Sintomas obsessivo-compulsivos na juventude podem prenunciar doenças mentais

Sintomas obsessivo-compulsivos (SOC) em jovens podem ser um sinal de alerta precoce de doença mental subsequente, inclusive psicose, sugere uma nova pesquisa.

Os pesquisadores analisaram dados da Philadelphia Neurodevelopmental Cohort (PNC), formada por mais de 7.000 jovens, entre 11 e 21 anos de idade. Os participantes, que não procuraram serviços de atendimento em saúde mental, fizeram rastreamento de sintomas obsessivo-compulsivos, bem como de outros transtornos psiquiátricos.

Os pesquisadores descobriram que os sintomas obsessivo-compulsivos eram comuns nesses jovens, acometendo quase 40% dos participantes, embora apenas 3% correspondessem aos critérios de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) pleno.

Embora todos os sintomas obsessivo-compulsivos estivessem associados a maior número de doenças psiquiátricas importantes (TOC, episódios depressivos, psicose e ideação suicida), os “maus pensamentos”, informados por um quinto da amostra, mostraram a associação mais “substancial”.

“Quando comparamos as crianças com sintomas obsessivo-compulsivos às crianças sem esses sintomas, encontramos uma razão de chances, ou odds ratio, variando de 3 a 5, em termos de associação a doenças psiquiátricas ao longo da vida, especialmente entre aquelas com pensamentos ruins e intrusivos”, disse ao Medscape o Dr. Ran Barzilay, Ph.D., médico e pesquisador do Lifespan Brain Institute of Children’s Hospital of Philadelphia,da University of Pennsylvania.

“Essas descobertas têm implicações clínicas críticas, a saber, que os sintomas obsessivo-compulsivos são um sinal de alerta de futuro surgimento de transtornos psiquiátricos e podem, portanto, ser usados para estratificar as crianças de menor ou maior risco”, disse o pesquisador.

O estudo foi publicado on-line em 23 de novembro no periódico Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry.

Sublimiar de sintomas obsessivo-compulsivos

“Ter comportamentos repetitivos e ritualísticos faz parte do comportamento típico da criança”, mas à medida que elas crescem, “esses comportamentos podem não ser mais necessários para alcançar os objetivos adequados à idade”, escreveram os autores.

As comorbidades comuns do TOC são: depressão, psicose e pensamentos suicidas, tanto em crianças como em adultos.

Estudos anteriores concentraram-se quase exclusivamente na identificação das dimensões que aparecem em crianças e adolescentes, e correspondem aos critérios de limiar de TOC, porém menos pesquisas se concentraram na possível associação entre os sintomas obsessivo-compulsivos e outras doenças psiquiátricas.

“Para corresponder aos critérios de TOC não basta simplesmente ter algumas obsessões ou compulsões”, disse o Dr. Ran.

“Os sintomas obsessivo-compulsivos têm de atingir um limiar muito alto de sofrimento clínico e comprometimento para atender aos critérios diagnósticos de TOC, e nós queríamos ver se a existência de sintomas obsessivo-compulsivos sem TOC poderia ajudar a sinalizar alguma doença psiquiátrica grave, latente e não diagnosticada”, explicou o pesquisador.

“Queríamos ver se esses sintomas poderiam talvez ajudar a estratificar as crianças com menor ou maior risco de outras doenças psiquiátricas, e quais tipos de sintomas obsessivo-compulsivos estavam mais associados a essas doenças”.

Conjunto de dados “extraordinário”

Para abordar essas questões, os pesquisadores analisaram dados da Philadelphia Neurodevelopmental Cohort (PNC), uma amostra formada por crianças e adolescentes que não procuraram atendimento (N = 7.054) entre 11 e 21 anos de idade, morando na região metropolitana da Filadélfia.

Os participantes foram recrutados de um grupo maior de crianças previamente genotipadas como parte de um estudo genômico do Children’s Hospital of Philadelphia (N = 15.293).

O Dr. Ran creditou a Dra. Raquel Gur, Ph.D., médica e autora sênior do artigo, pelo “incrível conjunto de dados da PNC contendo avaliações clínicas, cognitivas, de exames de imagem e genéticas muito abrangentes, de mais de 10.000 crianças da região da Filadélfia”.

Os jovens foram submetidos a uma avaliação psiquiátrica e qualquer ocorrência ao longo da vida de domínios de psicopatologia foi descrita, avaliando sintomas obsessivos-compulsivos e TOC, depressão, psicose e ideação suicida.

Os pesquisadores avaliaram os sintomas psicopatológicos usando uma ferramenta computadorizada abrangente chamada GOASSESS para fazer as avaliações estruturadas dos domínios psicopatológicos.

A triagem de TOC do GOASSESS avaliou as experiências da vida de oito obsessões e nove compulsões. Se pelo menos uma obsessão e/ou compulsão fosse endossada, então as questões subsequentes avaliavam novos critérios de TOC.

O Dr. Ran observou que uma técnica estatística “sofisticada”, chamada análise fatorial exploratória, foi aplicada aos vários sintomas obsessivo-compulsivos, a fim de verificar se poderiam ser encontradas associações entre determinados sintomas e tipos de psicopatologia.

Sintomas obsessivo-compulsivos são comuns, TOC não

Da amostra, 209 participantes (3%) corresponderam aos critérios diagnósticos de TOC ao longo da vida e 2.697 (38,2%) confirmaram uma ou mais obsessões ou compulsões no rastreamento do TOC (participantes com sintomas obsessivo-compulsivos).

Os sintomas obsessivo-compulsivos foram mais comuns entre as mulheres (razão de risco ou odds ratio, OR = 1,30; Wald = 25,97; grau de liberdade, gl = 1; P < 0,001) e depois da puberdade (OR = 1,18; Wald = 9,95; gl = 1; P = 0,002).

Houve interação entre sexo e puberdade em associação aos sintomas obsessivo-compulsivos, manifesta pela maior proporção de sintomas obsessivo-compulsivos entre as mulheres pós-púberes (Wald = 4.30, gl = 1; P = 0,038).

O grupo com sintomas obsessivo-compulsivos era, em média, um pouco mais velho, e tinha maior proporção de mulheres e menor proporção de participantes brancos, em comparação com os participantes sem sintomas obsessivo-compulsivos.

Foi observado que os participantes com sintomas obsessivo-compulsivos tiveram maior prevalência dos principais fenótipos psicopatológicos – inclusive depressão ao longo da vida, psicose e ideação suicida – em comparação com os controles (26,4% vs. 7,8%, 9,6% vs. 2,1% e 16,5% vs. 4,6%, respectivamente, todos P < 0,001).

Os participantes com sintomas obsessivo-compulsivos também foram classificados pela escala global de avaliação infantil C-GAS (do inglês, Children’s Global Assessment Scale) como tendo um nível funcional global mais baixo, em comparação com os participantes sem sintomas obsessivo-compulsivos (75,4 vs. 81,2, respectivamente, P < 0,001).

“Notavelmente, dentre os 2.697 participantes com sintomas obsessivo-compulsivos, a grande maioria não correspondeu aos critérios diagnósticos de TOC ao longo da vida (N = 2.488; 92,3%)”, ressaltaram os autores.

Descoberta “convincente”

A análise fatorial gerou quatro domínios de fatores: (F1) maus pensamentos; F2 (repetição e/ou verificação); F3 (simetria); e F4 (limpeza e/ou contaminação). O açambarcamento (ou acúmulo) foi listado como um fator separado.

“A confirmação dos sintomas entre os fatores mostrou uma superposição substancial”, informaram os autores.

Os sintomas obsessivo-compulsivos autorrelatados foram mais prevalentes entre as participantes do sexo feminino, com efeito principal na puberdade de F1 e F2, mas não dos outros fatores de sintomas obsessivo-compulsivos. Os pesquisadores então investigaram a associação de cada fator com o relato ao longo da vida de uma grande psicopatologia concomitante, controlando por estado puberal, idade, sexo e nível socioeconômico.

Os autores descobriram que a confirmação de um ou mais sintomas obsessivo-compulsivos foi significativamente associada a uma taxa mais alta de história de depressão, psicose e ideação suicida ao longo da vida (todas as OR > 4,0; P < 0,001 para todos).

Além disso, F1 apresentou “as associações mais robustas” com os fenótipos de psicopatologia coexistente: TOC (OR = 11,7; P < 0,001), depressão (OR = 4,3; P < 0,001), psicose (OR = 3,3; P < 0,001) e ideação suicida (OR = 4,4; P < 0,001).

O F2 foi significativamente associado a depressão, F3 a psicose e a açambarcamento com depressão. O F4 não foi associado a nenhuma das principais doenças psiquiátricas avaliadas, excetuando-se o próprio TOC.

Um modelo de regressão englobando todos os sintomas F1 e controlado para puberdade, idade, sexo e nível socioeconômico, revelou que os pensamentos de autoagressão ou fazer mal aos outros foram significativamente associados a TOC, depressão, psicose e ideação suicida.

“A maior e mais convincente descoberta deste estudo é que, pela análise fatorial, descobrimos que dos cinco grupos de sintomas obsessivo-compulsivos analisados, os pensamentos ruins e intrusivos foram mais fortemente associados às doenças psiquiátricas graves”, disse o Dr. Ran.

“É por isso que este estudo tem tanta relevância clínica – porque pode orientar os médicos a lidar com crianças que não estão buscando ajuda, e a sondar alguns sintomas que são preciosos em sua capacidade de estratificar o risco de doenças psiquiátricas graves”, acrescentou.

Rastreamento e monitoramento justificados

Comentando sobre o estudo para o Medscape, o Dr. Michael H. Bloch, médico e professor associado do Yale School of Medicine Child Study Center, em New Haven, Connecticut, que não participou do estudo, observou que “muitas crianças têm sintomas obsessivo-compulsivos, poucas têm TOC – o que significa que geralmente esses sintomas não causam prejuízo significativo ou sofrimento”. No entanto, os médicos devem “avaliar os sintomas obsessivo-compulsivos nas crianças com sofrimento psíquico”, aconselhou o comentarista, observando que esses sintomas são comuns e “podem ser um sinal não apenas de TOC, mas também de outras doenças psiquiátricas”.

Também comentando o estudo para o Medscape, o Dr. Marc-André Roy, pesquisador e psiquiatra clínico do Centre de Recherche CERVO, no Quebec, Canadá, disse que “o estudo agrega às evidências disponíveis que os limites entre os transtornos são porosos, e que os sintomas obsessivo-compulsivos podem ser um prenúncio de outros transtornos”.

O Dr. Marc-André, que também não participou do estudo, observou que “tendemos a subestimar a importância dos sintomas inespecíficos, já que os sintomas considerados normais em termos de desenvolvimento podem não ser sempre assim”.  Esses sintomas, disse o pesquisador, “podem justificar a implementação de algum monitoramento longitudinal”.

O Dr. Ran, primeiro autor do estudo, acrescentou que a relevância desses achados “vai além dos especialistas em psiquiatria infantil e se aplica também aos pediatras, que devem estar cientes de que alguns desses sintomas podem ser uma janela clínica pela qual eles podem aprender a sondar e ter um nível mais alto de índice de suspeita clínica”.

Este trabalho foi apoiado por National Institutes of HealthDowshen Neuroscience Fund,Lifespan Brain Institute of Children’s Hospital of Philadelphia e Penn Medicine, University of Pennsylvania. O Dr. Ran Barzilay atuou no conselho científico e relatou a posse de ações na Taliaz Health, sem relações financeiras relevantes vinculadas com este trabalho. Os conflitos de interesses dos outros autores são informados no artigo original. O Dr. Michael H. Bloch e o Dr. Marc-André Roy informaram não ter relações financeiras relevantes.

J Am Acad Child Adolesc Psychiatry.  Publicado on-line em 23 de novembro de 2018. Texto completo

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