Comportamentos de risco: desafios adolescentes na internet

Paris, França  Os comportamentos de risco foram tema de várias sessões durante o Congrès de l’Encéphale 2019 , especialmente “os desafios adolescentes na internet”. Em uma apresentação emocionante e aterrorizante, Gregory Michel, psicólogo e professor de psicopatologia da Université de Bordeaux e pesquisador do INSERM Bordeaux Population Health, esmiuçou esses desafios, totalmente aberrantes, que são lançados nas redes sociais, dos quais os jovens participam, como o já infame “jogo do estrangulamento”, os desafios de emagrecimento ou outros jogos do estilo Neknominate , responsável por muitos acidentes, chegando à morte. [1] O psicólogo e sua equipe também publicaram simultaneamente no periódico Pediatrics um estudo transversal com 1.171 crianças e adolescentes franceses dos 9 aos 16 anos de idade que adotam comportamentos de risco, tentando definir seu perfil para melhor prevenir este tipo de comportamento (ver o quadro no final do artigo). [2]

O amplo espectro do comportamento de risco

Em abril do ano passado, Tom, de 11 anos, foi encontrado sem vida em casa com a faixa de caratê enrolada no pescoço. Ele se juntou à longa lista das vítimas fatais do jogo do estrangulamento, que combina a hiperventilação forçada (agachamentos rápidos e grandes inspirações) ao bloqueio da respiração e à pressão sobre as artérias carótidas. Esse desafio congrega jovens entre 4 e 20 anos de idade. Este jogo do estrangulamento se enquadra na categoria de jogos de asfixia caracterizada pela prática do estrangulamento (jogo do lenço), sufocação (jogo do saco) ou apneia (jogo do tomate).

De acordo com o professor Grégory, que começou a trabalhar sobre este tema no início dos anos 2000, particularmente como especialista do Ministère de l’Education Nationale francês, essas práticas lúdico-violentas vão muito além dos jogos de asfixia, já que ele registrou até hoje vários tipos de desafio: jogos de agressão, desafios de emagrecimento, ingestões de alimentos ou objetos, desafios físicos, jogos de ingestão de bebidas (bebidas alcoólicas)…

Qual é o denominador comum nesses desafios? “Estes jogos se inscrevem no vasto espectro dos comportamentos de risco”, disse o professor Grégory, lembrando que comportamentos e condutas algumas vezes se iniciam e cronificam na adolescência, principalmente, no período da pré-adolescência.

“Questões de identidade e recompensas”

A maioria desses jogos pode ser agrupada na categoria de desafios. Este anglicismo, challenges, que no entanto é um termo francês proveniente do latim medieval (século XII), evoca tanto uma acusação falsa (calumnia) como uma contestação (calengia). Para o psicólogo, isto é, “o que encontramos em todos os desafios atuais dos adolescentes é uma reivindicação e uma contestação, mas também uma tendência a querer provar sua inocência e sua capacidade de enfrentar os desafios. Estamos, portanto, nas questões de identidade”.

No século XIV, este termo é reintroduzido na língua inglesa, “especialmente através do esporte, com o conceito de desafio, desafiador e, finalmente, de competição contra um adversário”, disse o professor Grégory. Há, portanto, no termo desafio, “a noção de defender algo, de enfrentar a autoridade ou a lei, mas também de reivindicar, exigir um tipo de recompensa e, portanto, provar alguma coisa…”. Recompensa essa que os adolescentes irão buscar publicando fotos ou vídeos na internet.

Como os jogos de agressão, caracterizados pelo uso da violência física, seja nos jogos intencionais (jogo da lata, Mikado círculo infernal, pequena ponte assassina…) e nos jogos de coação (jogos de morte súbitade Beiruteda rodada…). Na pequena ponte assassina uma bola é jogada no grupo; ai daquele que deixar a bola passar entre as pernas, porque será espancado por todos os jogadores. A penalidade é semelhante para o jogo da lata, no qual o objetivo é pegar uma lata jogada pra cima. “Nesses jogos eles podem chegar a surrar estranhos”, disse o professor Grégory. “Mas acima de tudo é necessário filmar, fotografar, enviar provas dos atos perpetrados.”

A loucura dos desafios do emagrecimento, obsessão irreal

Outros desafios, populares entre as meninas, dizem respeito à imagem corporal e à magreza. Em geral, trata-se de “mostrar a própria capacidade de chegar a uma certa magreza”, como especificou o professor Grégory. Como o desafio A4, que consiste em colocar uma folha de papel A4 à sua frente, na altura do umbigo, e se olhar no espelho. Nada deve ultrapassar os lados da folha. Se isso acontecer, a menina terá de emagrecer.

Quanto ao desafio do espaço entre as coxas, ele visa, como o próprio nome indica, obter um “espaço entre as coxas”, ou seja, um espaço suficientemente largo entre as coxas para que elas não toquem ao fechar as pernas. Mesmo que isso mergulhe as adolescentes na anorexia, na prática compulsiva de exercícios físicos ou até mesmo na depressão, caso não consigam…

Mais uma vez a internet desempenha o papel de caixa de ressonância e plataforma de prescrição. “Dezenas e dezenas de sites dão conselhos sobre como obter o ‘espaço entre as coxas’, o que alimenta uma obsessão irreal para algumas meninas, segundo o professor Grégory. Algumas vezes esses sitestambém encaminham para outros sites pró-anorexia.

Corpos inflamáveis

Outros desafios giram em torno da ingestão de alimentos ou até mesmo de objetos. O desafio da canela convida a tomar em tempo recorde uma grande colherada de canela, que pode causar “asfixia, acidentes e até a morte”, alertou o professor Grégory. Este é também o caso mais recente do desafio do Tide, no qual os jovens ingerem cápsulas de sabão líquido com amaciante.

“Nestes casos os adolescentes também se filmam para divulgar as imagens na internet, para mostrar à comunidade que são capazes de ingerir esse tipo de produto que já causou várias mortes.”

“Alguns jogos são ainda mais extremos pela violência do ataque ao corpo. O desafio do fogo (Fire Challenge) segue o princípio de cobrir o corpo com algum produto inflamável e atear fogo, antes de mergulhar em uma piscina ou tomar uma ducha. Consequências: muitas queimaduras de primeiro grau, mas também algumas mortes. Ainda mais aberrante, o desafio da água quente que incita a derramar água fervente em você ou em alguém sem aviso prévio.

Neknominate e outros tipos de consumo excessivo de bebidas alcoólicas

Os jogos relacionados com o uso de substâncias químicas, obviamente, têm o seu lugar no panteão desses desafios. O Neknominateque chegou à França em 2014 , mostra o consumo de bebidas alcoólicas na internet. Outros jogos relacionados com bebidas: o desafio do globo ocular (derramar álcool nos olhos para acelerar a embriaguez) e o desafio butt chug no qual o álcool é desta vez ingerido por via anal. Quanto ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas, “podemos nos perguntar se isto não se encaixa nesse tipo de desafio”, indagou o professor Grégory.

“Podemos ver bem em algumas noitadas, filmadas ou não, nas quais as pessoas testam sua capacidade de ingestão de bebidas alcoólicas respondendo a um desafio que é amplamente compartilhado nas redes sociais.”

“Por fim, outras provocações são voltadas para os desafios físicos. O jogo do toureiro é feito ao se colocar no meio dos trilhos do trem esperando a chegada de um trem, e sair no último segundo, como se fosse um toureiro. O surfe nos carros consiste em fazer acrobacias sobre um automóvel em movimento, com as consequências que se pode imaginar. Quanto a “varandear” (balconing), refere-se a saltar da varanda de um hotel para mergulhar na piscina.

Endoutrinamento… até o suicídio

“A criatividade deste tipo de jogo é absolutamente assustadora”, disse o professor Grégory, referindo-se ao “happy slapping” (literalmente “tapa feliz”), que consiste em filmar a agressão física a uma pessoa e postar o vídeo nas redes sociais. No desafio da Baleia Azul (Blue Whale Challenge), a versão anterior do Momo Challenge , o jogador deve completar um desafio todos os dias durante 50 dias, sendo o último desafio… o próprio suicídio.

“Esta é a forma mais paroxística desses jogos”, disse o professor Grégory. O jogo começa de uma forma suave: desenhar uma baleia azul na própria mão, depois escarificar uma baleia no braço, ouvir músicas extremadamente lúgubres… parece um tipo de endoutrinamento”.

A criatividade deste tipo de jogo é absolutamente assustadoraGrégory Michel

Se singularizar para existir

As curtidas nas redes sociais, então, servem de reforço positivo; os insultos e as zombarias da comunidade servem de reforço negativo. Encontramos nesse tipo de desafio “a noção de vício porque há perda do controle, mas também perda da autopreservação induzida pela falta de sono ou pelo consumo de substâncias”.

Mas por que cada vez mais adolescentes estão aceitando esses tipos de desafios? Em primeiro lugar, porque ” a internet é uma espécie de lente de aumento e, ao mesmo tempo, o próprio amplificador desse tipo de comportamento”, analisou o professor Grégory. Embora os jogos de desafios sempre tenham existido, a divulgação das imagens na internet vai confortar, “narcisificar” o jovem que muitas vezes, está sem referencial e se sente incapaz ou tem baixa autoestima. Por trás do princípio de “você não consegue fazer isso”, os jovens estão tentando se singularizar para existir.

A influência dos modelos (celebridades…) nas redes sociais também amplifica a atual moda dos jogos de desafio, de acordo com o professor Grégory. Algumas redes sociais são mais prejudiciais do que outras para adolescentes.

“O estudo inglês #StatusOfMind , por exemplo, mostrou que entre as plataformas Twitter, Facebook, Instagram e Snapchat, o Instagram representa para as meninas o maior risco de adquirir complexos psicológicos relacionados com o ideal de magreza”, lembrou o professor Grégory.

Quais são os perfis dos jovens? Por quê? Como prevenir?No estudo transversal publicado no periódico Pediatrics em fevereiro de 2019, o Dr. Grégory et al. obtiveram dados de 1.171 crianças e adolescentes de 9 a 16 anos de idade sobre a prática do “jogo da asfixia” ou “jogo do lenço” na França. [2] O objetivo era identificar os perfis de risco para poder adotar ações preventivas no futuro.

O estudo mostrou que 9,7% desses jovens participaram pelo menos uma vez desses “jogos”, sozinhos ou em grupo, resultado próximo dos 7,4% encontrados em uma metanálise de 2015. [3] Contrariamente aos estudos anteriores, que mostraram que os meninos adotavam mais esses tipos de comportamentos de risco, o estudo francês mostrou que as meninas estão igualmente engajadas. Entre os fatores de risco encontrados, os pesquisadores identificaram o uso de substâncias químicas (tabaco, maconha), alta prevalência de sinais e sintomas de depressão e de transtorno da conduta. Por outro lado, o uso de bebidas alcoólicas, a prática de esportes de alto risco e o fato de assumir riscos em veículos de duas rodas, ou os critérios sociodemográficos, não foram associados à participação nos “jogos de asfixia”.

Para explicar esses resultados, os pesquisadores propõem várias hipóteses. Uma é que a participação nesses “jogos” seja um mecanismo de automedicação para combater a angústia e a ideação suicida. Esses “jogos” podem ser usados para regular as emoções negativas.

Em termos de prevenção, os psiquiatras, portanto, recomendam identificar os jovens com sinais e sintomas concomitantes de transtorno de conduta e depressivos, a fim de informá-los sobre os riscos desses tipos de jogos e ajudá-los. Na prática, os autores preconizam a elaboração de programas de prevenção que ajudem a regular as emoções.

 

FONTE: Medscape

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