Velhice é doença?

O envelhecimento é inexorável, faz parte da vida e promove mudanças que aumentam vulnerabilidades biopsicossociais. Estas, implicam maiores riscos à manutenção da saúde física e mental, com a redução da capacidade de adaptação, o encurtamento e a piora da qualidade da vida.

Diante desse cenário negativo, cabe perguntar:

Evidentemente, as respostas que muito provavelmente atenderiam às expectativas da maioria das pessoas, diriam que o envelhecimento:

O tema é fascinante e merece uma análise.

O envelhecimento pode ser considerado doença

O tempo promove distúrbios anatômicos e funcionais que, mesmo quando não causam manifestações clínicas, são o fator de risco dominante do aparecimento das afecções cardiovasculares. O envelhecimento sem repercussões clínicas pode ser chamado de “bem-sucedido”, enquanto aquele acompanhado de doenças manifestas e de suas consequências é o envelhecimento “malsucedido”. Vale lembrar que o envelhecimento “bem-sucedido” é multidimensional, pois abrange as funções física, cognitiva, social e emocional. [1]

O Dr. Edward Lakatta, conhecido pesquisador do envelhecimento cardiovascular, considera os múltiplos distúrbios cardiovasculares celulares e moleculares associados ao envelhecimento como doença, mesmo antes de surgirem manifestações clínicas. [2] Esse conceito parece correto e recentemente foi reforçado pela proposta de uma nova visão sobre os mecanismos pelos quais o envelhecimento pode promover a aterosclerose e os eventos cardiovasculares: a hematopoese clonal de potencial indeterminado, ou Clonal Hematopoiesis of Indeterminate Potential(CHIP)[3]

Em resumo, seria uma doença relacionada com a idade e caracterizada pela aquisição de mutações somáticas em células estaminais hematopoiéticas. Como consequência, em vez da geração policlonal normal de células sanguíneas, os clones contendo mutações se expandiriam ao longo do tempo, compondo uma porcentagem crescente de células-tronco. A CHIP é raramente encontrada em jovens, mas pode existir em até 10% das pessoas acima de 70 anos.

Chamam a atenção os fatos de a presença da CHIP se associar a maior calcificação coronária, duplicar o risco de doença cardíaca coronariana e, entre pessoas com menos de 50 anos, quadruplicar o risco de infarto do miocárdio. Adicionalmente, vários estudos indicam que a existência de CHIPpode acelerar a inflamação.

O envelhecimento não é cronológico nem homogêneo

A definição de envelhecimento baseado apenas na idade facilita análises demográficas e epidemiológicas. Contudo, além da idade cronológica, há idades que expressam as várias dimensões do envelhecimento. São elas, as idades biológica, funcional, social e psicológica.

Múltiplos fatores podem influenciar a velocidade e a intensidade das alterações relacionadas com o envelhecimento. O próprio tempo tem o seu papel, é claro, assim como doenças, sequelas, estilo de vida, genética e ambiente. Todos se entrelaçam e interagem de modo variável ao longo do tempo.

A resultante dessa interação é uma grande heterogeneidade. É fácil perceber como idosos com a mesma idade podem ser muito diferentes.

O envelhecimento pode ser modificado

Como já visto, as alterações cardiovasculares associadas à idade aumentam o risco de doenças. As doenças, por sua vez, aceleram as alterações, criando um ciclo vicioso.

A hipertensão arterial é um bom exemplo. O envelhecimento das artérias propicia o aparecimento da hipertensão, que promove uma aceleração das alterações arteriais.

A noção de que o envelhecimento é um processo cronológico e seus componentes de risco não podem ser modulados não parece defensável. [4]

Os avanços no conhecimento sobre biologia vascular (como da CHIP), genética, epidemiologia, prevenção, influência ambiental, diagnósticos, tratamentos e sistemas de atenção à saúde oferecem a possibilidade de atuar sobre os múltiplos fatores implicados na patogênese e na progressão das doenças arteriais, tão prevalentes nos idosos. Existem evidências, por exemplo, de que a atividade física regular, a restrição calórica e alguns tipos de dieta são capazes de atenuar os efeitos do envelhecimento cardiovascular. [5,6,7]

Conclusão

Pode-se concluir que o envelhecimento é uma doença, não é cronológico, é heterogêneo e pode ser modificado.

Essa doença, quando ainda não causou manifestações clínicas, a chamada “senescência”, aumenta riscos e vulnerabilidades. Quando essa doença causa manifestações é mais claramente vista como doença, denominada de “senilidade” e está incluída no CID 10, com o código R54.

De modo geral, as doenças cardiovasculares prevalentes nos idosos (relacionadas com o envelhecimento) são crônicas e passíveis apenas de controle, e não de cura.

Fica a esperança de que a evolução do conhecimento sobre as ligações entre o envelhecimento e as doenças cardiovasculares traga novas perspectivas na prevenção e no retardamento do envelhecimento arterial.

Contudo, enquanto os mecanismos intrínsecos e as consequências do envelhecimento cardiovascular não forem devidamente desvendados, resta atuar efetivamente em outros aspectos, como estilo de vida, ambiente e controle de fatores de risco e doenças.

Enfim, a tão sonhada fonte da juventude está ao mesmo tempo tão longe e tão perto.

 

Fonte: medscape.com

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