Resposta cerebral pode contribuir para diagnóstico do TDAH em crianças

Diferentes atividades cerebrais, como a inibição e a modulação do córtex motor no transtorno de déficit de atenção e/ou hiperatividade (TDAH), podem dar um diagnóstico mais preciso da doença, sugere uma nova pesquisa.

Em um estudo de caso-controle, a capacidade de iniciar e adiar uma tarefa em um jogo de corrida de carros foi significativamente diferente entre as crianças com TDAH do que entre as crianças com desenvolvimento típico.

Quando as crianças com TDAH decidem agir ou não agir, a excitabilidade elétrica do cérebro difere de duas maneiras, disse o pesquisador do estudo Dr. Donald Gilbert, Ph.D., médico e diretor da Tourette’s Syndrome and Movement Disorder Clinics e do Transcranial Magnetic Stimulation Laboratory no Cincinnati Children’s Hospital Medical Center, em Ohio.

“Inicialmente, há um aspecto muito importante do sistema de interrupção que as crianças com TDAH não ativam e, em segundo lugar, seu aumento geral da atividade fisiológica cerebral para enfrentar o desafio da tarefa é menor”, disse o Dr. Donald, que também é professor associado do Departamento de Neurologia Infantil.

Essas descobertas foram publicadas on-line em 17 de janeiro no periódico Neurology.

Córtex motor no TDAH

Estima-se que o TDAH atinja entre 7,5% e 10% das crianças norte-americanas. Como não existem marcadores biológicos, os médicos diagnosticam a doença indagando aos pais e professores uma série de perguntas sobre o comportamento da criança.

O TDAH é tratado com medicamentos e/ou terapia comportamental, com diferentes graus de sucesso dependendo do paciente. No entanto, como publicado pelo Medscape, um dispositivo de estimulação cerebral para tratar o transtorno também foi recentemente aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) norte-americana.

Os pesquisadores fizeram um estudo mostrando a relação entre a inibição do córtex motor e o TDAH.

O estudo em tela foi feito com 131 crianças destras (65% meninos) entre 8 e 12 anos de idade com diagnóstico de TDAH (N = 66) ou como participantes de controle com desenvolvimento típico (N = 65). Todos foram instruídos a dar partida e parar um carro na tela de um computador.

Pulsos de estimulação magnética transcraniana (EMT) foram aplicados 150 ms antes da ação desejada “dar partida” e depois da deixa dinâmica “parar” para evocar as respostas motoras.

Os pesquisadores mediram o potencial motor evocado (PME) e a inibição cortical de curta duração (SICI, sigla do inglês, Short Interval Cortical Inhibition), considerada um dos sistemas de “travamento cerebral” e associada à inibição mediada pelo ácido γ-aminobutírico no interior do córtex motor primário.

O objetivo geral do estudo foi compreender o que acontece na fisiologia motora das crianças com TDAH durante as atividades comportamentais relacionadas com comprometimentos clínicos, observaram os pesquisadores.

O desfecho primário foi identificar medidas da atividade cerebral e determinar como a inibição cortical de curta duração difere entre a escolha da ação e da supressão da ação.

Como desfecho secundário, os pesquisadores quiseram determinar se a ativação cerebral durante a resposta de inibição diferiu nos dois grupos de crianças.

Pare e siga

As crianças foram triadas para o estudo por meio de diferentes escalas, como a ADHD Rating Scale IV, a Conners’ Parent Rating Scale (revisada ou a terceira edição) e a Kiddie Schedule for Affective Disorders e Schizophrenia for School-Aged Children, uma avaliação clínica por um neurologista pediátrico especializado e o Hollingshead Parent History Questionnaire.

Medicamentos de ação curta foram suspensos no dia anterior e no dia do teste; os de ação prolongada foram proibidos.

Os pesquisadores mediram a atividade cerebral do córtex motor das crianças “em repouso”, região do cérebro que controla o movimento voluntário, por meio de um sistema de estimulação magnética transcraniana não invasiva para estimular as células nervosas no cérebro.

Os dois grupos de crianças estavam sentados em cadeiras confortáveis, e foram solicitados a jogar um vídeo game com carros de corrida se movendo em uma tela de computador. Na verdade, tratava-se do paradigma modificado do tempo de reação de Slater-Hammel ao sinal para interromper a tarefa que mediu a inibição de sua resposta.

Os participantes começavam cada tentativa pressionando o dedo indicador em um botão do console, fazendo o carro de corrida dar partida e movendo-o em uma pista na tela. O carro se andava enquanto o botão estivesse pressionado.

O objetivo era fazer o carro chegar o mais perto possível de uma marca indicada na tela sem ultrapassá-la. Mas em 25% das tentativas o carro parou espontaneamente. A criança foi instruída a continuar pressionando o dedo até ver a bandeira quadriculada indicando o final da corrida. A parada foi considerada bem-sucedida se a criança não levantasse o dedo na marca na tela.

Os pulsos de estimulação magnética transcraniana foram aplicados ao cérebro das crianças em diferentes intervalos para estimular o córtex motor para o potencial motor evocado e para a inibição cortical de curta duração.

Os pesquisadores conseguiram gerar atividade elétrica nos músculos e, a seguir, medir a diferença das respostas das crianças de como reagiram aos comandos “dar partida” e “parar” o carro na tela por meio de um eletrodo colocado no seu dedo indicador.

Diferenças detectadas

Quando submetidas aos pulsos de estimulação magnética transcraniana, as crianças com TDAH apresentaram redução da inibição cortical de curta duração tanto durante a resposta ao comando “dar partida” como ao comando “parar” em comparação com os controles.

As respostas ao comando “dar partida” foram significativamente mais lentas (P = 0,001) e mais variáveis (= 0,002) entre as crianças com TDAH do que no grupo de controle.

Essas crianças também demostraram uma forte associação entre a gravidade dos sintomas e a modulação positiva do córtex motor relacionada com a tarefa.

A diminuição da modulação positiva do córtex motor relacionada com a tarefa foi associada significativamente a sintomas mais graves de TDAH e a tempos de reação mais lentos para os sinais de parar.

Em comparação com o grupo de controle, o grupo do TDAH também demonstrou diferenças fisiológicas no córtex motor, redução da inibição cortical de curta duração em diferentes estados comportamentais e menor modulação positiva relacionada com a tarefa do estado de repouso até a escolha de uma ação.

Crianças com TDAH apresentaram menor redução da inibição cortical de curta duração na área M1 em repouso (= 0,02) e nos ensaios clínicos de partida (= 0,03) e de parada (= 0,02).

Em repouso, estas crianças tiveram uma inibição ao início do estudo de 43% (intervalo de confiança, IC, de 95% de 0,51 a 0,63) em comparação com 54% (IC 95% de 0,41 a 0,53) para os controles. A inibição cortical de curta duração na área M1 também diminuiu 19% na coorte de crianças com TDAH (= 0,028).

O desempenho da inibição da resposta foi comparável entre os dois grupos.

Implicações para o tratamento?

A excitabilidade da área M1 em repouso foi significativamente maior durante a inibição da resposta do envolvimento com a tarefa (< 0,0001). Esta modulação positiva da tarefa foi menos robusta entre os grupos, e dentro deles. As crianças com pontuação indicando TDAH mais grave mostraram diminuição da modulação positiva relacionada com a tarefa e lentificação da reação ao sinal de parada.

Em comparação ao grupo de controle, tiveram 40% menos sinalização inibitória do dedo ao dirigir e 45% menos sinalização inibitória ao parar.

Por fim, o engajamento global do cérebro foi 10% menor nas crianças com TDAH, o que se correlacionou fortemente com a gravidade dos sintomas do transtorno.

Os pesquisadores sugeriram que a fisiologia da área M1 indica disfunção no córtex pré-frontal ou em regiões subcorticais responsáveis por comprometer a desatenção, a hiperatividade e a impulsividade.

Os pesquisadores resumiram que as crianças com TDAH apresentaram diferenças fisiológicas no córtex motor, inibição cortical de curta duração deficiente e menor modulação positiva da tarefa do repouso até a ação escolhida, o que mapeou o grau de gravidade do TDAH.

No entanto, o Dr. Donald observou que é necessário aprofundar as pesquisas.

“Se você me procurar preocupado que seu filho possa ter TDAH, vou lhe fazer 18 perguntas”, disse o médico.

“É assim que o TDAH é diagnosticado, não existe exame. Então nós realmente gostaríamos de encontrar parâmetros biológicos que nos permitissem compreender as diferentes maneiras que o cérebro pode ser alterado e produzir os sinais e sintomas do TDAH”, disse o Dr. Donald.

“Em última análise, se pudermos compreender melhor esse transtorno, poderemos tratá-lo melhor.”

Superposição de coortes

Comentando os resultados para o Medscape, a Dra. Sandra Loo, Ph.D., professora na residência do Departamento de Psiquiatria Infantil no Center for Neurobehavioral Genetics Brain Research Institute na University of California, Los Angeles (UCLA), elogiou os pesquisadores pela inclusão de uma grande amostra de crianças.

Além disso, o estudo “indica que esta região do córtex motor desempenha algum papel no TDAH”, disse a Dra. Sandra, que não participou da pesquisa.

A comentarista observou que a inibição cortical de curta duração é “um certo tipo de medição da atividade elétrica no cérebro nesta região motora que sabemos ser muito bem definida biologicamente. E os pesquisadores de fato encontraram diferenças entre os grupos”.

“Um dos objetivos de encontrar um marcador biológico é que, em teoria, você quer encontrar um marcador que diferencie o TDAH do controle”, disse Dra. Sandra.

No entanto, “quando existem superposições de distribuições como essas, é difícil dizer se vai funcionar. E este não é o tipo de análise que você faria para um marcador biológico”, acrescentou.

“A quantidade de variabilidade é a mesma entre todas as crianças, independentemente do diagnóstico de TDAH. E assim existe de fato o que eu chamo de “variabilidade populacional” em termos de função cerebral e cognitiva”, disse a Dra. Sandra.

Ainda assim, a comentarista observou que esta área é uma boa “candidata” a um estudo mais aprofundado.

“Me parece que precisará ser ampliada em termos do modo como está sendo concebida; evidentemente, não se trata somente de TDAH. Na verdade, os pesquisadores estão fazendo uma amostragem de apenas uma área do cérebro – e nós sabemos que o cérebro funciona em redes”, concluiu a Dra. Sandra.

 

Fonte: Medscape.

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