0,346 para a dose alta (P = 0,001).

A Dra. Karen observou que, quanto ao tratamento do TDAH, o foco atual está nos sinais e sintomas comportamentais. Embora nem todas as crianças com essa enfermidade tenham problemas com o controle inibitório, “muitas têm este tipo de problema, o que é fortemente relacionado com o desempenho escolar”, disse ela.

“Esta é uma razão pela qual muitos pais procuram ajuda. E, se esse é o nosso desfecho do tratamento, talvez devêssemos observar o controle inibitório, porque os estudos que analisam o desempenho escolar têm resultados muito diferentes”, acrescentou ela.

A Dra. Karen alertou que, embora o metilfenidato possa ter efeitos positivos em longo prazo no desempenho escolar, ela não acha uma boa ideia “medicar a criança por um ano e esperar para ver quais serão os resultados”.

“Elegante e relevante”

Em um comunicado de imprensa, a Dra. Kerstin von Plessen, Ph.D., médica do Center Hospitalier Universitaire Vaudois, na Suíça, descreveu o estudo como “elegante e extremamente relevante”.

O estudo também “lança luz sobre um fenômeno interessante que ainda não havia recebido atenção suficiente”, acrescentou a Dra. Kerstin, que não participou da pesquisa.

No entanto, o estudo “não aborda o porquê de algumas crianças tomarem doses mais altas”, o que ela sugere poder ser consequência de doses mais baixas apresentarem um efeito menor.

Portanto, “os achados estão alinhados com a realidade clínica nos dizendo que as crianças que não respondem suficientemente à dose padrão de metilfenidato precisam de uma segunda avaliação diagnóstica, mais abrangente, antes de aumentarmos a dose do medicamento”, disse a Dra. Kerstin.

Ela mencionou que outras opções de tratamento devem ser exploradas. Além disso, a conclusão do estudo, de que testes neurocognitivos devem ser acrescentados a uma avaliação, “pode ser uma opção bastante útil para identificar melhor a capacidade acadêmica e o comportamento, mas não deve substituir a avaliação clínica para impulsividade durante qualquer mudança de medicamento”.

Dra. Karen e colaboradores estão fazendo um estudo duplo-cego de escalonamento comparando o metilfenidato com o tratamento padrão – não no ambiente universitário, mas no “ambiente natural” do consultório psiquiátrico. Eles irão recrutar os pacientes conforme prescreverem o metilfenidato.

O estudo foi financiado pelo Innovatiefonds Zorgverzekeraars como parte do projeto MOVA: Otimização de medicamento para o TDAH (MOVA, sigla do inglês, Medication Optimization for ADHD). As pesquisadoras e a Dra. Karen informaram não ter relações financeiras relevantes.

 

Fonte: Medscape

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