Tratamento da depressão melhora sobrevida no câncer?

Um grande estudo de coorte de pacientes oncológicos em Israel concluiu que a adesão ao antidepressivo > 50% foi associada a um número um quarto menor de morte em quatro anos, em comparação com < 20% de adesão.

O estudo foi publicado on-line em 22 de julho no periódico Depression and Anxiety.

Por mais intrigantes que sejam os resultados, é improvável que este estudo modifique a conduta médica até que a causa desta relação seja mais bem compreendida, disse o psiquiatra Dr. Gary Rodin, que chefia o Department of Supportive Care no Princess Margaret Cancer Centre, no Canadá.

“O que o artigo diz é que o tratamento da depressão melhora a sobrevida, mas eu não acho que o artigo comprove isso”, disse o Dr. Gary. “Supondo que essa relação seja válida, a pergunta é: como acontece? Correlação não prova causalidade.”

Para o estudo, o Dr. Gal Shoval, médico da Tel Aviv University, e colaboradores, analisaram dados de 42.075 pacientes atendidos nos Serviços de Saúde Clalit, o maior provedor de saúde em Israel. Os pesquisadores consideraram todos os pacientes com diagnóstico de neoplasia maligna a partir do momento em que cada paciente recebeu a primeira prescrição de algum antidepressivo na vigência do câncer. A adesão foi definida como a razão entre o número de meses nos quais o paciente pegou os medicamentos na farmácia e o número de meses que o paciente permaneceu no estudo.

Os pesquisadores informaram que toda adesão acima de 20% foi associada a aumento da sobrevida ao longo dos quatro anos do estudo. A aparente vantagem chegou ao máximo entre 50% e 80% de adesão, com 23% de redução do risco de morte do paciente em quatro anos. A adesão acima de 80% não pareceu conferir nenhum benefício adicional.

A metodologia do estudo foi apropriada, disse o Dr. Gary. “Não é uma má medida de adesão. Os pacientes que pegaram os medicamentos na farmácia têm mais probabilidade de tomar os medicamentos do que os que não o fizeram. Ainda assim não dá para saber se eles de fato tomaram o medicamento, mas não é uma medida inapropriada, especialmente em um grande estudo”.

O Dr. Gary disse que, em geral, o tamanho da amostra – com mais de um milhão de pessoa-anos de acompanhamento no estudo – foi a principal força do estudo.

No entanto, o Dr. Gary afirmou que é difícil aplicar os resultados na prática clínica já que o estudo mostra a existência de uma associação, mas não tem nenhuma hipótese sobre a causalidade. O psiquiatra rejeita qualquer sugestão de algum efeito biológico direto dos antidepressivos na sobrevida no câncer.

“As pessoas que têm boa adesão aos antidepressivos podem ser diferentes das pessoas que não tomam regulamente seus medicamentos”, disse o Dr. Gary.

“Podem apresentar diferentes comportamentos, estilos de vida, podem ter melhor adesão ao tratamento antineoplásico.”

O Dr. Gary citou um estudo clássico sobre câncer de mama publicado no periódico Lancet em 2000 que mostrou que 92% das mulheres sem depressão aceitavam quimioterapia adjuvante. Em contrapartida, apenas metade das mulheres deprimidas do estudo concordaram com a quimioterapia.

“O estudo em tela avaliou a adesão ao tratamento antidepressivo, mas não a adesão ao tratamento antineoplásico”, disse Dr. Gary. “Pode ser que as pessoas que aderiram ao tratamento da depressão neste estudo tenham tido maior adesão a todo o tratamento.”

Além disso, não há detalhes sobre a indicação dos antidepressivos ou se os pacientes de fato precisavam de antidepressivos, disse o Dr. Gary – ou como responderam ao tratamento.

“Eu gostaria de saber mais sobre a gravidade da depressão, que não foi avaliada. Essa é uma limitação do estudo”, disse o médico. “Se eles tivessem mostrado que as pessoas que viveram mais tempo não só tomaram os antidepressivos, como tiveram remissão da depressão, isso teria sido bem mais convincente.”

No artigo, o Dr. Gal e coautores reconheceram que uma das limitações do estudo foi a ausência de dados sobre o diagnóstico da saúde mental. Os pesquisadores também reconheceram que os fatores desconhecidos que potencializaram a probabilidade de não sobrevivência podem ter sido mais comuns entre os pacientes com baixa adesão, observando, “pode haver ainda fatores de confusão residual por variáveis não mensuráveis, como, por exemplo, classificação e estadiamento da neoplasia”.

O Dr. Gary concluiu: “me parece que é prematuro dizer que mais adesão diminui o número de mortes, mas este foi um achado interessante e merece ser mais pesquisado”.

Dr. Gal Shoval e coautores revelaram não ter conflitos de interesses relevantes. O Gary Rodin informou não ter conflitos de interesses relevantes.

 

Fonte: Medscape

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