Exposição à violência pode afetar a cognição social em pré-adolescentes

Uma pesquisa realizada no Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul (InsCer) mostrou alterações no desenvolvimento cerebral e cognitivo de pré-adolescentes expostos à violência.

Os resultados, recém-publicados no periódico Developmental Science, foram obtidos a partir da aplicação de questionários, e exames de imagem por ressonância magnética funcional (fMRI, do inglês Functional Magnetic Ressonance Imaging) e de análise da concentração de cortisol no cabelo de 50 estudantes de escolas públicas de Porto Alegre, com idades entre 10 e 12 anos.

Os pesquisadores contataram cerca de 500 famílias cujos filhos frequentavam a 4ª e a 5ª séries do ensino fundamental na capital gaúcha, para participação voluntária no estudo. Ao todo, 140 famílias deram consentimento, e o total de participantes foi definido após exclusões por analfabetismo (impedindo o participante de responder ao questionário proposto), quociente de inteligência (QI) abaixo de 75 na Wechsler Abbreviated Scale of Intelligence ou desistências. Inédito na América Latina, o estudo é o primeiro a utilizar neuroimagem para identificar como a cognição social é afetada pela violência reportada por pré-adolescentes.

Inicialmente, os pré-adolescentes responderam à versão reduzida [da segunda edição] do Questionário de Vitimização Juvenil (JVQ-R2, sigla do inglês Juvenile Victimization Questionnaire – 2nd Revision), no qual informaram a exposição direta ou indireta a diferentes situações de violência, gerando uma pontuação de “vitimização” a partir das situações vividas.

Ao todo, os participantes deveriam confirmar ou negar experiências com eventos violentos, que incluíam desde já ter testemunhado ou sido vítima de crimes convencionais na rua, até ter sido vítima de violência por pares (colegas e/ou irmãos), sofrer maus tratos em casa ou abuso sexual, entre outros.

Após essa fase, foram realizados exames de ressonância magnética, coleta de amostras de cabelo para mensurar as concentrações de cortisol e foi aplicada a versão completa do questionário JVQ-R2 – incluindo, desta vez, variáveis como frequência, o quão recentes foram os episódios, proximidade com o autor da violência, etc. A maioria dos participantes (82,5%) informou ter passado por alguma forma de vitimização e 72,5% disseram ter vivido alguma situação violenta no último ano.

O Dr. Augusto Buchweitz, pesquisador do InsCer e líder do estudo, explica que mensurar os níveis de cortisol no cabelo permite um retrato menos imediato do que avaliações a partir da saliva ou do sangue, suscetíveis às variações diárias na concentração do hormônio.

“O cabelo nos dá uma medida crônica do cortisol no mês, pois o cabelo cresce a uma média de um centímetro por mês. Nosso objetivo era avaliar a história da exposição, pegando as concentrações dos últimos três meses”, explicou. Os testes corroboraram a existência de uma correlação significativa entre a vitimização sofrida no último ano e as concentrações mais altas de cortisol no cabelo.

Nos exames de fMRI, os participantes foram submetidos ao teste RMET (sigla do inglês Reading the Mind in the Eyes Test), no qual foram mostradas 36 imagens de pares de olhos em duas rodadas. Em uma das rodadas, eles deveriam selecionar uma opção de resposta sobre qual acreditavam ser o humor da pessoa retratada (triste, feliz, com raiva, etc.) e, na outra, identificar se os olhos pertenciam a um homem ou a uma mulher.

“Nas crianças mais expostas à violência, a rede do hemisfério direito do cérebro associada à função de percepção social para informar nossa leitura dos outros estava menos ativada ou desativada. Quanto mais exposta à violência, menos capacidade de leitura dos outros”, disse o Dr. Augusto. O mesmo não acontece quando foi preciso dar a resposta mais simples, sobre o sexo a quem pertenciam os olhos. O pesquisador afirmou que não houve correlação com a violência quando os pré-adolescentes precisaram dizer se a pessoa era do sexo feminino ou masculino. No entanto, a associação apareceu quando eles precisaram decidir sobre o humor das pessoas nas imagens.

A média de acertos nas respostas sobre o sexo da pessoa foi de 92%, caindo para cerca de 64% quando os pré-adolescentes eram solicitados a identificar a emoção representada nas imagens.

“Talvez elas estejam sobrecarregadas com a exposição à violência, até um ponto em que essa identificação não ocorre mais, como se dissessem ‘chega’ e não tentassem mais interpretar o sentimento do outro”, diz o pesquisador.

A proeminência da vitimização em uma faixa etária tão jovem também chamou atenção no estudo, comparando-se a proporções que, em países como os Estados Unidos, só são reportadas por adolescentes mais velhos, em torno dos 17 anos.

Por ocorrer tão cedo, essa exposição também pode sugerir efeitos mais acentuados no futuro. “Trata-se da faixa etária na qual a maioria dos transtornos psiquiátricos têm início, com alto risco de depressão, transtornos de ansiedade e suicídio”, ressaltou o Dr. Augusto.

“Não é possível saber o que vai acontecer com cada criança, mas esse tipo de funcionamento do cérebro está relacionado com um maior risco de apresentar esses transtornos na idade adulta”, concluiu.

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