HOPE-3: redução da PA ou dos lipídios não tem efeitos na cognição

Os resultados sobre cognição do estudo HOPE-3, que pesquisou a redução da pressão arterial (PA) e do colesterol em indivíduos sem doença cardiovascular conhecida ou necessidade de tratamento, mas com risco cardiovascular moderado, foram publicados recentemente.

Enquanto os resultados gerais, incialmente apresentados no American Heart Association Scientific Sessions em 2016, não mostraram nenhum efeito de qualquer estratégia de tratamento no declínio cognitivo, os resultados de uma análise exploratória sugerem alguma redução no declínio cognitivo no grupo de maior risco.

Os resultados sobre cognição foram publicados on-line em 27 de fevereiro no periódico Neurology.

“À primeira vista, nossos resultados não sugerem um benefício da redução da pressão arterial na função cognitiva. No entanto, quando nos aprofundamos na análise post hoc, parece haver algum benefício do tratamento nos pacientes com maior risco”, disse ao Medscape a primeira autora, Dra. Jackie Bosch, Ph.D., da McMaster University,em Hamilton, Canadá.

Ela destacou que isso vai ao encontro do estudo SPRINT MIND, que mostrou que houve uma redução no declínio cognitivo no grupo com redução mais agressiva da pressão arterial.

“O estudo SPRINT envolveu uma população de risco muito maior, com todos os pacientes com hipertensão e pesquisou diferentes metas de tratamento”, observou a Dra. Jackie. “O HOPE-3 envolveu uma população com risco cardiovascular moderado, mas, na verdade, a maioria dos participantes não tinha hipertensão”.

O objetivo era avaliar se uma estratégia geral de redução da pressão arterial a um certo nível de risco cardiovascular teria um benefício sobre a cognição – mesmo que os participantes não fossem hipertensos no início do estudo, disse ela.

“A teoria por trás disso é que, como sabemos que a pressão arterial elevada está intimamente associada a acidente vascular cerebral (AVC) e ataque isquêmico transitório (AIT), pensamos que, nos pacientes com disfunção vascular, a redução do estresse na parede do vaso poderia melhorar a perfusão cerebral e reduzir os AVC subclínicos e, portanto, o declínio cognitivo. Mas não foi o caso, o que foi decepcionante”, disse a Dra. Jackie.

No entanto, eles observaram algo no grupo de pacientes com risco mais alto, que tinham hipertensão no início do estudo. “Isso sugere que os efeitos negativos da pressão arterial em indivíduos com risco cardiovascular moderado são apenas evidentes naqueles com pressão acima do limiar da hipertensão”.

Observando que o estudo da cognição incluía apenas indivíduos a partir de 70 anos de idade, a Dra. Jackie disse: “Nossos resultados podem sugerir que se você chegou aos 70 anos com pressão arterial normal provavelmente não terá problemas vasculares importantes no futuro, como AVC e declínio cognitivo secundário ao aumento da pressão arterial“.

Resultados neutros quanto aos lipídios: boas notícias?

Sobre os resultados nulos com redução geral de lipídios, a Dra. Jackie disse: “O colesterol não tem uma relação tão forte com o AVC quanto a pressão arterial, então talvez tenha sido ambicioso esperar reduzir o declínio cognitivo diminuindo o colesterol. Mas, embora um benefício no declínio cognitivo com a estatina fosse desejável, o fato de não observarmos nenhuma diferença ainda é um resultado positivo”.

“Houve preocupação sobre possíveis efeitos prejudiciais na memória com estatinas a partir de estudos observacionais e relatos anedóticos, levando a FDA norte-americana a emitir um alerta sobre o assunto na informação de prescrição”, continuou a Dra. Jackie. “No entanto, nossos resultados não mostram nenhum declínio cognitivo adicional em indivíduos que tomaram estatina em relação àqueles que receberam placebo, então realmente são tranquilizadores neste aspecto”.

Dra. Jackie salientou que os resultados atuais não devem diminuir em nada as observações anteriores de que uma dieta saudável e exercícios regulares podem ajudar a evitar o declínio cognitivo.

“Esses benefícios podem ser mediados por muitos mecanismos diferentes – não apenas via redução dos lipídios ou da pressão arterial. Todo o pacote de viver bem na meia-idade para ter benefícios na terceira idade é definitivamente uma boa abordagem”, disse ela.

O estudo principal do HOPE-3 envolveu 12.105 participantes (homens com 55 anos ou mais e mulheres com 65 anos ou mais com pelo menos um fator de risco cardiovascular clínico adicional; ou mulheres com 60 anos ou mais com dois fatores de risco adicionais).

Eles foram distribuídos aleatoriamente em um desenho fatorial 2 × 2 para redução da pressão arterial com candesartana associada a hidroclorotiazida(HCTZ), redução do colesterol com rosuvastatina, a combinação dos dois ou placebo.

Os resultados principais mostraram, após um acompanhamento médio de 5,6 anos, nenhum efeito do tratamento de redução da pressão arterial nos eventos vasculares em geral, mas redução de 24% nos eventos naqueles com os níveis basais mais elevados de pressão arterial; a rosuvastatina reduziu os eventos vasculares em 25% em todos os participantes.

A publicação atual tem como foco o subestudo de cognição realizado nos participantes com 70 anos ou mais no início do estudo (média de 74 anos), com 1.626 indivíduos completando os testes cognitivos no início e no final do estudo (mediana de acompanhamento de 5,7 anos).

Nesta população, a associação candesartana/HCTZ reduziu a pressão arterial sistólica em 6,0 mmHg e a rosuvastatina reduziu o colesterol LDL em 24,8 mg/dl.

Os resultados não mostraram diferença no desfecho primário – mudança na pontuação do Digit Symbol Substitution Test (DSST). No geral, houve um declínio médio na pontuação do DSST de 5,4 em relação ao início do estudo. A diferença média na mudança nas pontuações do DSST foi de – 0,91 (intervalo de confiança, IC, de 95%, de – 2,25 a 0,42) para candesartana/HCTZ em comparação com placebo, de – 0,54 (- 1,88 a 0,80) para rosuvastatina em comparação com placebo, e de – 1,43 (- 3,37 a 0,50) para terapia combinada em relação a placebo duplo.

Não foram observadas diferenças significativas para duas outras medidas de cognição – a Montreal Cognitive Assessment (mMoCA) modificada e a Trail Making Test Part B (TMT-B).

Em uma análise exploratória de subgrupo dos 181 participantes no tercil mais alto de pressão arterial sistólica no início do estudo (média de 156 mmHg) e o tercil mais alto de LDL no início do estudo (média 164 mg/dl), que foram tratados com a combinação de medicamentos hipolipemiantes e anti-hipertensivos em comparação com placebo duplo, houve uma redução significativa no declínio cognitivo medido pelo DSST (redução na pontuação de 5,84 em relação a 10,30 pontos, P para relação = 0,04).

“Nossos resultados, que indicam um efeito da redução combinada da pressão arterial e dos lipídios na prevenção do declínio cognitivo naqueles com os níveis iniciais mais altos de pressão arterial, sugerem que aqueles com maior risco cardiovascular podem se beneficiar”, concluíram os autores. “Isso é consistente com os principais resultados do estudo, demonstrando um efeito naqueles com a pressão arterial sistólica inicial mais alta”.

A Dra. Jackie disse que acredita que a redução da pressão arterial é a principal responsável por esse benefício, “mas os números são muito pequenos, então é quase impossível tirar conclusões definitivas”.

Em termos de limitações do estudo, os pesquisadores comentaram que seis anos de uso desses medicamentos podem não ser suficientes para prevenir o declínio cognitivo, portanto, estudos mais longos são necessários. Eles também destacaram que os participantes optaram por se inscrever no estudo, o que significa que podem ser mais saudáveis e com menor risco de comprometimento cognitivo do que o restante da população.

Em um editorial que acompanha o estudo, Dr. Christopher Chen, médico da National University Health System, em Singapura, e Dr. Craig Anderson, médico do The George Institute for Health Global, em Sydney, Austrália, sugeriram que o tratamento preventivo pode precisar ser iniciado mais precocemente para ter algum efeito no declínio cognitivo.

Eles observaram que, a partir dos 70 anos de idade, “pode-se argumentar que é tarde demais para reverter o processo fisiopatológico decorrente de uma exposição prolongada a fatores de risco cardiovascular, como hipertensão e hiperlipidemia”.

Eles também levantaram a possibilidade de que um efeito do tratamento poderia ter sido mais provavelmente detectado pelo uso de testes cognitivos mais sensíveis, ou se a neuroimagem tivesse sido usada para identificar aqueles com doença cerebral de pequenos vasos significativa e AVC silencioso prévio, que estão em alto risco de declínio cognitivo.

Os editorialistas pediram mais pesquisas sobre os mecanismos, novos alvos de tratamento e biomarcadores para identificar indivíduos com alto risco de declínio cognitivo. “A análise de grandes conjuntos de dados de diversas populações, diferentes abordagens de tratamento, acompanhamento mais longo e abordagens estatísticas para ajustar os fatores de confusão podem superar as limitações inerentes dos ensaios clínicos randomizados”, sugeriram os autores.

“Até mesmo retardar o início da demência em um ano pode representar uma melhora imensa na saúde pública”, concluíram.

O estudo foi financiado pelos Canadian Institutes of Health Research e por AstraZeneca. Dra. Jackie informou não ter relações financeiras relevantes. Dr. Christopher trabalhou nos conselhos consultivos científicos e foi consultor de Lundbeck e Accera; recebeu verbas para viagens de MoleacEisai e Lundbeck; e recebeu apoio de pesquisa de TauRx, Eisai, Nutricia e Lundbeck. Dr. Craig trabalhou no conselho consultivo científico de Amgen e recebeu brindes, honorários e verbas para viagens de Takeda.

 

Fonte: Medscape

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Novídades

Biopsico, todos os direitos reservados - 2017