Jogadores de futebol profissional têm maior risco de ELA

Jogadores de futebol profissional têm risco aumentado de esclerose lateral amiotrófica (ELA) em comparação com a população geral, e eles parecem apresentar a doença cerca de 20 anos mais cedo, segundo os resultados preliminares de um novo estudo.

Dr. Ettore Beghi

Esses resultados reforçam o argumento de que fatores ambientais contribuem para a ELA, disse ao Medscape, o primeiro autor do estudo, Dr. Ettore Beghi, médico e chefe do laboratório de distúrbios neurológicos, Departamento de Neurociências, Mario Negri Institute for Pharmacological Research, em Milão, na Itália, que é membro da American e da European Academies of Neurology.

Estes achados devem fazer com que os médicos “orientem seus pacientes a prevenir lesões na cabeça”, disse o Dr. Ettore.

O estudo será apresentado no congresso American Academy of Neurology(AAN) Annual Meeting de 2019.

Figurinhas de futebol

A associação entre a ELA e o futebol tem ganhado atenção após a morte de jogadores italianos pela doença. O papel que este e outros fatores ambientais ou genéticos desempenham no desenvolvimento da ELA ainda não foi determinado.

Para este novo estudo, o Dr. Ettore e outros pesquisadores recorreram aos arquivos de uma editora popular de figurinhas colecionáveis de jogadores italianos. Eles identificaram todos os jogadores profissionais de futebol de 1959 a 2000.

Eles registraram a data, o local de nascimento e a posição de cada um dos 23.875 jogadores identificados.

Para descobrir os casos de ELA, os pesquisadores recorreram a várias fontes, como jornais, internet e relatórios científicos.

Os pesquisadores calcularam a taxa de incidência (número de casos por 100.000 pessoas-ano) na coorte de jogadores de futebol, e usaram registros oficiais italianos para determinar a taxa que seria esperada na população geral.

Eles também calcularam a taxa de incidência padronizada (TIP), a incidência observada versus a esperada de ELA para as diferentes faixas etárias.

Os pesquisadores identificaram 33 jogadores que tiveram ELA (3,2 casos por 100.000 por ano). O número de casos esperados foi de 17,6 (1,7 casos por 100.000 por ano).

A TIP foi de 1,9 (intervalo de confiança, IC, de 95% de 1,3 a 2,6) na amostra de futebol. No entanto, a TIP foi de 4,7 (IC 95% de 2,7 a 7,5) em pessoas com menos de 45 anos de idade no momento do diagnóstico.

A mediana de idade dos jogadores no momento do diagnóstico de ELA foi de 43,3 anos, em comparação com 62,5 anos na população geral.

“Ao estratificar os dados por faixas etárias, encontramos um aumento de quase cinco vezes no risco de ELA entre ex-jogadores de futebol, ao concentrar a análise em pessoas que foram diagnosticadas com a doença antes dos 45 anos”, disse o Dr. Ettore. “Isso significa que ex-jogadores de futebol tendem a ter ELA em uma idade significativamente mais jovem em comparação com o resto da população”.

traumatismo craniano repetido pode ser o elo entre o futebol e a ELA. O Dr. Ettore e sua equipe de pesquisa já demostraram que pacientes com ELA relatam uma história de lesões na cabeça com mais frequência do que aqueles sem ELA.

O jogadores profissionais de futebol são extremamente ativos fisicamente. Alguns dados publicados indicam uma associação entre atividade física e ELA, disse o Dr. Ettore.

“Os jogadores de futebol também usam anti-inflamatórios não esteroides e talvez alguns suplementos nutricionais, e ambos foram implicados nos mecanismos da doença.”

O Dr. Ettore enfatizou que é possível que esses fatores tenham importância apenas em indivíduos geneticamente predispostos.

Os pesquisadores também avaliaram o efeito da posição do jogador e descobriram que mais meio-campistas desenvolveram ELA em comparação com atacantes, defensores ou goleiros. Meio de campo é a posição mais comum em um time de futebol, então essa descoberta não é tão significativa, disse.

Os pesquisadores não tinham informações sobre o nível de atividade em campo, mas sabiam os anos em que os jogadores começaram a sua carreira. “O risco maior foi significativo para pessoas que jogaram antes de 1965 e entre 1975 e 1984”, disse o Dr. Ettore. “No momento, não podemos interpretar esses achados”.

Os pesquisadores agora planejam estudar a ocorrência de demência e doença de Parkinson em ex-jogadores de futebol.

Nova metodologia

Em seus comentários sobre o estudo, o Dr. Stephen Goutman, médico e diretor da Multidisciplinary ALS Clinic, e professor associado de neurologia, da University of Michigan, em Ann Arbor, considerou a metodologia “bastante nova”.

O estudo baseia-se no elevado risco de ELA observado entre os jogadores de futebol italianos “de uma forma muito sistemática”, usando figurinhas de futebol e rastreando cada jogador ao longo do tempo para determinar se eles desenvolveram a doença, disse o Dr. Stephen. “Isso é algo nunca visto na ELA”.

O Dr. Stephen disse que gostaria de saber o que está por trás do diagnóstico de ELA em idade mais jovem entre jogadores de futebol. Ele lembrou que os pesquisadores não conheciam a história genética dos jogadores e não tinham amostras biológicas ou DNA para serem avaliados.

“Será que eles são tão ativos fisicamente que queimam seus neurônios motores mais rápido, ou é algum outro fator que não conhecemos?”

O Dr. Stephen elaborou duas possíveis explicações para o fato de jogar futebol em nível profissional aumentar o risco de ELA.

Ponto de inflexão

A primeira é a exposição à atividade física rigorosa, que aumenta ligeiramente o risco de ELA. “Parece haver algum ponto de inflexão onde muita atividade física aumenta o risco de ELA”, disse o Dr. Stephen.

Mas o mecanismo que explica a associação com a atividade física rigorosa, mas não com a moderada ainda não é claro. “Não sabemos o que causa essa mudança – de algo que é moderado e não parece aumentar o risco para os neurônios motores para algo mais grave”.

O Dr. Stephen enfatizou que os benefícios cardiovasculares de fazer atividade física são maiores do que o risco de ELA.

A segunda explicação – a hipótese do traumatismo craniano – tem sido muito pesquisada ultimamente.

Mas existem outros fatores associados ao aumento do risco de ELA, como a exposição a produtos químicos, como fertilizantes. Alguns ofícios, por exemplo, operadores de linhas elétricas, parecem ter maior incidência da doença.

Os membros do exército dos Estados Unidos também parecem ter um risco maior, possivelmente por causa da atividade física realizada ou do traumatismo craniano, ou da exposição à produtos químicos durante os combates, disse o Dr. Stephen.

Os pesquisadores de ELA têm a intenção de identificar com maior grau de certeza os fatores desencadeadores da suscetibilidade à ELA.

“Há muitas boas evidências mostrando essas associações, e precisamos continuar a encontrá-las, mas também precisamos começar a ligar os pontos para que possamos passar da associação à causalidade”, disse ele.

Se os pesquisadores puderem explicar esses mecanismos, isso poderá criar oportunidades de intervenção, segundo o Dr. Stephen. Por exemplo, se o esforço físico extremo estiver positivamente ligado à ELA, as pessoas com um risco genético de ELA podem ser orientadas a não fazer exercício intenso.

Dr. Ettore Beghi e Dr. Stephen Goutman informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

 

Fonte: Medscape

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