Extensão da vida sexual do casal pode influenciar o risco de esquizofrenia da prole

Crianças concebidas antes dos seus pais terem pelo menos três anos de vida sexual ativa juntos podem ter mais risco de esquizofrenia, sugere nova pesquisa.

Os pesquisadores analisaram mais de 90.000 crianças nascidas entre 1964 e 1976, isolando as seguintes variáveis: idade paterna, idade do pai no momento do casamento, diagnóstico de doença psiquiátrica dos pais e extensão do casamento dos pais.

Os autores descobriram que os filhos que nasceram de pais casados há menos de dois anos, o que equivale a aproximadamente um ano de vida sexual anterior à gestação, apresentaram risco 50% maior de esquizofrenia; e filhos de pais casados entre dois e quatro anos tiveram risco 30% maior em comparação com os filhos de pais casados há pelo menos quatro anos.

Além disso, um casamento mais extenso aparentemente teve um efeito protetor para os filhos contra o risco de esquizofrenia: uma previsão de redução de 14% do risco a cada cinco anos a mais de tempo de casamento.

“Os resultados do estudo mostraram que casamentos mais longínquos antes da concepção podem oferecer alguma proteção para os filhos contra o risco de esquizofrenia”, disse ao Medscape a primeira pesquisadora, Dra. Dolores Malaspina, médica e professora de psiquiatria e neurociência, genética e ciências genômicas da Icahn School of Medicine at Mount Sinai, em Nova York.

“O efeito independe do risco relacionado com a história familiar de doença psiquiátrica e independe do crescente risco de esquizofrenia para a prole relacionado com o avançar da idade paterna”, disse a médica.

O estudo foi publicado on-line em 08 de março no periódico Schizophrenia Research.

Componente inflamatório

“A esquizofrenia é cada vez mais compreendida como uma doença inflamatória subsequente a alguma exposição que ative o sistema imunológico, e acreditamos que um breve período de vida sexual anterior à concepção possa ser uma fonte de inflamação para o feto”, disse a Dra. Dolores.

“Muitas doenças durante a gestação já foram consideradas como fonte de reações imunológicas no feto”, continuou ela, “como infecções, estresse e enfermidades maternas”.

“Evidências da literatura obstétrica mostram que pouco tempo de envolvimento sexual entre o casal é um fator de risco para um fluxo sanguíneo atípico na placenta, o que supostamente reflete a intolerância da mulher ao material genético do homem, que diminui depois de algum tempo de vida sexual.”

Para apurar a questão, os pesquisadores analisaram os dados do estudo populacional e prospectivo, Jerusalem Perinatal Cohort Schizophrenia Study(JPSS), um estudo de coorte de nascimentos que registrou todos os nascimentos em uma área específica de Jerusalém, em Israel, entre 1964 e 1976.

Esta coorte, em particular, foi escolhida porque os pesquisadores buscavam quantificar a extensão do tempo de envolvimento sexual dos pais a partir da data do casamento (DoM, do inglês Date of Marriage). No entanto, os pesquisadores acrescentaram que, hoje em dia, a DoM não representa um “parâmetro fidedigno da extensão completa do envolvimento sexual de um casal, em quase todos os países desenvolvidos”.

Porém, mais de 97% das crianças do estudo JPSS nasceram de pais casados, já que Israel tinha (e ainda têm) uma das menores incidências de crianças nascidas fora do casamento do mundo.

A data do início do casamento no momento do nascimento de cada probando, portanto, “provavelmente pode ser considerada como o limite inferior na extensão do tempo que a mulher foi exposta por via vaginal ao esperma do pai do probando nesta coorte”, escreveram os autores.

Os pesquisadores usaram modelos estatísticos estratificados e contínuos para avaliar o risco de esquizofrenia das crianças e isolaram as seguintes variáveis inter-relacionadas: idade paterna, idade do pai no momento do casamento, diagnóstico de doença psiquiátrica dos pais e DoM.

Sem pais “esquizofrenogênicos”

De toda a amostra de probandos (N = 90.079), quase todos (97,4%) nasceram de mulheres casadas, e os outros nasceram de mulheres divorciadas, viúvas ou que nunca se casaram. A maioria nasceu de casais em relacionamentos estáveis.

A idade dos pais variou de 16 a 80 anos no momento do nascimento (média de idade de 30,5 anos; ± desvio padrão de 6,8 anos; mediana de 30 anos). No total, 1.704 probandos (1,9%) foram excluídos da análise por falta de informações, restando 89.823 crianças. Destas, 552 (348 meninos e 204 meninas) foram diagnosticadas com esquizofrenia.

Os valores representando a idade paterna, a idade do pai no momento do casamento e a extensão do casamento foram significativamente inter-relacionados (P < 0,001).

Descobriu-se que uma DoM mais longínqua teve efeito protetor, com cada cinco anos a mais de casamento predizendo uma redução de 14% no risco (risco relativo, RR, = 0,86 (0,79 a 0,95); tendência de P = 0,0015).

Entre os pais das crianças, foi estabelecido diagnóstico de esquizofrenia ou de “outras doenças psiquiátricas” em 1,2% e 2% das mulheres e 1,2% e 1,6% dos homens, respectivamente.

Os filhos de homens esquizofrênicos tiveram risco quatro vezes maior de esquizofrenia (RR = 4,30; de 2,91 a 6,35; P < 0,0001), enquanto os filhos de homens com outras doenças psiquiátricas tiveram o dobro do risco de esquizofrenia (RR = 1,99; de 1,30 a 3,04; P = 0,0015), em comparação com os filhos de homens sem doença mental.

Entre as mulheres, o diagnóstico de esquizofrenia ou de “outras doenças psiquiátricas” foi associado a risco ainda maior (RR = 6,16; de 4,39 a 8,62; e RR = 2,61; de 1,68 a 4,05; respectivamente – ambos os P < 0,0001).

O risco de transmissão materna da esquizofrenia e de outras doenças psiquiátricas foi maior do que o paterno (43% e 31%, respectivamente), embora as diferenças não tenham alcançado significância estatística.

No entanto, ao ajustar pelas covariáveis das doenças parentais não houve mudança do risco relativo da DoM.

Ao realizar análises estratificadas, os pesquisadores descobriram que o maior risco relativo foi = 1,53 (1,11 a 1,66) para a DoM de menos de dois anos; o risco foi menor para a DoM de dois a quatro anos [RR de 1,38 (1,05-1,81)], comparados com a DoM de ≥ 10 anos.

Nestas análises, os efeitos foram considerados independentes da doença psiquiátrica parental.

Com análises não ajustadas, descobriu-se que a idade do pai no momento do casamento foi significativamente relacionada com o risco de esquizofrenia entre seus filhos (tendência de P < 0,04); entretanto, o risco pela idade avançada do pai ao casar-se foi eliminado ao ajustar pela duração do casamento (RR = 1,18; 0,82 a 1,70).

No entanto, o risco aparentemente associado à idade do pai no momento do casamento (1,27 : < 0,0001) foi eliminado após considerar a DoM e a idade paterna avançada.

O modelo completo final considerou a extensão do casamento, as doenças psiquiátricas dos pais e a idade paterna. Neste modelo, filhos de pais casados há menos tempo apresentaram mais risco de esquizofrenia em comparação com os filhos nascidos de pais casados há pelo menos 10 anos: 2 anos (RR = 1,53 – 1,11 a 1,66); 2 a 4 anos (RR = 1,38 – 1,05-1,81); e 5 a 7 anos (RR = 1,11 (0,87-1,42).

Alternativamente, houve uma diminuição do risco para cada cinco anos de casamento (RR = 0,89; 0,82 a 0,97; tendência P = 0,01).

O mesmo efeito protetor da DoM mais longa foi encontrado quando o modelo foi estratificado pela idade paterna [RR de 0,85 (0,84 a 0,97 P =
0.013].

A Dra. Dolores mencionou estudos anteriores, mostrando que os homens que se casaram mais tarde tiveram mais filhos com esquizofrenia. No entanto, disse a médica: “nós refutamos essa afirmação sobre homens que se casaram mais tarde, mostrando que o risco para seus filhos foi explicado pela breve extensão de seus casamentos antes da concepção e pela idade paterna, portanto não encontramos algo como um “pai esquizofrenogênico”.

Mais estudos “investigarão a fisiologia dessas gestações, mas nós propomos que a intolerância imunológica materna aos antígenos paternos desempenhe algum papel, já que essa reação diminui ao longo do tempo com a exposição sexual”.

Hipótese instigante

Comentando o estudo para o Medscape, o Dr. John McGrath, Ph.D., médico e professor do National Centre for Register based Research na Aarhus University, na Dinamarca, disse que a Dra. Dolores “tem um histórico de criar interessantes novos candidatos a fatores de risco para doenças mentais graves, como a esquizofrenia”.

Os recentes estudos da Dra. Dolores “exploram uma nova hipótese” – de que as crianças que nascem logo após o casamento têm mais risco de esquizofrenia. Dra. Dolores e colaboradores “ofereceram vários potenciais mecanismos que podem explicar isso – por exemplo, a ativação imunológica materna poder ser mais proeminente logo após o casamento”, acrescentou o Dr. John, que não participou do estudo em pauta.

Ele chamou isso de “hipótese testável”, completando que tem certeza de que “este novo estudo irá incentivar muitos estudos de acompanhamento, porque a hipótese é muito instigante”.

A Dra. Dolores sugeriu que o achado é “relevante em função do maior risco de esquizofrenia observado entre primogênitos, que tem sido descrito há muitas décadas. Na ausência de outros fatores de risco conhecidos, isso pode sugerir tanto esquizofrenia como outras doenças inflamatórias em primogênitos”.

O estudo recebeu apoio parcial dos National Institutes of Health e da G. Harold and Leila Y. Mathers Charitable Foundation. A Dra. Dolores, os coautores do estudo e o Dr. John informaram não ter relações financeiras relevantes.

Fonte: Medscap.

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