Alimentos com maconha: fraudes e falta de informação em rótulos geram transtorno nos EUA

Ao chegar de ambulância ao hospital, um senhor de 70 anos de idade disse que se sentia como se estivesse morrendo. Ele estava pálido, nauseado e se queixava de precordialgia intensa. “Ele teve alucinações em casa”, disse a médica que o atendeu, Dra. Alexandra Saunders, chefe dos residentes do Dalhousie University in St John, no Canadá. A equipe médica rapidamente constatou que ele havia infartado.

O paciente tinha chupado um pirulito com maconha dado por um amigo, que pensou que isso poderia ajudá-lo a dormir. “Eu não sei se podemos dizer o que causou o infarto”, disse a Dra. Alexandra, informando que o paciente tinha doença cardíaca preexistente. “Não existem orientações suficientes para sabermos o que seria uma dose segura”.

Outros especialistas da área da saúde compartilharam suas preocupações sobre o canabidiol (CBD) comestível, como chocolates, brownies e outras guloseimas, lanches, bebidas e até pizza.

canabidiol é um dos mais de 100 canabinoides encontrados na Cannabis. É creditado como uma substância que traz benefícios para uma miríade de problemas de saúde, como ansiedade, insônia e convulsões. O canabidiol comestível pode ser proveniente do cânhamo ou da maconha. Os canabinoides provenientes da maconha, vendidos apenas nos estados dos EUA onde são legalizados, são o canabinoide com alto teor de tetraidrocanabinol (THC) junto com o canabidiol. Os provenientes do cânhamo são o canabidiol com menos de 0,3% de THC.

O que preocupa em relação à maconha comestível é a ingestão de teores muito altos de THC. No Colorado, onde o uso recreativo da maconha é legalizado, pesquisadores revisaram mais de 2.500 atendimentos nos prontos-socorros relacionados com o uso de Cannabis de 2012 até 2016, e constataram que o percentual de atendimentos foi maior para a Cannabisinalada, mas que os pacientes usando maconha comestível tiveram mais probabilidade de ter sintomas psiquiátricos e problemas cardiovasculares.

De acordo com os especialistas, a embalagem tanto do cânhamo como da maconha comestíveis é um problema. Os consumidores não conseguem ter certeza se a informação que consta no rótulo de fato é o que o produto contém. Em um estudo feito em 2015, pesquisadores avaliaram 75 produtos comestíveis de maconha, dos quais apenas 17% estavam corretamente identificados.

Mercado de comestíveis em expansão

Apesar das preocupações, o mercado está em expansão. Em 2018, o mercado de comestíveis com Cannabis foi de 2,3 bilhões de dólares, disse Bethany Gomez, diretora do Brightfield Group, uma empresa de pesquisa de mercado. Até 2022, a previsão é que chegue a 5,3 bilhões de dólares, incluindo o uso recreativo e medicinal. Em 2018, o mercado dos produtos alimentares de cânhamo e de canabidiol foi de 100,2 milhões de dólares, afirmou Bethany, e estima-se que chegará a 4,9 bilhões até 2022.

O que diz a FDA

Apesar da popularidade, nenhum tipo de canabidiol comestível – do cânhamo ou da maconha – é considerado legal pelo governo federal, pelo menos ainda não.

Farm Bill de 2018 (Agriculture Improvement Act of 2018) reconheceu uma nova categoria de Cannabis classificada como “cânhamo”, definida como Cannabis e derivados da Cannabis com menos de 0,3% de concentração de THC. Esta decisão retirou o cânhamo da Lei Federal de Substâncias Controladas. Mesmo assim, a Food and Drug Administration (FDA) norte-americana manteve sua prerrogativa de regular os produtos com Cannabis ou compostos derivados de Cannabis – sob a égide do Federal Food, Drug and Cosmetic Act.

Como resultado, a FDA diz que não é lícito introduzir alimentos com acréscimo de canabidiol ou THC no comércio interestadual ou comercializar os produtos como suplementos alimentares ou acrescentados aos suplementos.

Mas essa atitude pode mudar. A FDA está formando um grupo para explorar as formas de fazer suplementos ou alimentos com THC para serem comercializadas legalmente. Uma audiência em 31 de maio vai permitir que as pessoas troquem informações e objeções sobre esses produtos.

Mas até que isso aconteça, a FDA está inabalável. No início de abril, enviou cartas de advertência para três empresas que comercializam produtos contendo canabidiol, inclusive comestíveis, por propaganda enganosa.

Consumidor, fique alerta

Além da FDA, a situação jurídica dos comestíveis é confusa, para dizer o mínimo, disse Martin Lee, cofundador e diretor do Project CBD, um websiteinformativo sobre a Cannabis medicinal.

“Agora, o cânhamo não está mais enquadrado na Lei de Substâncias Controladas, mas a FDA não considera o canabidiol comestível, de cânhamo ou maconha, legal”, disse Martin.

Alguns estados proibiram o canabidiol comestível, se alinhando à FDA. Em fevereiro, o North Carolina Department of Agriculture and Consumer Servicesemitiu cartas para os fabricantes e varejistas, avisando-os que, pelas leis da FDA, o canabidiol é uma droga e “legalmente não pode ser acrescentado a nenhum tipo de alimento humano ou animal para a venda”.

O New York City’s Department of Health and Mental Hygiene tem alertado os estabelecimentos de venda de alimentos e varejistas a não acrescentarem canabidiol nos alimentos e bebidas. Se não se adequarem até 1o de julho, correm o risco de precisar devolver os produtos ao fornecedor ou descartá-los. A partir de 1o de outubro, o departamento emitirá autos de infração e talvez até multas.

Depois de tornar ilegais os produtos do cânhamo nos alimentos no início deste ano, o estado do Maine mudou de rumo no final de março, quando o governador assinou um projeto de lei liberando esses produtos.

Exigências de testes

Não existem exigências universais de testes para o canabidiol comestível.

Mas a grande maioria dos estados que legalizaram a maconha tem algum tipo de teste para os produtos de canabidiol derivados da maconha, disse Bethany, do Brightfield Group.

Os consumidores maiores de 21 anos que vivem nos estados onde a maconha é legalizada podem se sentir mais confiantes comprando produtos de canabidiol da maconha de um dispensário, disse Martin do projeto do canabidiol.

Sobre o canabidiol do cânhamo, Bethany disse que algumas empresas estão fazendo testes voluntários, incluindo códigos QR (do inglês, quick response) nas etiquetas ou colocando identificadores nos produtos, para que os consumidores possam ir rapidamente para o link do site do fabricante e verificar se o produto é legítimo.

Em março, 13 empresas produtoras de cânhamo receberam permissão para usar o selo de certificação da Hemp Authority (Certified Seal of the US Hemp Authority) em seus produtos. Para obter esse selo, as empresas precisaram cumprir os requisitos de autorregulação e serem aprovadas em uma auditoria realizada por terceiros, entre outras medidas. A Hemp Authority é uma organização independente, lançada com dinheiro de semente de cânhamo da US Hemp Roundtable, uma organização industrial de empresas produtoras de cânhamo.

Comestíveis: leitura dos rótulos

Até os comestíveis obterem o beneplácito da FDA, os consumidores podem fazer a sua própria pesquisa antes de comprar comestíveis de canabidiol.

Se você estiver procurando canabidiol de cânhamo, “certifique-se na embalagem de que é cânhamo e não tem altos níveis de THC, a menos que seja o que você quer”, disse Jonathan Miller, conselheiro geral da US Hemp Roundtable.

“Existem muitos produtos que são fraudes”, disse Jonathan. “Às vezes não contêm nem sombra de canabidiol. Outras vezes, têm mais THC do que o permitido nos produtos de cânhamo”.

Para os comestíveis produzidos em algum estado onde a maconha é legalizada, “muitos dos requisitos de teste em alguns estados são bem rigorosos”, disse Bethany. É mais provável que os consumidores consigam saber o que os comestíveis derivados de maconha contêm quando são produzidos nos mercados regulamentados. Bethany reconheceu que certamente existe um problema com o mercado negro dos produtos de canabidiol derivados da maconha.

“Se o produto tiver cara de ter sido feito no fundo do quintal de alguém, provavelmente foi”, disse Bethany.

Ressalvas

Mesmo se o rótulo de um produto de canabidiol informar precisamente o seu conteúdo, “apenas o rótulo na embalagem não vai resolver o maior problema”, disse Paul Armentano, vice-diretor da NORML (National Organization for the Reform of Marijuana Laws). “Não é só uma questão de rotulagem, é uma questão de educação”.

O público em geral, disse Paul, não sabe que “a forma como o corpo responde à Cannabis quando ela é inalada é totalmente diferente da maneira como o corpo reage quando é ingerida”.

A maconha comestível leva mais tempo para fazer efeito. E quando faz, dura mais tempo, afirma Paul.

Quando a maconha comestível é ingerida, o nível sérico máximo de THC ocorre em cerca de três horas, comparado aos 30 minutos quando inalada, disse a Dra. Nora Volkow, médica e diretora do National Institute on Drug Abuse dos National Institutes of Health e coautora do editorial que acompanha o estudo feito no Colorado sobre os atendimentos em prontos-socorros por quadros relacionados com Cannabis comestível.

Bethany aconselha que quem pretende experimentar o canabidiol comestível de maconha: “Comece com pouco e pegue leve. Você não sabe o nível da dose que vai interagir com seu corpo. Definitivamente, comece com pequenas quantidades e aguarde antes de comer mais”.

A Dra. Lisa Dabby, médica emergencista no UCLA Medical Center, na Califórnia, deseja que mais pessoas acatem esse conselho. “Eu provavelmente atendo uma pessoa por semana ou a cada duas semanas com alguma complicação após a ingestão de Cannabis comestível”, disse a Dra. Lisa. Os sintomas são: vômitos incoercíveis, frequência cardíaca acelerada e ansiedade.

Os consumidores não são os únicos que precisam de mais orientação sobre os efeitos dos produtos comestíveis, disse Paul. Os varejistas também precisam ser orientados. Incluir informações no rótulo alertando os usuários a aguardar algum tempo antes de ingerir mais comestíveis contendo THC também seria de grande ajuda, afirmou Paul.

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