Pacientes com alto risco de psicose demoram mais para reconhecer emoções

Orlando, Flórida – Lentidão no processamento e na identificação das emoções faciais parece indicar a progressão para a esquizofrenia franca em jovens de alto risco com sintomas psicóticos prodrômicos, mostra nova pesquisa.

O achado de um tempo de reação mais lento nos indivíduos que evoluíram com esquizofrenia, especialmente a demora na identificação verbal das emoções, sugere que transtornos de linguagem podem estar por trás dessa associação. Este achado sugere que testar o tempo de reação pode ajudar a prever quais pacientes têm mais risco de evoluir com esquizofrenia.

Zarina R. Bilgrami

“Esse é o Santo Graal – para impedir que o quadro evolua nas crianças. Quanto mais sabemos sobre os fatores preditivos, maior a expectativa de encontrar maneiras de evitar que isso aconteça. Esse é o Santo Graal para mim”, disse a apresentadora Zarina R. Bilgrami, coordenadora de projeto do Program in Psychosis Risk da Icahn School of Medicine at Mount Sinai (ISMMS), em Nova York.

Os resultados foram apresentados no primeiro congresso anual da Schizophrenia International Research Society (SIRS) 2019.

Progressão incerta

A pesquisadora sênior do estudo, Dra. Cheryl Corcoran, médica da ISMMS e do James J. Peters VA Medical Center, pesquisou a fase prodrômica que precede o início da esquizofrenia e identificou indivíduos com alto risco clínico.

Pessoas que se enquadram na categoria de alto risco clínico são aquelas com sintomas psicóticos atenuados, disse Zarina.

“Por exemplo, em vez de ter alucinações, a pessoa pode ouvir o nome próprio ao vento ou ver vultos pelo canto do olho. Essas pessoas também são muito desconfiadas e ariscas. No entanto, elas ainda percebem que talvez a mente delas esteja pregando peças, em vez de terem o que chamamos de distúrbio psiquiátrico franco, no qual acontecem delírios e alucinações”, explicou Zarina ao Medscape.

Para o estudo, os pesquisadores avaliaram o tempo de reação para o processamento facial em sete jovens com alto risco clínico que progrediram para esquizofrenia, 31 controles saudáveis e 42 jovens com alto risco clínico que não progrediram para esquizofrenia. Os pesquisadores usaram o UPenn battery – um grupo de testes como Emotion Recognition (ER40), Emotion Discrimination (EMODIFF) e Facial Identification.

“Nos concentramos nessa população porque queríamos refinar nossa compreensão sobre o que causa ou permite a progressão nessas pessoas”, disse Zarina.

Em comparação com as pessoas que não progrediram e com os controles saudáveis, os que progrediram tiveram um tempo de reação significativamente mais lento para o reconhecimento da emoção facial (P = 0,008) quando expostos ao rosto de um homem irritado.

Não houve outras diferenças entre os três grupos em relação a distinção de emoções, acuidade ou identificação facial.

O teste preditivo de reconhecimento de emoção exigia que os participantes primeiro dissessem qual emoção estavam vendo e, em seguida, clicassem na resposta correta em uma lista de possíveis emoções.

“Eles precisam mergulhar no próprio vocabulário para encontrar a palavra certa, que descreve a emoção. Depois eles precisam escolher entre as opções da lista e clicar. Então, quando eles vêem uma emoção no rosto de alguém, a resposta é significativamente mais lenta entre os indivíduos que posteriormente evoluem com transtorno psicótico. Com base nesta tarefa, nós somos capazes de ver isso antes que realmente aconteça”, afirmou Zarina.

A coordenação motora, avaliada pela capacidade de mover o mouse e clicar, também foi significativamente mais lenta entre os que progrediram do que os indivíduos no grupo de controle e no grupo que não progrediu para esquizofrenia (P < 0,001).

“O objetivo disso é identificar as pessoas o mais cedo possível. Temos estudado a duração da psicose não tratada e, quanto menor essa duração, melhor é o prognóstico em longo prazo. Então, se pudermos identificar as pessoas muito cedo e ficar de olho nelas, poderemos minimizar a duração da psicose não tratada. Essa é expectativa da nossa pesquisa”, disse Zarina.

Oportunidade de intervenção precoce

Comentando sobre as descobertas para o Medscape, a Dra. Deanna L. Kelly, professora de psiquiatria na University of Maryland School of Medicine, em Baltimore, e diretora do Treatment Research Program no Maryland Psychiatric Research Center, disse que a capacidade de indicar quais pacientes vão evoluir com esquizofrenia entre os pacientes com alto risco clínico ajuda a realizar intervenções e tratamentos mais precoces, o que potencialmente altera o curso inicial da doença.

“Esse grupo de pesquisadores descobriu que entre os pacientes com alto risco clínico, aqueles que evoluíram com esquizofrenia tiveram um tempo de reação significativamente mais lento para reconhecer as emoções das expressões faciais”, afirmou a Dra. Deanna, que não participou da pesquisa em pauta.

“A tarefa usada para identificar emoções exigiu a identificação verbal das emoções, sugerindo uma associação subjacente com um transtorno de linguagem, consistente com outro trabalho deste grupo. Evidências sugerem que as características linguísticas podem fornecer uma maneira de prever aqueles em risco de esquizofrenia”, disse a Dra. Deanna.

O estudo foi financiado pelos National Institutes of Health. A pesquisadora Zarina informou não ter relações financeiras relevantes. A Dra. Deanna informou que prestou consultoria para a Lundbeck e da Alkermes e foi consultora da HLS Therapeutics.

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