Videogame pode ajudar a identificar doença de Alzheimer subclínica

A capacidade de navegação espacial, avaliada por um jogo de realidade virtual, pode ajudar a diferenciar as pessoas com alto risco genético de doença de Alzheimer.

Utilizando o jogo de navegação Sea Hero Quest, uma equipe de pesquisadores franceses e britânicos comparou os resultados de 69 participantes (entre 50 e 75 anos de idade), a uma população de referência de 27.108 outras pessoas que já tinham jogado esse jogo.

Os pesquisadores concluíram que os resultados do jogo podem ser correlacionados aos resultados do risco genético de doença de Alzheimer, e também podem servir de diferenciador entre as pessoas que apresentam sinais de envelhecimento saudável e aquelas com alto risco da doença.

“A descoberta primária do estudo é que podemos detectar alterações cognitivas precoces da doença de Alzheimer, muito antes de as pessoas de fato começarem a apresentar problemas de memória”, disse ao Medscape o primeiro autor do estudo Dr. Michael Hornberger, Ph.D., professor de pesquisa aplicada à demência na Norwich Medical School, no Reino Unido.

“Pela primeira vez, temos uma medida cognitiva que realmente avalia as pessoas em risco. Outro achado importante do estudo é que podemos, pela primeira vez, olhar para as pessoas com uma abordagem diagnóstica um pouco mais personalizada”, acrescentou o pesquisador.

O estudo foi publicado on-line em 23 de abril no periódico PNAS da National Academy of Sciences.

Mudanças sutis na navegação

A navegação espacial recentemente começou a emergir como fator crucial para a identificação da doença de Alzheimer subclínica. Na verdade, várias regiões do cérebro atingidas na fisiopatologia da doença subclínica são componentes fundamentais da rede de navegação espacial.

Evidências recentes sugerem que as alterações dos padrões de navegação espacial podem ser evidentes mesmo antes dos sinais de déficits de memória episódica, considerados o atual padrão ouro do diagnóstico da doença de Alzheimer.

No entanto, apesar do aparecimento desses dados, as diferenças individuais da capacidade de navegação – combinadas com a interação desses fatores de risco demográficos, como a apolipoproteína E (APOE), o sexo e a idade e na navegação espacial – podem dificultar a identificação das pessoas com alto risco de doença de Alzheimer subclínica.

“Sabemos que na doença de Alzheimer podem ocorrer mudanças muito sutis na navegação antes de as pessoas apresentarem problemas de memória”, disse o Dr. Michael. “Mas, a questão foi que, para conseguir identificar estas alterações sutis, nós precisávamos obter grandes conjuntos de dados para comparar as pessoas.

“Pensando nisso, lançamos o Sea Hero Quest, em 2016. Foi um enorme sucesso e coletamos dados de mais de 4,5 milhões de pessoas em todo o mundo. O estudo em tela leva nossa pesquisa para a próxima etapa, na qual queríamos ver se poderíamos usar nosso conjunto de dados para identificar as pessoas com risco de doença de Alzheimer”, acrescentou o pesquisador.

Para ajudar a preencher esta lacuna de conhecimento, os pesquisadores recrutaram 150 pacientes entre 50 e 75 anos de idade para a coorte de genotipagem daAPOEentre fevereiro de 2017 e junho de 2017. Destes, 69 fizeram testes cognitivos.

A seguir, os autores geraram um conjunto de dados populacionais de referência, extraído de um subconjunto do banco de dados Sea Hero Quest que correspondiam ao perfil demográfico da coorte genotipada: os jogadores britânicos tinham entre 50 e 75 anos de idade. Após a extração dos dados, entre os britânicos, 14.470 homens e 12.710 mulheres (N = 27.180) foram utilizados como amostra de desempenho normal na navegação.

Ao fazer isso, os pesquisadores examinaram a relação entre três variáveis de desfecho Sea Hero Quest: orientação quanto à distância percorrida, orientação quanto à duração e a precisão da mira. Destes, os pesquisadores consideraram a orientação como o desfecho primário, “já que a fase inicial da doença de Alzheimer é caracterizada por alterações nos códigos das células de localização do córtex entorrinal”, escreveram.

Potencial janela terapêutica

Os pesquisadores descobriram que os casos de alto risco de doença de Alzheimer subclínica, foram diferenciados com fidedignidade dos participantes de baixo risco por meio de referências de navegação espacial geradas pelo banco de dados. Mais eloquentemente, o estudo mostrou o principal efeito do genótipo (b = 0,22; = 0,004) na orientação quanto à distância, achado que, segundo os pesquisadores, replica observações já feitas em portadores da mutação APOEε4.

Especificamente, a análise mostrou que os adultos com risco genético de doença de Alzheimer navegaram mais longe durante a orientação quanto à distância e também exibiram um viés de navegação em direção aos limites do ambiente virtual nas grandes áreas abertas.

Isso, observaram os pesquisadores, “corrobora a hipótese de que haja um desempenho de navegação aquém do ideal nos quadros de doença de Alzheimer subclínica” e isso é detectável nos níveis do jogo.

Os pesquisadores também descobriram que, embora a capacidade inicial de navegação tenha diferido entre homens e mulheres, não houve interação do sexo com o genótipo da mutaçãoAPOEde modo a influenciar a manifestação das alterações espaciais relacionadas com a doença de Alzheimer.

Curiosamente, essas diferenças foram indiferenciáveis utilizando testes neuropsicológicos de memória episódica.

Estes resultados sugerem que os dados de referência normativa do jogo Sea Hero Quest possam ser usados para classificar o comprometimento espacial entre os participantes saudáveis com risco de doença de Alzheimer. Como tal, o teste oferece uma base potencial de diagnósticos individualizados e avaliações do desfecho de sintomas cognitivos nos casos de doença subclínica.

“Isso pode ter implicações importantes, e estamos conscientes de que também traz uma grande responsabilidade”, disse o Dr. Michael. Porque para muitas pessoas, a próxima pergunta é “o que devo fazer ao saber que estou apresentando os primeiros sinais de demência”?

“Do lado positivo, sabemos que a doença de Alzheimer pode levar muito tempo para evoluir desde a identificação das alterações da memória. Isso nos dá uma grande janela terapêutica, o que pode permitir que pacientes de alto risco potencialmente modifiquem a trajetória da doença postergando ou aliviando o início da doença”, acrescentou.

O teste é bom, não é fantástico

Convidado a comentar o estudo pelo Medscape, o Dr. Morris Moscovitch, Ph.D., professor de psicologia da University of Toronto, no Canadá, disse que embora o Sea Quest Hero se vanglorie de muitos pontos fortes, o teste ainda não está pronto para se sustentar nos próprios pés.

“É um teste bom; eu não acho que seja um teste fantástico”, disse o comentarista. “A especificidade não é perfeita. Não é como se uma pessoa pudesse ser considerada fora de perigo caso o seu desempenho no teste fosse bom. Por outro lado, se a pessoa tiver mau desempenho, provavelmente isso quer dizer alguma coisa”.

No entanto, o Dr. Morris foi rápido em notar que um dos principais pontos fortes do jogo é o seu enorme banco de dados.

“A melhor coisa sobre este teste é que foi feito com uma grande coorte. Então você tem boas normas, e pode identificar se alguém está fora da curva. Mas não me parece que possa ser usado como um marcador isolado”, disse o comentarista.

Dr. Michael Hornberger e Dr. Morris Moscovitch informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

 

FONTE: Medscape

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