Cirurgia bariátrica não resolve os problemas de saúde mental dos adolescentes

Glasgow, Escócia — Adolescentes que fizeram cirurgia bariátrica devem ser alertados de que, além da perda ponderal, não irão se curar dos problemas de saúde mental que possam ter, clamam médicos suecos após identificar diagnósticos e tratamentos psiquiátricos ativos até cinco anos após o procedimento.

As descobertas foram apresentadas na European Conference on Obesity (ECO) 2019 pela psicóloga Dra. Kajsa Järvholm, Ph.D., da unidade de obesidade infantil da Skånes universitetssjukhus em Malmö, na Suécia.

Os pesquisadores avaliaram mais de 80 adolescentes que tinham feito a cirurgia bariátrica para obesidade mórbida e foram pareados a jovens com obesidade semelhante que receberam tratamento clínico, com cinco anos de acompanhamento.

Tanto no início do estudo como no acompanhamento, não houve diferença significativa entre os pacientes que fizeram a cirurgia e os controles em termos de uso de medicamentos psiquiátricos.

No entanto, os adolescentes que fizeram a cirurgia tiveram uma probabilidade significativamente maior de serem diagnosticados com alguma doença psiquiátrica e de terem feito tratamento psiquiátrico ambulatorial e hospitalar.

Contudo, cinco anos após o procedimento foi observada melhora da autoestima dos pacientes que fizeram o procedimento, com melhora acentuada do padrão alimentar.

A cirurgia não pode ser “monoterapia” para os adolescentes obesos

A Dra. Kajsa disse que “o que é preocupante” é o que o humor entre os adolescentes que fizeram a cirurgia bariátrica ainda está “abaixo do normal” cinco anos mais tarde.

“Pelo lado bom, podemos ver uma melhora mais sistemática do padrão alimentar e um número muito menor de adolescentes referindo compulsão alimentar durante o acompanhamento.”

Dra. Kajsa destacou que o estudo indica que a cirurgia não pode ser encarada como uma “monoterapia” para os adolescentes obesos.

“O procedimento não vai resolver os seus problemas de saúde mental”, disse a Dra. Kajsa. “Precisamos avisar nossos pacientes que, se eles têm problemas de saúde mental, não devem investir todas as esperanças na perda ponderal e achar que os problemas de saúde mental vão desaparecer.”

A psicóloga insistiu que os médicos continuem a monitorar a saúde mental dos adolescentes que fizeram cirurgia bariátrica durante muitos anos após o procedimento. “Não basta vê-los nos primeiros anos quando estão felizes com a perda do peso”, disse Dra. Kajsa.

“Mais importante ainda, precisamos criar intervenções (…) e descobrir quando é o momento ideal para aplicá-las”, acrescentou Dra. Kajsa.

Convidada a comentar, a Dra. Louise Baur, Ph.D., médica, professora e chefe do serviço de saúde da criança e do adolescente na Sydney Medical School, NSW, na Austrália, codiretora da sessão, reforçou os benefícios da cirurgia bariátrica, porém, reconheceu as suas limitações.

Dra. Louise disse para o Medscape: “A cirurgia bariátrica é uma parte crucial do conjunto terapêutico que precisamos oferecer aos adolescentes com obesidade moderada a mórbida (…) e, muito claramente em vários estudos, leva a melhoras impressionantes do índice de massa corporal (IMC) e dos desfechos cardiometabólicos”.

Todavia a comentarista salientou que a cirurgia “claramente não é uma solução simples para os problemas de saúde mental mais complexos… e estes jovens precisam ser acompanhados e monitorados, provavelmente durante toda a vida”.

“Temos de reconhecer que eles podem ter problemas psicológicos” e “os jovens precisam ter a oportunidade de se tratar” se esses problemas forem identificados.

A Dra. Louise acrescentou que mesmo assim ficou com um “sentimento de esperança”, já que houve melhora de alguns parâmetros da saúde mental entre os pacientes, mesmo se ainda não estivessem tão bem quanto todos gostaríamos que estivessem”.

Desfechos psiquiátricos prolongados

Dra. Kajsa disse que os estudos com adultos indicam que, no primeiro ano após a cirurgia bariátrica, a saúde mental permanece estável ou sofre um baque. No entanto, existem poucos dados sobre desfechos de saúde mental prolongados após a cirurgia, especialmente para os adolescentes.

Como publicado pelo Medscape, Dra. Kajsa e colaboradores mostraram em um estudo anterior que nos dois primeiros anos após a cirurgia de derivação gástrica os adolescentes apresentaram melhora importante da saúde mental, embora um subgrupo tenha tido sintomas depressivos importantes.

Avaliando a saúde mental durante um período prolongado, os autores estudaram adolescentes que fizeram cirurgia bariátrica e um grupo pareado por idade com obesidade mórbida tratado clinicamente.

Os pacientes que fizeram a cirurgia precisavam ter entre 13 e 18 anos de idade, índice de massa corporal ≥ 40 kg/m2 ou > 35 kg/m2 com comorbidades, e não ter respondido ao tratamento convencional.

A equipe estudou as informações dadas pelos próprios pacientes sobre a saúde mental e os problemas relacionados com a alimentação por meio de uma série de questionários, e o IMC foi verificado no início do estudo e no 1º, 2º e 5º anos.

Além disso, os pesquisadores coletaram dados sobre medicamentos prescritos e dispensados do Svenska receptbelagda läkemedelsregistret, e dados ambulatoriais e hospitalares do Nationellt patientregister sobre transtornos mentais e comportamentais.

Oitenta e um pacientes que fizeram a cirurgia e 80 controles participaram do estudo, dos quais 65% e 56%, respectivamente, eram do sexo feminino. A média de idade dos participantes ao início do estudo foi de aproximadamente 16 anos nos dois grupos, e a média do IMC inicial foi de 45,5 kg/m2 no grupo da cirurgia e 42,2 kg/m2 no grupo de controle.

Como esperado, a média do IMC no quinto ano de acompanhamento foi significativamente menor entre os pacientes que fizeram cirurgia, de 32,3 kg/m2, enquanto permaneceu relativamente estável entre os pacientes do grupo de controle, de 41,7 kg/m2.

Os pesquisadores descobriram que o uso de medicamentos psiquiátricos foi comparável entre os pacientes que fizeram a cirurgia e os controles ao início do estudo, e maior do que o observado na população geral.

Por exemplo, 20% dos pacientes que fizeram a cirurgia e 15% dos controles tinham tomado algum medicamento psiquiátrico, com 10% e 11%, respectivamente, tendo tomado psicolépticos.

Após cinco anos de acompanhamento, o uso de medicamentos psiquiátricos aumentou significativamente tanto entre os pacientes que fizeram a cirurgia como entre os controles, e manteve-se semelhante entre os dois grupos, em 43% e 34%, respectivamente.

Mais pacientes que fizeram a cirurgia precisaram de tratamento psiquiátrico

No entanto, quando a equipe investigou os diagnósticos psiquiátricos e o atendimento hospitalar ou ambulatorial, encontrou um quadro diferente.

Ao início do estudo, mais uma vez, não houve diferença significativa entre os pacientes que fizeram a cirurgia e os controles, com 20% e 18%, respectivamente, tendo algum diagnóstico psiquiátrico.

Além disso, 7% dos pacientes que fizeram a cirurgia e 5% dos controles precisaram de internação psiquiátrica e 17% e 15%, respectivamente, fizeram tratamento ambulatorial.

Em cinco anos, os pacientes que fizeram cirurgia foram, no entanto, significativamente mais propensos do que os controles a serem diagnosticados com alguma doença psiquiátrica (36% vs. 21%; = 0,041).

Os pacientes que fizeram cirurgia também tiveram uma probabilidade significativamente maior de precisar de internação psiquiátrica do que os controles (11% vs. 2%; = 0,03) e fazer acompanhamento ambulatorial (36% vs.21%; = 0,041).

Dra. Kajsa ressaltou, porém, que “como este não é um estudo randomizado, não sabemos se isto foi causado pela cirurgia ou não”.

“Podem existir outras diferenças entre os grupos, ou podemos estar sendo melhores em fazer o diagnóstico e oferecer tratamento.”

Voltando ao fato de as informações sobre a saúde mental terem sido dadas pelos próprios pacientes, os pesquisadores observaram poucas mudanças na pontuação entre o início do estudo e os anos 1, 2 ou 5 de acompanhamento para os adolescentes que fizeram a cirurgia bariátrica.

No entanto, os que fizeram a cirurgia tiveram melhora significativa da pontuação de autoestima entre o início do estudo e o quinto ano (= 0,006), bem como da ativação (= 0,018), sugerindo maior disposição de participar ativamente do tratamento.

Também houve melhoras significativas dos problemas relacionados com a alimentação entre os pacientes que fizeram a cirurgia desde o início do estudo até o quinto ano de acompanhamento, inclusive em termos de compulsão alimentar (< 0,001), comer emocionalmente (< 0,001), comer descontroladamente (< 0,001) e contenção cognitiva (= 0,001).

A equipe não encontrou nenhum fator de base que previsse alterações do IMC durante o acompanhamento.

No entanto, autoestima mais baixa e humor deprimido, assim como problemas relacionados com alimentação elevados no segundo ano foram associados a menor perda do IMC em cinco anos, bem como alimentação emocional e compulsiva no quinto ano.

“A cirurgia bariátrica parece proporcionar melhora prolongada apenas dos problemas relacionados com a alimentação, mas não parece importante para aliviar os problemas de saúde mental”, disseram a Dra. Kajsa e sua equipe.

“Em comparação com os controles pareados, os adolescentes que fizeram cirurgia bariátrica foram significativamente mais atendidos no hospital e no ambulatório por problemas mentais”.

Falar faz bem

Durante a discussão depois da apresentação, o Dr. John Roger Andersen, Ph.D., da Høgskolen på Vestlandet, em Førde, Noruega, perguntou à Dra. Kajsa como os médicos podem identificar os pacientes que não estão evoluindo bem após a cirurgia e engajá-los no próprio tratamento como parceiros.

A psicóloga sugeriu que os médicos “precisam rastrear os problemas de saúde mental muito mais do que fazemos atualmente no tratamento da obesidade, e isso não é apenas para os pacientes que querem ser operados. Precisamos fazer isso em todo o tratamento da obesidade”.

Dra. Kajsa acrescentou que “precisamos conversar muito mais sobre os problemas de saúde mental e informar os adolescentes que eles podem tratar seus problemas da saúde mental, em vez de apenas perder peso”.

E após a cirurgia bariátrica, uma equipe multidisciplinar deve estar preparada para oferecer um acompanhamento prolongado, reforçou a pesquisadora.

“Estamos vivendo em uma sociedade que nos diz que você vai ficar feliz se perder o peso, e todos são ‘iludidos’ por isso”.

“Às vezes, quando encaminhamos nossos adolescentes para atendimento psiquiátrico, falamos muito sobre a perda ponderal, dizendo: ‘Se você tentar perder algum peso você vai se sentir melhor consigo'”.

“Mas isso não parece ser verdade”, concluiu a psicóloga.

A pesquisa foi financiada pelo Svenska forskningsrådet, Vinnova, Svenska Hjärt Lungfonden, Västra Götalands forskningsråd e pela Svenska Frimurare Child Foundation. Torsten Olbers informou receber remuneração das empresas Johnson & Johnson, Novo Nordisk, Mölnlycke e Merck.

 

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