Aplicativo de atenção plena altera a reatividade cerebral e reduz o tabagismo

Um aplicativo para parar de fumar pela prática da atenção plena (mindfulness) pode contribuir para que os fumantes – especialmente as mulheres – reduzam o número diário de cigarros, e pode alterar a atividade cerebral no córtex cingulado posterior, uma região relacionada com a fissura pela substância, sugere nova pesquisa.

Os pesquisadores compararam um aplicativo de treinamento em atenção plena com um aplicativo para parar de fumar do National Cancer Institute (NCI) norte-americano durante um mês e constataram que, entre os que utilizaram o aplicativo de treinamento em atenção plena, houve uma correlação significativa entre a redução da reatividade do córtex cingulado posterior aos estímulos para fumar e a diminuição do consumo de cigarros, que não foi observada no grupo de controle.

Os pesquisadores também identificaram uma associação entre a redução do número diário de cigarros e o número de módulos do treinamento em atenção plena finalizados pelo participante.

“A principal mensagem é que este é o primeiro estudo a relacionar mecanismos cerebrais a desfechos clínicos, mostrando que existe um mecanismo muito específico pelo qual a prática da atenção plena funciona”, disse ao Medscape o autor sênior Dr. Judson A. Brewer, Ph.D., médico e professor associado de psiquiatria da Warren Alpert Medical School da Brown University, e diretor de pesquisa e inovação do Brown University Mindfulness Center, em Rhode Island.

“Se pudermos compreender os mecanismos básicos de como funciona a atenção plena – tanto em termos comportamentais como neurológicos – isso pode inaugurar uma nova era de tratamentos visando as regiões específicas do cérebro que participam do gatilho da fissura, e obter uma boa eficácia e efeitos duradouros em casos nos quais outros tratamentos poderiam falhar”, disse o pesquisador.

O estudo foi publicado on-line em 30 de abril no periódico Neuropsychopharmacology.

Terapia digital

Embora várias regiões do cérebro tenham sido implicadas na reação ao estímulo para fumar, o córtex cingulado posterior, “um dos principais nós da rede do modo default (DMN, do inglês Default Mode Network), se destacou”, escreveram os autores.

Esta é a região do cérebro responsável pela autorreferência, bem como pela reatividade aos estímulos nos transtornos de dependência, continuaram os pesquisadores.

Os autores observaram que “foi sugerido que o aumento da atividade do córtex cingulado posterior está associado a ‘ficar preso’ na sua experiência, como ficar fixado em um pensamento particular, divagando ou fissurado por entorpecentes”.

No entanto, o córtex cingulado posterior pode ser desativado durante a execução de tarefas “sem referência à própria pessoa”, entre as quais um exemplo é a meditação da atenção plena.

Pesquisas anteriores verificaram que a prática da atenção plena pode diminuir a atividade do córtex cingulado posterior em meditadores experientes, e que a atenção plena pode moderar a “dissociação da indução do tabagismo por estímulos que deflagram a vontade de fumar, sugerindo a extinção de hábitos condicionados operantes” observaram os pesquisadores.

As intervenções por meio de aplicativos têm mostrado uma utilidade cada vez maior na oferta de terapias comportamentais, observaram os autores.

Esta nova classe de “terapia digital”, portanto, pode ser uma maneira eficaz de oferecer o treinamento em atenção plena.

“A atenção plena ganhou muita popularidade nos últimos anos, mas não está claro quais são os mecanismos de sua atuação, e como esta prática ajuda as pessoas a mudar de hábitos”, disse Dr. Judson.

Para investigar os efeitos neurobiológicos do treinamento de atenção plena por meio de um aplicativo de estímulos à reatividade do córtex cingulado posterior, os pesquisadores compararam 33 fumantes que fizeram o treinamento da atenção plena pelo aplicativo para smartphone a 34 controles ativos, que usaram o aplicativo do NCI QuitGuide .

O programa de treinamento da atenção plena reproduziu os “elementos essenciais” do manual do programa de treinamento da atenção plena para parar de fumar com “grande fidelidade”.

O programa, que é disponibilizado para o público de graça, é composto de 22 “módulos de aprendizagem exclusivos”. Cada módulo contém vídeos de treinamento diário e de exercícios sob demanda e leva de 5 a 15 minutos para ser concluído.

Os diferentes componentes do programa “são projetados para ajudar os usuários a monitorar seus próprios hábitos de fumar, identificar os gatilhos que os fazem fumar, aprender métodos para adquirir mais consciência sobre a fissura e a usar práticas de treinamento da atenção plena para superar isso”, afirmaram os autores.

O Dr. Judson observou que o programa foi configurado para que as pessoas não o “assistam compulsivamente, porque o aprendizado não se dá dessa maneira”.

O desfecho primário do estudo foi “demonstrar que o aplicativo de treinamento da atenção plena promoveu uma diminuição confiável da reatividade do córtex cingulado posterior aos estímulos para fumar”, afirmaram os autores.

Os participantes deveriam fumar > 10 cigarros por dia, ter tido < 3 meses de abstinência tabágica no ano anterior, ter pontuado > 8 de 10 em uma escala sobre a disposição de mudar, ter um smartphone e ter entre 21 e 65 anos de idade.

Os critérios de exclusão foram história de doença neurológica ou psiquiátrica, experiência com o treinamento da atenção plena para redução do estresse, meditar ou fazer ioga, uso excessivo de bebidas alcoólicas, gestação ou contraindicação de ressonância magnética (RM).

Os pesquisadores calcularam as mudanças no consumo de cigarros e as alterações da atividade do córtex cingulado posterior (Δ), subtraindo os valores registrados ao início do estudo dos valores após o tratamento.

Recomendar para um amigo

Os participantes fizeram uma tarefa de reação ao estímulo para fumar por ressonância magnética funcional (RMf) no início do estudo e, a seguir, foram designados aleatoriamente para usar o aplicativo de treinamento da atenção plena ou o de controle ativo.

Os participantes foram instruídos a usar o aplicativo para ajudá-los a parar de fumar nas quatro semanas subsequentes. Na consulta após o tratamento, os participantes fizeram a mesma tarefa de reação ao estímulo para fumar realizada no início do estudo.

Os pesquisadores avaliaram o grau de tabagismo por meio de um teste respiratório de monóxido de carbono em cada consulta.

Imediatamente antes de cada RM os participantes fumaram, a fim de reduzir a variabilidade relacionada com a fissura por cigarro durante a tarefa de reação ao estímulo para fumar à RM.

A tarefa era ver 60 imagens relacionadas com tabagismo, 60 imagens neutras e 10 imagens direcionadas durante o exame de RM.

Não foram encontradas diferenças nas expectativas dos grupos de treinamento da atenção plena e NIC ao início do estudo em termos das perspectivas dos participantes sobre a utilidade do aplicativo, sua confiança em recomendar o aplicativo para um amigo e a sua probabilidade de parar de fumar.

Também não houve diferenças entre os grupos quanto ao número de módulos concluídos.

No entanto, durante o acompanhamento, o grupo de treinamento da atenção plena referiu uma probabilidade significativamente maior de recomendar a intervenção para um amigo em relação ao grupo do NIC (9,6 ± 0,7 vs. 5,9 ± 3,4, < 0,001, = 1,5).

No início do estudo, o número de cigarros fumados pelos participantes nos grupos de treinamento da atenção plena e do NIC era semelhante (16,8 ± 5,5 e 16,6 ± 5,9 cigarros/dia, respectivamente).

Em contraste, na avaliação após a intervenção, os participantes nos grupos de treinamento da atenção plena e do NIC referiram fumar 5,4 ± 5,6 e 7,9 ± 8,0 cigarros/dia, respectivamente.

Isso se traduziu em uma redução média de 11,4 ± 7,4 (< 0,0001, = 2,05) no grupo de treinamento da atenção plena e de 8,7 ± 5,8 (< 0,0001, = 1,28) cigarros/dia no grupo do NIC.

Mais eficaz entre as mulheres

Foi encontrada uma correlação significativa no grupo de treinamento da atenção plena vs. no grupo do NCI entre o número de módulos de treinamento que o participante concluiu e a mudança do número de cigarros fumados por dia (rS = 0,49; = 0,004; e rS = 0,20; = 0,25, respectivamente).

Não foi encontrada nenhuma diferença de reatividade ao estímulo para fumar no córtex cingulado posterior entre os grupos antes e depois do tratamento, quando as diferenças foram diretamente comparadas (treinamento da atenção plena: – 3,6 ± 33,9, intervalo de confiança, IC, de 95% = 12,0 vs. NCI: – 2,77 ± 33,0, IC 95% = 11,5; = 0,92, = 0,02).

Foi encontrada uma correlação significativa entre a redução da reatividade do córtex cingulado posterior e a alteração do número de cigarros fumados por dia no grupo de treinamento da atenção plena (= 0,39; = 0,02), mas não foi encontrada nenhuma correlação semelhante no grupo do NIC (rS= 0,08; = 0,65).

Em um modelo de regressão linear combinando o Δ do córtex cingulado posterior, o número de módulos concluídos e a quantidade de cigarros fumados ao início do estudo, todos os indicadores tiveram relação significativa com a mudança do número de cigarros no grupo de treinamento da atenção plena. Houve diminuição de 0,07, 0,30 e 0,75 cigarros fumados por dia para cada unidade a menos no córtex cingulado posterior, cada módulo assistido e cada cigarro fumado ao início do estudo, respectivamente (R2 = 0,58).

Por outro lado, no grupo do NIC nenhum indicador foi associado a mudança da quantidade de cigarros fumados (R2 = 0,08).

Uma avaliação post hoc em relação ao sexo dos participantes mostrou que a correlação do Δ do córtex cingulado posterior com a alteração do número de cigarros fumados por dia foi significativa para as mulheres, mas não para os homens, que fizeram treinamento da atenção plena (rS= 0,49; = 0,03; e rS= – 0,08; = 0,79, respectivamente).

Em contraste, não foi observada nenhuma associação semelhante no grupo do NIC, mesmo quando as mulheres e os homens foram avaliados de forma independente.

“O que descobrimos foi que a redução da atividade do córtex cingulado posterior indicou reduções específicas do número de cigarros fumados no grupo de treinamento da atenção plena”, relatou Dr. Judson.

Os autores acrescentaram que “o diagnóstico atual se encaixa no referencial teórico de que homens e mulheres fumam por razões diferentes, e que a atenuação de um foco interno mediada pelo córtex cingulado posterior está mais fortemente associada à redução do tabagismo entre as mulheres”.

Potencial biomarcador

Comentando o estudo para o Medscape, a Dra. Linda E. Carlson, Ph.D., titular da cátedra Enbridge Research em oncologia psicossocial e professora do Departamento de Oncologia da Cumming School of Medicine, que não participou do estudo, observou que o aplicativo “não foi eficaz para a redução global do tabagismo ou em alterar as respostas cerebrais aos estímulos para fumar”.

No entanto, “quando as alterações foram observadas no grupo de treinamento pelo aplicativo, houve associações entre o uso do aplicativo, a redução da ativação cerebral aos estímulos para fumar que de fato levam a fumar e o próprio comportamento de fumar, e, em grande medida, isso só funcionou para as mulheres”, disse a comentarista.

“Este estudo sugere que os aplicativos e outras intervenções que visam a redução das respostas aos estímulos para fumar (…) podem ser eficazes em ajudar, as mulheres em particular, a reduzir o consumo do cigarro”, disse a psicóloga.

A Dra. Linda, que também é professora adjunta do Departamento de Psicologia da University of Calgary, no Canadá, advertiu que os resultados são observacionais e não refletem causalidade, “de modo que trabalhos mais definitivos precisam ser feitos para abordar essas possibilidades”.

Os autores sugerem que o seu trabalho “corrobora a hipótese de que o treinamento de atenção plena reduz a reatividade ao tabagismo do córtex cingulado posterior” e pode constituir um “mecanismo neurobiológico para a sua eficácia e potenciais biótipos de marcadores que possam ser avaliados para individualização e otimização do tratamento e seus consequentes resultados clínicos”.

O estudo foi financiado por subvenções do National Center for Complementary and Integrative Health e pelo National Institute on Drug Abuse. O Dr. Judson A. Brewer é o fundador do MindSciences, a empresa que criou o aplicativo de treinamento da atenção plena utilizado neste estudo, e tem ações da empresa, trabalha como cientista não remunerado para a empresa e já fez parte do conselho de direção. Os outros autores do estudo informaram não ter conflitos de interesse financeiros relevantes. Dra. Linda E. Carlson recebe royalties por dois livros sobre atenção plena e por um programa on-line de atenção plena na recuperação do câncer.

 

Fonte: Medscape

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