Cientistas brasileiros descrevem mudanças funcionais no cérebro dos pacientes com sensação de membro fantasma

Cerca de 90% dos indivíduos que sofrem amputação reportam sensação de membro fantasma, e uma nova pesquisa de cientistas do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) [1]pode ajudar a entender este processo.

“Havia evidências de que o cérebro se reorganizava após a amputação, e que esse fenômeno de neuroplasticidade mal adaptativa explicaria a sensação de que o membro ausente está ali presente. Nosso trabalho trouxe a novidade de mostrar que existe uma alteração na conectividade entre os dois hemisférios cerebrais”, explicou ao Medscape a radiologista líder do trabalho, Dra. Fernanda Tovar Moll, presidente do IDOR e professora da UFRJ.

Dra. Fernanda Tovar Moll

“A comunicação feita pelo corpo caloso fica diminuída. Por outro lado, a comunicação entre as regiões dentro do mesmo hemisfério cerebral fica aumentada.”

O estudo

Os dados são o resultado da avaliação de nove indivíduos com membro inferior amputado, (cinco apresentavam sensação de membro fantasma de forma permanente e quatro de maneira intermitente) e a mesma quantidade de controles.

Para estudar a conectividade funcional entre as áreas sensoriais e motoras, os pesquisadores estimularam com uma escova a pele dos voluntários dentro do equipamento de ressonância magnética funcional (fMRI). No caso dos indivíduos amputados, a estimulação foi feita na região do pé remanescente e no coto, e nos indivíduos saudáveis na coxa e no pé contralateral. Assim, foi avaliada a conectividade funcional de redes neuronais em regiões específicas do cérebro: córtex motor primário, córtex pré-motor; córtex somatossensorial primário e córtex somatossensorial secundário.

Tipicamente, a conectividade funcional entre os hemisférios do cérebro caracteriza-se por padrões altamente simétricos nas áreas homólogas, mas a Dra. Fernanda e colaboradores observaram uma redução pronunciada da conectividade funcional inter-hemisférica entre as regiões homólogas nos pacientes com membros amputados em comparação aos controles. Foi observada maior conectividade funcional nas áreas sensoriais e motoras de um mesmo hemisfério cerebral, do lado contralateral à amputação, entre os pacientes que sofreram amputação.

“No cérebro, o coto da amputação acaba sendo super-representado, como se estivesse representando também a parte que está faltando”, explicou a Dra. Fernanda.

“Há um tempo se acreditava que a reorganização ocorria apenas no cérebro dos pacientes que sentiam dor, mas em 2012 nós publicamos um trabalho que também evidenciava essa super-representação do coto nos pacientes com sensação de membro fantasma, mas sem dor. [2] Usando uma técnica que media a substância branca de forma quantitativa, vimos também que o corpo caloso estava menos estruturado em pacientes que tinham amputação, comparados aos controles. Este novo trabalho talvez seja a contrapartida funcional da alteração estrutural observada no trabalho de 2012: pacientes com membro fantasma que não sentem dor também apresentam alteração dessa comunicação funcional entre os dois hemisférios.”

Limitações

O trabalho é mais um passo importante na compreensão da neuroplasticidade, mas, uma das limitações do estudo publicado no periódico Scientific Reports, foi a impossibilidade de quantificar a relação entre a sensação de membro fantasma e os achados. Portanto, não foi possível fazer nenhuma suposição sobre a relação entre o grau de sensação de membro fantasma e as mudanças de conectividade.

Outra limitação foi o tamanho da amostra: eram nove pacientes com amputação unilateral de membro inferior (oito derivadas de trauma e uma após procedimento oncológico) e nove controles.

“Nosso grupo é pequeno e mesmo assim mostrou alterações muito prevalentes, que sobreviveram a análises estatísticas rigorosas. Não conseguimos, no entanto, estabelecer estratificações por caraterísticas clínicas ou por uso do membro, por exemplo. Essas questões são muito importantes, mas precisamos ter uma coorte maior, e estamos colaborando com outras instituições para aumentar o grupo de pacientes, o que permitirá fazer e responder novas perguntas”.

O conhecimento das mudanças na conectividade funcional relacionadas a sensação de membro fantasma ainda é insuficiente para determinar um protocolo de reabilitação ou neuromodulação.

“O interesse do nosso grupo sempre foi entender o fenômeno plástico, ainda que mal adaptativo, como nesse caso, porque, quanto mais entendermos como esses mecanismos básicos ocorrem, mais perto estaremos de propor futuras terapias.”

Segundo a Dra. Fernanda, para o médico, além de tratar os sintomas dos seus pacientes, é importante entender os mecanismos subjacentes.

Os autores informaram não ter conflitos de interesses relevantes. A pesquisa recebeu financiamento do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino/Rede D’Or São Luiz, do Instituto Nacional de Neurociência Translacional (INNT), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e da Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (CAPES).

 

Fonte: Medscape

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