Dependentes de smartphone podem ter dificuldade de tomar decisões

Pessoas com dependência de smartphones têm dificuldade de tomar decisões, assim como ocorre na dependência química e comportamental, aponta o estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) publicado em fevereiro no periódico Frontiers in psychiatry. [1] O prejuízo se assemelha ao observado, por exemplo, em jogadores patológicos e compradores compulsivos.

O Dr. Frederico Duarte Garcia, psiquiatra da UFMG, falou ao Medscape sobre o trabalho.

O Dr. Frederico contou que em 2017 a sua equipe validou a versão brasileira do Smartphone Addicition Inventory (SPAI-BR) [1] em uma amostra de 415 universitários entre 18 e 25 anos de idade. A ferramenta, segundo ele, se mostrou adequada para rastrear a dependência de smartphone na população analisada.

Entre as principais características desse quadro estão interrupção ou redução das atividades sociais, ocupacionais e recreativas para se dedicar ao uso do aparelho celular; preocupação constante com a possibilidade de ficar sem o aparelho; e aumento da frequência e intensidade de uso. A pessoa tem dificuldade de controlar o uso do smartphone e apresenta sintomas disfóricos quando fica sem utilizar o aparelho.

No estudo publicado este ano, o grupo utilizou uma subamostra da pesquisa que validou a SPAI-BR. Foram analisados 50 estudantes identificados como dependentes de smartphone e 50 estudantes sem esta dependência (grupo de controle).

A equipe avaliou o processo decisório sob ambiguidade e sob risco. O primeiro tipo está mais relacionado com as decisões diárias e se caracteriza por uma escolha frente a duas possibilidades. Nesse caso, a decisão é tomada sem convicção prévia das probabilidades de cada resultado. No segundo caso, é possível calcular o risco das opções antes de fazer a escolha. A análise foi feita a partir da comparação das respostas condicionadas da condutância da pele que os participantes exibiram durante a aplicação do Iowa Gambling Task (IGT) e do Game of Dice Task (GDT).

Os resultados mostram que os dependentes de smartphone apresentam prejuízo no processo decisório sob ambiguidade, mas não no processo decisório sob risco. A resposta condicionada da condutância da pele foi menor nesse grupo antes de escolhas desvantajosas, maior após recompensas e menor após punições no momento da decisão, o que sugere dificuldade de reconhecer alternativas desvantajosas, alta sensibilidade a recompensas e baixa sensibilidade a punições.

Atualmente, a dependência de smartphone não faz parte da 5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5, sigla do inglês, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th Edition), mas, segundo o Dr. Frederico, muito provavelmente será incluída na próxima edição.

“Durante muito tempo, a psiquiatria se manteve afastada, considerando que as doenças surgiam apenas pela natureza, porém, depois passou a considerar que fatores externos, tal como a tecnologia, podem predispor doenças mentais a partir da exposição a estímulos específicos”, afirmou.

Uma das formas de demonstrar que uma doença psiquiátrica existe é, segundo o especialista, fazendo analogia com quadros já existentes. O Dr. Frederico lembrou que o prejuízo no processo decisório sob ambiguidade verificado nos dependentes de smartphone já havia sido descrito em dependentes químicos, em jogadores patológicos e em compradores compulsivos, o que sugere que a dependência de smartphone é parte dos transtornos aditivos.

“Verificamos também uma tendência de prejuízo no processo decisório sob risco”, destacou.

Para o médico, é muito importante atentar paras os novos padrões de dependência. “O grupo de pesquisa considera que os achados podem contribuir para a criação de medidas preventivas centradas em estratégias de regulação emocional, de conscientização acerca dos sinais e sintomas corporais e em ações que posterguem recompensas”, disse.

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