Movimentos oculares podem indicar declínio cognitivo na esquizofrenia

Movimentos oculares anômalos podem indicar tipos específicos de comprometimento cognitivo nos pacientes com esquizofrenia, revela nova pesquisa.

Um estudo multicêntrico descobriu que o comprimento do rastreamento visual e o raciocínio matricial foram mais fortemente correlacionados nos pacientes com esquizofrenia do que nas pessoas saudáveis. As pontuações no raciocínio matricial são uma medida da organização espacial.

“Encontramos uma associação significativa entre as medidas de exploração visual baseadas no movimento visual e as pontuações cognitivas que exigem pesquisa visual nos pacientes com esquizofrenia”, disse ao Medscape o Dr. Ryota Hashimoto, do Instituto Nacional de Saúde Mental do Japão, em Tóquio.

“Esses resultados reforçam o entendimento sobre dois comprometimentos distintos, reconhecidamente presentes na esquizofrenia – exploração visual anômala e comprometimento da organização perceptiva, ambos associados a mecanismos de controle de cima para baixo (top-down)”, acrescentou o Dr. Ryota.

O estudo foi publicado on-line em 17 de janeiro no periódico Schizophrenia Research.

Relevância incerta

As anomalias dos movimentos oculares são bem documentadas nos pacientes com esquizofrenia. Essas anomalias incluem a exploração visual durante tarefas de visualização livre; perda de ganho durante a perseguição suave e dificuldades no controle voluntário das fixações.

No entanto, a relevância dessas anomalias em termos funcionais no cotidiano e no comprometimento cognitivo permanece desconhecida, uma vez que existem poucos estudos sobre a associação entre o movimento ocular e a capacidade cognitiva dos pacientes com esquizofrenia.

Em 1994, pesquisadores estudaram os padrões de exploração visual pelo teste de conclusão de imagem Wechsler Adult Intelligence Scale (WAIS-R) revisado. O estudo revelou que o comprimento do rastreamento visual foi menor nos pacientes com esquizofrenia do que nos participantes saudáveis.

Resultados semelhantes foram descritos em um estudo publicado em 2011. Nesse estudo, os pesquisadores descobriram que os pacientes esquizofrênicos utilizavam uma estratégia de busca ruim na tarefa de codificação dígito-símbolo.

Dr. Ryota e colaboradores observaram que as pesquisas anteriores foram limitadas por amostras pequenas e poucas medidas de desfechos, e que o conhecimento atual sobre a relação geral entre as anomalias do movimento ocular e a capacidade cognitiva dos pacientes esquizofrênicos é limitada.

Para abordar essas deficiências, os pesquisadores obtiveram dados de 517 pessoas que foram recrutadas como parte de uma grande coorte na Universidade de Osaka no Japão.

Os critérios de exclusão foram muitos e variados. Nenhum participante tinha história de doença oftalmológica e todos apresentavam visão normal ou corrigida. Os pacientes com esquizofrenia foram diagnosticados por pelo menos dois psiquiatras capacitados, usando a Structured Clinical Interview do DSM-IV.

Foram realizados três diferentes exames do movimento ocular – avaliação do comprimento do rastreamento visual, ganho de posição horizontal e duração das fixações. Já foi publicado que todas essas medidas diferenciam pessoas com esquizofrenia das pessoas saudáveis com sucesso. Essas três medidas foram usadas para calcular uma ampla pontuação ocular na esquizofrenia.

Os pesquisadores usaram pontuações referenciadas por idade da versão japonesa do WAIS-III para medir a capacidade cognitiva dos pacientes. Os autores utilizaram a escala completa do quociente de inteligência (QI); as quatro pontuações individuais do WAIS-III (compreensão verbal, memória de trabalho, organização perceptiva e velocidade de processamento); e as pontuações dos 13 subgrupos de testes: vocabulário, semelhança, informação, compreensão, aritmética, memorização de dígitos, sequenciamento de números e letras, preenchimento de figuras, desenho de blocos, raciocínio matricial, organização de figuras, codificação dígitos-símbolos e busca de símbolos.

Diferenças significativas

Talvez sem surpresas, o estudo mostrou que nas três medidas isoladas de movimento ocular (comprimento do rastreamento visual, ganho de posição horizontal e duração das fixações), bem como na medida integrada de movimento ocular e no WAIS-III, as pontuações diferiram significativamente entre as pessoas sadias e os pacientes esquizofrênicos.

Das três medidas de movimento ocular, o comprimento do rastreamento visual foi o que mais diferiu entre os grupos.

O comprimento do rastreamento visual foi significativamente correlacionado com as pontuações do WAIS-III. Entre os pacientes esquizofrênicos, essas correlações foram significativas entre o comprimento do rastreamento visual e tanto para a pontuação do raciocínio matricial (R = 0,39) quanto para a pontuação de codificação dígito-símbolo (R = 0,33).

Comparativamente, nos voluntários, os pesquisadores encontraram correlações significativas entre o comprimento do rastreamento visual e a pontuação do índice de compreensão verbal (R = 0,20), pontuação de vocabulário (R = 0,18), pontuação do índice de velocidade de desempenho (R = 0,20) e pontuação de busca de símbolos (R = 0,19).

Ao testar os efeitos da interação entre o diagnóstico e o comprimento do rastreamento visual nas pontuações WAIS-III correlacionados, os pesquisadores observaram um efeito de interação significativo apenas para o raciocínio matricial, para o qual houve uma relação mais forte nos pacientes esquizofrênicos do que no grupo de controle (coeficiente 0,05; intervalo de confiança, IC, de 95%, de 0,03 a 0,07; P = 0,0000172). Essa correlação permaneceu significativa após o controle por vários fatores de confusão demográficos.

A associação entre o comprimento do rastreamento visual e o raciocínio matricial – medida da organização perceptual dos pacientes com esquizofrenia – implica a existência de processos cognitivos comuns, observam os pesquisadores.

Os autores também acreditam que esses resultados reforçam o entendimento de duas deficiências distintas conhecidas nos pacientes com esquizofrenia – anomalias da exploração visual e comprometimento da organização perceptiva – ambas relacionadas com mecanismos de controle de cima para baixo.

Dessa forma, estratégias eficazes de exploração visual podem beneficiar os pacientes esquizofrênicos, compensando os prejuízos cognitivos nas tarefas que implicam altas demandas de processos cognitivos de cima para baixo, como a organização perceptiva.

Primeiro passo importante

Comentando esses resultados para o Medscape, o Dr. Aasef G. Shaikh, do Daroff-Dell’Osso Eye Movement Laboratory University na Case Western Reserve University, em Cleveland, Ohio, disse que o estudo representa um primeiro passo importante na cadeia de pesquisa.

“Trata-se de uma área muito importante a ser estudada”, disse o Dr. Aasef, que não participou da pesquisa. “Os movimentos oculares são amplamente usados como marcadores de muitos distúrbios neurológicos, e estão surgindo mais estudos analisando os efeitos das diferentes patologias nos movimentos dos olhos”.

O comentarista observou que mais pesquisas são necessárias para refinar a natureza da relação entre as anomalias do movimento ocular e o comprometimento cognitivo nos pacientes com esquizofrenia.

“Há grande heterogeneidade quando se trata de esquizofrenia”, acrescentou. “Portanto, não sabemos se essas anomalias do rastreamento visual são específicas a certos tipos de esquizofrenia.

“Os autores propuseram a fenomenologia, mas ainda não temos as bases mecanicistas”, acrescentou o Dr. Assef. “Agora precisamos determinar por que esse tipo de problema existe”.

O Dr. Ryota concluiu que as deficiências cognitivas agora são consideradas características centrais da esquizofrenia.

“Nossos resultados sobre os fatores que levam ao comprometimento cognitivo deveriam ajudar a descobrir um tratamento eficaz para melhorar as funções cognitivas, que promova uma vida social funcional para os pacientes com esquizofrenia”, disse o pesquisador.

O estudo foi financiado por Agência Japonesa de Pesquisa e Desenvolvimento Médico, Centro de Pesquisa Internacional para Neurointeligência dos Institutos de Estudos Avançados da University of Tokyo, Ministério de Assuntos Internos Japonês, Institutos Nacionais de Ciências Naturais do Japão e Grants-in-Aid for Scientific Research. Os autores informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

 

Fonte: Medscape

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