Estudo associa transtorno de ansiedade a inflamação

Uma pesquisa que avaliou crianças com e sem transtorno de ansiedade constatou níveis elevados de interleucina 6 (IL-6) nas crianças com o transtorno durante o acompanhamento, que ocorreu cinco anos após o início do estudo.

O estudo foi publicado na edição de agosto do periódico Journal of Psychiatric Research [1]

Além disso, os pesquisadores do Hospital de Clínicas de Porto Alegre da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (HCPA-UFRGS) identificaram que essa associação foi parcialmente mediada por níveis de colesterol HDL.

O estudo, desenvolvido durante o doutorado da biomédica Dra. Angélica de Baumont, Ph.D., sob orientação da psiquiatra Dra. Gisele Gus Manfro, avaliou 234 pacientes, dos quais 134 tinham diagnóstico de transtorno de ansiedade e os outros 100 pertenciam ao grupo de controle. Os participantes ingressaram no estudo em 2008 e, cinco anos depois, 73 fizeram uma reavaliação clínica, foram entrevistados e concederam amostras de sangue para análise.

As pesquisadoras falaram ao Medscape sobre os dados do trabalho.

A média de idade dos participantes no início do estudo foi de 12,6 anos e 60,3% eram do sexo feminino. Predominaram estudantes brancos (65%).

Os autores não encontraram associação entre o transtorno de ansiedade no início do estudoe os níveis de IL-10, IL-1β, fator de necrose tumoral alfa (TNF-α, do inglês, Tumor Necrosis Factor alpha) e carbonila durante o acompanhamento. No entanto, eles identificaram que, na primeira avaliação, as crianças diagnosticadas apresentaram níveis elevados de IL-6 e reduzidos de fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) no acompanhamento – após a análise controlada para depressão, a associação entre ansiedade e BDNF deixou ser estatisticamente significativa.

Os pesquisadores também avaliaram se a atividade física, os marcadores metabólicos e algum trauma na infância poderiam atuar como mediadores na associação entre o transtorno de ansiedade e a IL-6, e identificaram que apenas níveis elevados de colesterol HDL parecem ter essa ação.

Entre as interleucinas avaliadas pelo grupo de Porto Alegre, a IL-6 é a que tem sido mais associada ao transtorno de ansiedade. “Achados de uma metanálise recente mostram uma diferença global significativa nos níveis de IL-6 entre controles saudáveis e indivíduos com transtorno de ansiedade. [2] A IL-6 é uma interleucina pró-inflamatória que tem sido associada a numerosas funções relacionadas com o sistema nervoso central. Sabe-se que a IL-6 produzida perifericamente pode atravessar a barreira hematoencefálica ou enviar sinais pró-inflamatórios através da mesma, alterando a atividade cerebral na amígdala. Acredita-se que desta forma a IL-6 aumentaria o comportamento ansioso”, explicaram as Dras. Gisele e Angélica.

O BDNF, por sua vez, é um fator de crescimento que vem sendo relacionado com os processos de neuroinflamação. Segundo as pesquisadoras, baixos níveis de BDNF têm sido associados a diversos transtornos psiquiátricos.

“Este fator modula a aprendizagem e a memória no sistema nervoso central, e pode ser considerado um biomarcador das funções do hipocampo; ele parece desempenhar um papel importante na regulação do medo e da ansiedade”, afirmaram as autoras, lembrando que o fato de a associação entre ansiedade e BDNF ter sido perdida no estudo após a análise controlada para depressão indica que a relação possivelmente também estava sendo influenciada pelos sintomas depressivos.

“Nós levantamos a hipótese de que o BDNF está mais associado aos sintomas internalizantes (depressão e ansiedade) do que à ansiedade isoladamente”, destacaram.

Quanto ao colesterol HDL, as pesquisadoras disseram que esse fator mediou parcialmente a associação entre ansiedade e IL-6 de forma inversamente proporcional.

“Isso faz sentido se considerarmos que o colesterol HDL é um forte antioxidante, e que baixos níveis estão associados ao aumento do estresse oxidativo e às respostas pró-inflamatórias. Assim, podemos pensar que a presença do transtorno de ansiedade está associada ao aumento da inflamação (IL-6) direta e indiretamente, associando-se à menores níveis de HDL, que, por sua vez, estão relacionados com maiores níveis de inflamação”, afirmaram as Dras. Gisele e Angélica.

Mas, apesar da associação observada entre o transtorno de ansiedade e inflamação, a dupla salientou que os achados não permitem afirmar que há uma predição de estado inflamatório pelo transtorno de ansiedade, pois o grupo não analisou os níveis de marcadores inflamatórios no início do estudo, apenas no acompanhamento.

“Essa é a principal limitação do nosso trabalho, que não nos permite determinar se o transtorno de ansiedade é causa ou consequência das alterações inflamatórias que encontramos. Ainda assim, nosso estudo apontou a IL-6 e o BDNF como potenciais biomarcadores no transtorno de ansiedade, indicando um caminho a ser explorado por novos estudos”, ressaltaram.

Para as especialistas, à medida que as associações entre possíveis biomarcadores e transtornos psiquiátricos forem sendo estabelecidas, será possível tornar a medicina mais personalizada.

“A associação entre transtorno de ansiedade e alterações no perfil inflamatório está cada vez mais evidente, embora ainda não saibamos se há uma relação causal direta ou se as citocinas apontadas são apenas marcadoras dos processos biológicos e mecanismos biomoleculares que de fato causam o transtorno em questão”, afirmaram, destacando a importância de estudos que busquem possíveis biomarcadores com alto valor preditivo para auxiliar em intervenções preventivas.

As Dras. Gisele e Angélica ressaltaram ainda que a inflamação pode ser o elo entre a adversidade psicossocial e os problemas de saúde observados em pessoas com ansiedade, como desfechos cardiovasculares, por exemplo. Segundo as autoras, “o estudo dos biomarcadores inflamatórios pode melhorar a compreensão sobre o impacto dos processos inflamatórios na saúde geral desses pacientes”.

 

Fonte: Medscape.

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