Prevalência de depressão entre mulheres estudantes de medicina aumenta de acordo com desigualdade de gênero

Entre os estudantes de medicina a prevalência de depressão é maior no gênero feminino. Isso é o que mostra análise de metarregressão global publicada na edição de abril do periódico Journal of Psychiatric Research. [1]Segundo os pesquisadores da Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória e colaboradores da China, dos Estados Unidos e de Singapura, os resultados mostram que as disparidades nas prevalências observadas em homens e mulheres podem ser explicadas pelo efeito da desigualdade de gênero: países com maior desigualdade de gênero apresentaram maiores taxas de depressão entre as estudantes.

O Dr. João Pedro Gonçalves Pacheco, médico e autor da pesquisa, falou ao Medscape sobre o trabalho.

Por meio de busca em plataformas científicas (MEDLINE, EMBASE, PsycINFO, WanFang, Scielo e LILACS), os autores identificaram 10 revisões sistemáticas ou metanálises que abordaram o tema. Ao todo, foram incluídos 106 estudos, somando o total de 84.119 estudantes de medicina. As pesquisas continham dados de 32 países.

No site do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas foram obtidos índices de desigualdade de gênero (IDG) e de desenvolvimento humano (IDH) dos países incluídos na pesquisa. Como houve estudos de diferentes anos, os autores usaram IDG e IDH diferentes.

A Dinamarca foi o país que apresentou menor desigualdade de gênero, com IDG em 2014 de 0,042, enquanto a Arábia Saudita apresentou o maior índice: 0,671 (2007). O IDG médio foi de 0,344. Com relação ao IDH, o valor mais alto foi observado na Austrália, em 2016, e o mais baixo no Paquistão, em 2003: 0,938 versus 0,473. O IDH médio foi 0,779.

De acordo com o Dr. João Pedro, a amostra incluiu 16 estudos brasileiros publicados entre 2006 e 2015, somando 4.052 estudantes brasileiros. O IDG do Brasil variou de 0,413 (estudos mais recentes) a 0,467 (estudos mais antigos) e o IDH variou de 0,702 (estudos mais antigos) a 0,757 (estudos mais recentes).

A análise revelou que estudantes de medicina do sexo feminino têm mais chance de ter depressão (razão de chances ou odds ratio, OR, de 1,30; intervalo de confiança, IC, de 95%, de 1,17 a 1,44; P < 0,01). Além disso, o grupo identificou uma correlação significativa entre o IDG e a prevalência de depressão na população feminina. Isso significa que, conforme a desigualdade de gênero aumenta, a prevalência de depressão também cresce entre as estudantes de medicina, porém o mesmo não foi verificado para os estudantes do sexo masculino.

Estudos epidemiológicos já apontam que, na população geral, a prevalência de depressão é maior em mulheres a partir da adolescência. Para o Dr. João Pedro, o resultado observado entre as estudantes de medicina pode, em parte, ser considerado um reflexo desse padrão, pois estressores sociais semelhantes incidem nos dois grupos. No entanto, ele explicou ao Medscapeque faltam evidências, no momento, para determinar se existem fatores específicos que contribuam para uma prevalência ainda mais acentuada no gênero feminino entre estudantes de medicina.

“É possível e razoável que seja aventada a hipótese de que sim. Sabe-se, por exemplo, que apenas uma fração de 15,7% de estudantes de medicina com sintomatologia depressiva procura tratamento. [2] Outros estressores específicos são conhecidos: extensa carga horária, complexidade do currículo, pressões financeiras, e expectativas dos familiares e da sociedade, entre outros. De que forma esses fatores interagem, e se eles levam a ainda maior sofrimento psicológico no grupo feminino de estudantes de medicina, é um tópico a ser abordado em estudos futuros”, ressaltou.

Embora a pesquisa tenha mostrado associação entre desigualdade de gênero e depressão nas estudantes, o médico explicou que, atualmente, a evidência científica existente não é forte o suficiente para que seja possível afirmar que reduzir a desigualdade de gênero irá reduzir a prevalência de depressão. Contudo, afirmou ele, os estudos existentes apontam para a plausibilidade dessa hipótese.

“É claro, políticas públicas e esforços institucionais devem ser feitos no sentido de garantir a ambos os gêneros oportunidades iguais, sem entraves com base em discriminação. As expectativas são as melhores de que medidas nesse sentido tenham impacto positivo na saúde mental das mulheres, potencialmente levando a menores prevalências de depressão”, disse o Dr. João Pedro, acrescentando que, para corroborar essa hipótese, “é necessário um estudo intervencionista controlado, no qual o pesquisador ativamente produza uma ação, tendo em vista proporcionar maior igualdade de oportunidade entre gêneros e que o efeito esperado seja observado na população de teste, quando comparado à população de controle”.

De qualquer forma, as informações obtidas podem auxiliar especialistas no dia a dia. Segundo o médico, é importante que psiquiatras e psicólogos estejam cientes dos fatores específicos que potencialmente contribuem para a depressão (e possivelmente burnout e transtornos de ansiedade) em estudantes do sexo feminino do curso de medicina, bem como de outras graduações.

“Alguns fatores que a literatura mostra são, por exemplo, assédio, abuso moral, coerção sexual, comentários cínicos sexistas (com base em descrença nas habilidades das profissionais do sexo feminino). Pode ser útil investigar essas questões junto aos pacientes, uma vez que elas podem ser situações estressantes recorrentes, causando prejuízos psicossociais”, afirmou.

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