Lítio como tratamento de manutenção pode ser “seguro e tolerável” em crianças com transtorno bipolar

Uma nova pesquisa mostrou que o lítio é seguro e tolerável como tratamento de manutenção por até 28 semanas para crianças e adolescentes com transtorno afetivo bipolar (TAB).

Um estudo randomizado, duplo-cego, mostrou que os participantes que receberam lítio tiveram um risco relativo significativamente menor de interromper a participação no ensaio clínico do que os que receberam placebo – o que era o desfecho primário do estudo.

Os pesquisadores destacaram que determinar a melhor forma de aliviar os sintomas do transtorno afetivo bipolar destes pacientes sempre foi difícil, especialmente porque alguns dos tratamentos testados e comprovados para adultos não foram estudados nos jovens e nas crianças. No entanto, isso está começando a mudar.

A partir dos resultados do novo estudo os médicos têm “um sinal bastante bom” de que, após o perigo de um episódio agudo ter passado, o lítio pode efetivamente reduzir o risco de recidiva, disse ao Medscape o Dr. Robert Findling, médico da Johns Hopkins University School of Medicine, em Baltimore, Maryland.

“Agora, quando os médicos e as famílias conversarem sobre o tratamento, o lítio pode fazer parte do assunto. O uso do lítio poderá ao menos ser cogitado”, acrescentou.

Os resultados foram publicados na edição de fevereiro do periódico Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry.

No entanto, foram levantadas algumas questões relacionadas com o estudo, como o fato de ter sido feito com apenas 31 jovens. Além disso, um de seus autores precisou estornar três milhões de dólares de uma bolsa de pesquisa referente a outro estudo.

O financiador do estudo em tela, o National Institute of Child Health and Human Development (NICHD), disse ao Medscape em um comunicado que “a equipe do NICHD não tem dúvidas quanto à integridade dos dados” deste estudo.

No entanto, o editor da revista, o Dr. Douglas Novins, médico, disse ao Medscape que os responsáveis do periódico estão verificando novamente os dados para confirmar a força dos mesmos.

“Começando do zero”

Embora o lítio exista desde a década de 40 como potencial tratamento dos transtornos do humor graves, só começou a ser testado em crianças recentemente, após a aprovação da lei de 2002 Best Pharmaceuticals for Children Act.

Foi quando iniciaram os Collaborative Lithium Trials (CoLTs). A necessidade de dados significou que sua equipe estava praticamente “começando do zero”, disse o Dr. Robert.

No decorrer de vários anos, o CoLT definiu a farmacocinética e estabeleceu estratégias de posologia baseadas em evidências para o uso de lítio em jovens – tudo antes de estudar como o lítio realmente funcionava para tratar os surtos de transtorno do humor que ocorrem no transtorno afetivo bipolar.

Os pesquisadores também precisaram criar protocolos para assegurar que esses estudos fossem precisos e éticos. Em particular, precisavam de um protocolo que funcionasse tanto para crianças de sete anos, como para jovens de 17 anos; e precisavam definir o grupo certo de participantes.

Isso significou crianças e jovens com transtorno afetivo bipolar suficientemente grave para exigir o tratamento com lítio, mas não tão grave a ponto de ser necessário hospitalizar os pacientes que recebessem placebo para o tratamento das flutuações de humor.

Os pesquisadores também precisaram descobrir quando interromper a participação no estudo, por exemplo, quando as crianças apresentavam um verdadeiro episódio bipolar, e quando não interromper precocemente a participação de crianças que estavam apenas tendo um “dia ruim”, explicou o Dr. Robert.

“Estes são estudos difíceis de fazer”, disse o médico. “Não achamos que seria ético deixá-los se sentindo mal durante algum tempo”.

Quando chegou a hora de fazer o estudo sobre o tratamento de manutenção, os pesquisadores haviam “praticamente descrito” como o lítio age nas crianças, disse o Dr. Robert.

Evitando a recidiva

Os pesquisadores recrutaram 31 crianças e adolescentes de vários centros como parte de dois dos estudos estruturais, o CoLT1 e o CoLT2. Seis a oito semanas depois de iniciar o lítio após uma crise os participantes foram designados aleatoriamente para continuar recebendo tratamento com lítio ou interromper o uso dos medicamentos do estudo. Os pacientes cujo tratamento foi suspenso foram o grupo de controle.

Nas 28 semanas seguintes, os participantes frequentaram regularmente a clínica. Durante essas consultas, um médico que não participava do cegamento do estudo assegurou que, entre os pacientes no braço de lítio, os níveis de lítio estivessem entre 0,8 e 1,2 mEq/L.

Uma escala específica para mania entre crianças e jovens (Young Mania Rating Scale) foi usada para avaliar o humor; outras medidas foram utilizadas para avaliar a depressão e a gravidade dos sintomas. Os pais preencheram o Parent General Behavior Inventory – uma escala de mania com 10 itens.

Os resultados mostraram que após 28 semanas, menos da metade dos participantes (42%) permanecia no estudo. A grande maioria dos pacientes que continuaram no estudo (65%) estava no braço de manutenção com lítio.

Dos 18 que saíram, 13 o fizeram por causa de sinais e sintomas de humor classificados como recidiva. Os outros cinco o fizeram por razões não relacionadas com o transtorno do humor.

Os efeitos colaterais foram mais comuns entre os que receberam lítio. Esses efeitos colaterais foram epigastralgia, cefaleia, enurese noturna, insônia e vômitos.

A maioria dos efeitos colaterais dos pacientes era prevista de acordo com as pesquisas anteriores, disse o Dr. Robert. “Mas um efeito colateral que não observamos foi o ganho ponderal”.

“Realmente, o que vimos foi que o lítio foi eficaz, mesmo como tratamento de manutenção”, acrescentou.

Desenho de estudo inteligente

Em seus comentários sobre o estudo para o Medscape, o Dr. John T. Walkup, médico e professor de psiquiatria e ciências comportamentais na Northwestern University em Chicago, Illinois, disse que o desenho do estudo foi inteligente.

O que os pesquisadores realmente testaram foi se os participantes permaneceram no estudo ou saíram por algum motivo, disse o Dr. John. Os pesquisadores puderam, portanto, avaliar a eficácia em função do fato de mais participantes no grupo placebo terem apresentado recidiva do que no grupo do lítio.

Se isso aconteceu, “você pode começar a afirmar que o lítio não só é eficaz, como oferece proteção continuada contra recidivas”, acrescentou o Dr. John, que não participou da pesquisa.

O Dr. John foi copesquisador do estudo de Treatment Moderators and Predictors of Outcomes in the Treatment of Early Age Mania (TEAM), que comparou antipsicóticos, anticonvulsivantes e lítio em jovens com transtorno afetivo bipolar.

Os resultados mostraram que a risperidona foi mais eficaz do que o lítio, embora o lítio tenha tido a mesma eficácia quando os participantes não tinham transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) concomitante.

“Tínhamos essa enorme lacuna na literatura”, disse o Dr. John, em relação aos estudos sobre o lítio controlados com placebo. “Agora temos os dados, já podemos tirar isso da lista”.

Ainda assim, houve problemas com o estudo atual, observou.

“Este é um grande estudo do ponto de vista da sua importância. Mas terminou com apenas 31 pacientes”, então os resultados não podem ser definitivos ponderou o pesquisador.

O Dr. John disse ter algumas preocupações em relação aos dados. O que o estudo mostra é “como é difícil fazer esse tipo pesquisa”.

Embora os achados não estejam embasados em estudos com centenas de participantes, o estudo de fato esclarece e auxilia os profissionais que trabalham com crianças e jovens com transtorno afetivo bipolar, acrescentou o pesquisador.

“Este foi um passo incrivelmente grande, mas ainda é apenas um aporte, da perspectiva de conhecimento”, disse o Dr. John.

 

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