Taxa de ideação suicida é alta em pré-adolescentes

Até 18% dos pré-adolescentes entre 11 e 13 anos têm ideação suicida, mostra nova pesquisa.

Os resultados do estudo longitudinal de acompanhamento em três fases mostraram que 15,9% dos meninos e meninas pré-adolescentes tiveram ideação suicida na primeira fase e 18,2% e 18,0% na segunda e terceira fases, respectivamente.

“Apesar da melhora geral na saúde, as taxas globais de comportamento suicida ainda são altas, e os suicídios ocorrem em todas as regiões do mundo e em todas as idades”, escreveram os pesquisadores, liderados pela primeira autora, Dra. Núria Voltas, da Rovira i Virgili University, na Espanha.

Os pesquisadores também analisaram os fatores de risco de ideação suicida nos participantes e descobriram que sintomas depressivos, ansiedade e transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) eram os principais fatores, e que eles diferiam por gênero.

“Nos meninos são os sintomas depressivos anteriores que determinam a ideação suicida subsequente”, observou a Dra. Núria em um comunicado à imprensa. Nas meninas é uma combinação de sintomas de ansiedade, TOC e a situação socioeconômica da família, acrescentou ela.

O estudo foi publicado on-line em 22 de abril no periódico Archives of Suicide Research.

Segunda causa de morte

Dados dos Centers of Disease Control and Prevention (CDC) mostram que o suicídio é a segunda causa de morte entre adolescentes e jovens adultos. No entanto, os pesquisadores observaram que poucos estudos longitudinais avaliaram os fatores de risco que podem levar a pensamentos e comportamentos suicidas.

Os pesquisadores observaram que “faltam estudos epidemiológicos sobre taxas de prevalência, risco e fatores de proteção, bem como outras variáveis que nos permitiriam entender melhor este fenômeno complexo e com muitas causas”.

Eles também destacaram que falta clareza na literatura atual sobre a definição de risco de suicídio. Assim, no estudo em tela, eles consideraram o termo de forma ampla e incluíram “ideação suicida, planos suicidas, ameaças suicidas, comportamento autolesivo, tentativas de suicídio e conclusão do suicídio, todos considerados dentro de um espectro de comportamento suicida”.

Os principais objetivos do estudo foram determinar a prevalência de ideação suicida e fatores de risco preditivos no início da adolescência. A equipe de pesquisa estudou 720 meninos e 794 meninas de 13 escolas na Espanha.

Os jovens participantes foram monitorados ao longo de três períodos de desenvolvimento: 10, 11 e 13 anos de idade.

No início do estudo, 1.514 crianças com média de idade de 10,2 anos responderam a uma série de testes psicológicos para determinar quais delas apresentavam sintomas emocionais relacionados com depressão, ansiedade e TOC.

Os testes incluíram o Children’s Depression Inventory (CDI) e outros testes psicopatológicos. A partir das respostas os pesquisadores dividiram os participantes em dois grupos: um grupo de controle e o outro de risco de problemas emocionais.

Durante a primeira fase, 16% dos participantes do estudo relataram que haviam pensado em suicídio e, destes, 33% relataram o mesmo um ano depois.

Crianças em risco de distúrbios emocionais (N = 405) e uma subamostra de crianças consideradas fora de risco (N = 157) foram avaliadas um ano depois, na segunda fase do estudo. Foram 254 meninos e 308 meninas (média de idade de 11,3 anos).

Nesta fase, a mesma bateria de exames foi realizada novamente, e um psiquiatra e dois psicólogos infantis fizeram diagnósticos psiquiátricos usando a Mini-International Neuropsychiatric Interview for Kids (MINI-Kid).

Na segunda fase, 21,6% (N = 121) afirmaram ter procurado ajuda profissional para problemas psicológicos. A prevalência de transtornos emocionais foi de 3,4% para transtornos depressivos, 11,8% para transtornos de ansiedade e 1,8% para TOC.

Dois anos depois, todas as crianças da segunda fase foram convidadas a participar da terceira e última fase do estudo, que incluiu 245 participantes (174 meninas, 98 meninos; média de idade de 13,5 anos).

Tanto na segunda como na terceira fase do estudo, 18% relataram ideação suicida, medida por uma pontuação de 1 ou 2 no item 9 do CDI. O risco de suicídio foi determinado em uma entrevista pessoal e esteve presente em 12,2% das crianças com média de idade de 11 anos. Os pesquisadores descobriram que a gravidade do comportamento suicida foi maior em meninos.

As taxas de relatos de pensamentos suicidas foram altas em todas as três fases do estudo e variaram de 15% a 18%. No entanto, apenas 0,7% marcaram a afirmação “Quero cometer suicídio”.

O aumento da prevalência de pensamentos suicidas na segunda e terceira fases do estudo pode ter ocorrido porque, da primeira para a segunda fase, a amostra foi rastreada quanto a problemas emocionais. Portanto, a amostra na segunda fase do estudo incluiu participantes com mais risco de apresentar transtornos emocionais em relação à primeira fase.

A identificação dos fatores de risco associados à ideação suicida “nos permitirá ter mais controle sobre este aspecto específico e tomar medidas de prevenção em pré-adolescentes que estão passando por um período de considerável vulnerabilidade”, disse a Dra. Núria.

Os pesquisadores reconheceram que as limitações do estudo incluem o pequeno tamanho da amostra na fase do acompanhamento, a ausência de entrevista diagnóstica na terceira fase do acompanhamento e o fato de a escala Children’s Global Assessment (CGAS) ter sido determinada principalmente a partir do autorrelato.

No entanto, eles observaram que “o risco de suicídio é considerado uma grande preocupação de saúde pública que pode levar a graves deficiências no cotidiano das pessoas que sofrem com isso”.

Os resultados do estudo, concluíram os pesquisadores, destacam a necessidade de realizar atividades eficazes de prevenção e “evitar que muitos adolescentes sofram com pensamentos e comportamentos suicidas”.

Interpretar com cautela

Solicitado a comentar os resultados para o Medscape, o Dr. Tyler R. Black, diretor médico da Unidade CAPE no BC Children’s Hospital, no Canadá, disse que é importante considerar as perguntas que foram feitas ao interpretar os dados.

“Sabemos que uma parte significativa das crianças tem pensamentos suicidas e é importante definir o que queremos dizer com isso”, disse Dr. Tyler, que não participou da pesquisa.

“Alguns têm fortes pensamentos suicidas como ‘eu quero morrer’ e outros têm pensamentos leves, como ‘como seria morrer’. Portanto, quando alguém responde a uma pergunta da pesquisa, realmente importa quais perguntas estão sendo feitas.

“No estudo, cerca de 15% das crianças disseram que pensavam em suicídio, mas não o fariam, e é difícil saber o quão perigosos são esses pensamentos. Elas poderiam estar apenas se perguntando sobre o suicídio à medida que a palavra aparece, enquanto a menor percentagem, os 0,7% que querem cometer suicídio, são as crianças com as quais nos preocuparíamos, porque este seria um pensamento ativo.”

Um dos principais desafios do estudo, disse Dr. Tyler, é que a principal pergunta – cuja taxa de resposta foi de 12% a 16% – foi uma questão muito branda sobre suicídio.

Menos crianças relataram que de fato queriam se suicidar. O Dr. Tyler disse que a ciência também está deixando de categorizar as pessoas como tendo baixo, médio ou alto risco de suicídio.

“Simplesmente não tem como saber quem apresenta risco baixo, médio ou alto. O risco de suicídio deveria ser considerado em todas as pessoas acima de 10 anos de idade, por todos os médicos”, disse ele.

“Houve muitos comentários no estudo sobre o risco baixo, médio ou alto, mas a ciência está deixando esta ideia de lado e observando mais quais fatores de risco fazem com que as pessoas sejam mais ou menos inclinadas a cometer suicídio. Eu gostei do comentário sobre a importância da ansiedade, depressão e TOC, que estão associadas às taxas de suicídio.”

Por fim, o Dr. Tyler observou a importância de reconhecer que a persistência em um ano de efetivamente querer se matar ocorreu em 33%, e a persistência de três anos foi de 9,3%.

O estudo foi financiado pelo Spanish Ministry of Health and Consumption e pelo Spanish Ministry of Science, Innovation, and UniversitiesDra. Núria e Dr. Tyler informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

 

Fonte: Site Medscape

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